BRANDS' ECO Mira Amaral pede engenharia com mais gestão e ambição para mudar o país
No keynote da conferência Reposicionar Portugal, o ex-ministro defendeu maior aposta em soft skills, na construção de empresas maiores e no melhor uso dos fundos comunitários.
A engenharia continua a ser uma peça central para o futuro do país, mas já não chega pensar nela apenas como domínio técnico. Essa foi uma das ideias fortes deixadas por Luís Mira Amaral no keynote “Engenharia ao comando da mudança”, na conferência Reposicionar Portugal, organizada pela Ordem dos Engenheiros – Região Sul e pela Associação de Interim Management (AIM). Ao longo da intervenção, o antigo ministro defendeu uma formação mais completa para os engenheiros, com economia, gestão, capacidade de comunicação e sensibilidade para liderar pessoas.

Partindo da sua própria experiência académica e profissional, Mira Amaral descreveu como o velho “mindset” das engenharias, muito fechado sobre a tecnologia, se tornou insuficiente para a realidade atual. “Hoje em dia é adequada uma formação de conciliação tecnológica [com] também algo de economia de gestão de organizações e os soft skills aos engenheiros”, afirmou, sublinhando que as empresas precisam de quadros capazes de evoluir dentro das organizações. “Se vocês querem evoluir na empresa, não podem ficar sempre na mesma função. Têm de mudar de funções”, avisou.
O problema, considera, não está na perda de relevância da engenharia, mas na necessidade de a ligar mais diretamente à gestão e à decisão. O ex-ministro sustentou que os engenheiros partem com vantagens importantes – da lógica de sistemas à capacidade analítica –, mas precisam de complementar esse capital com competências menos técnicas. E deixou mesmo um reparo à realidade nacional, ao notar que os graduados das escolas de gestão chegam muitas vezes ao mercado com melhores ferramentas de apresentação e comunicação do que os formados em engenharia.
A gente está a exportar os talentos que decidem a economia portuguesa e depois está a importar a mão de obra indiferenciada
O discurso alargou-se depois à economia portuguesa, que Mira Amaral diz estar presa a um crescimento baixo porque o seu “PIB potencial” avança pouco e porque a discussão pública sobre os fundos europeus está excessivamente focada na execução. “A grande preocupação devia ser ver a qualidade dos projetos financiados”, disse, criticando a obsessão de “executar 100% dos fundos” sem avaliar devidamente a sua capacidade transformadora. Na sua perspetiva, há investimentos que ajudam no curto prazo, mas falham na criação de produtividade e crescimento sustentado.
“A gente está a exportar os talentos que decidem a economia portuguesa e depois está a importar a mão de obra indiferenciada”, afirmou, defendendo que Portugal continua demasiado dependente de setores intensivos em trabalho e de baixos salários. Para Luís Mira Amaral, isso trava a modernização económica e retira incentivo às empresas para investirem mais em tecnologia, capital e qualificação.
O nosso problema não é um problema congénito português de falta de capacidade. É um problema de falta de dimensão
Na inovação, o ex-ministro distinguiu a investigação de aplicação económica do conhecimento. O país, reconheceu, progrediu bastante no plano científico, embora continue a falhar na passagem desse conhecimento para o tecido empresarial. A fragilidade, disse, agrava-se com a atomização do tecido produtivo. “O nosso problema não é um problema congénito português de falta de capacidade. É um problema de falta de dimensão”. Daí o apelo a políticas públicas mais focadas em fazer crescer as empresas, e não apenas em multiplicar pequenas unidades sem escala para inovar, internacionalizar e ganhar produtividade.
Já na reta final, o economista e ex-ministro abordou a inteligência artificial e procurou desmontar as leituras mais alarmistas. “A inteligência artificial vai destruir algumas das funções, mas não destrói todos os postos de trabalho”, afirmou, defendendo que a tecnologia pode libertar tempo para tarefas de maior valor. O risco maior, sugeriu, não será tanto o desaparecimento puro e simples do emprego, mas a distância entre quem aprende a trabalhar com estas ferramentas e quem fica para trás. Mira Amaral aponta ainda características do Interim Management para mudar Portugal: “Foco em resultados, Accountability e Coragem.”
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