Moda como arte na Gulbenkian. A alta-costura, arte e património

Lina Santos,

"Arte & Moda", a nova exposição da Fundação Calouste Gulbenkian, reúne 270 obras de arte e peças de alta costura e design do século XVII aos nossos dias. Onde um Saint Laurent fala com um Manet.

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  • • A exposição "Arte e Moda" foi inaugurada este sábado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, reunindo 270 peças de arte, património e alta-costura de diversas coleções internacionais e nacionais.
  • • O curador espanhol Eloy Martínez de la Pera Celada destaca o diálogo entre obras de arte de nomes como Frans Hals, Van Dyck e Rembrandt e peças de alta-costura de Alexander McQueen, Givenchy, Balenciaga e Charles Frederick Worth.
  • • A mostra inclui criações de designers portugueses como José António Tenente, Nuno Baltazar, Alves/Gonçalves, Maria Gambina, Storytailors e peças de Joana Vasconcelos, que integra têxteis na arte.
  • • O curador sublinha que a exposição pretende mostrar a alta-costura como arte, evitando dar ênfase ao uso por celebridades, com exceção do vestido vermelho de Givenchy usado por Audrey Hepburn.
  • • A exposição está patente até 21 de junho na galeria principal da Fundação Calouste Gulbenkian, com horários das 10h00 às 18h00 e, aos fins de semana, até às 21h00, encerrando à terça-feira.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

“O que aqui vemos nunca se viu”. É o curador espanhol Eloy Martínez de la Pera Celada quem o diz quando a visita guiada à exposição “Arte e Moda”, inaugurada este sábado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, vai mais ou menos a meio. Lidera um grupo de jornalistas que, por entre técnicos, luzes, legendas em vias de serem coladas nos locais certos, escadotes, ferramentas, e pede: “olhem para trás”. Fá-lo como quem quer que se contemple um espetáculo: Alexander McQueen, Givenchy, Balenciaga e Charles Frederick Worth, os mais nomes da alta-costura, lado a lado com algumas das obras de arte da Coleção Gulbenkian – Frans Hals, Van Dyck, Rembrandt.

Arte & Moda tardou cinco anos em ver a luz e reúne 270 peças de arte, património e alta-costura, oriundas da coleção Gulbenkian, mas também do Museu do Traje de Espanha e do MUDE – Museu do Design, da Fundação Givenchy e da Fundação Azzedine Alaïa, entre outras, e é uma conversa constante entre as obras do museu e os maiores nomes da alta-costura que começa na máscara funerária dourada oriunda do Egito e no vestido da designer chinesa Guo Pei, grande, também dourado. “O dourado tem sido muito importante na pintura e também no vestuário, no fio de ouro”, explica o curador. Tal como as penas. Primordialmente “usadas para proteção”, estão ainda hoje presentes na moda, como demonstram as peças de Hubert de Givenchy. Ou a Antiguidade Clássica, que vemos num vaso grego ao lado de um vestido de Saint Laurent. Ou o Oriente, “que sempre foi uma inspiração”. Ou nos tons azuis e brancos, que estão na porcelana chinesa, mas “também os vemos na porcelana de Delft, em Talavera de La Reina ou nos azulejos portugueses”. Na exposição, está ao lado de mais um vestido monumental de Guo Pei e de outro da dupla portuguesa Storytailors.

Não são os únicos portugueses que aqui se encontram. Também há peças de José António Tenente, Nuno Baltazar, Alves/Gonçalves, Maria Gambina e, do lado de quem empresa, de Joana Vasconcelos. “Eu queria muito ter uma peça da Joana Vasconcelos aqui”, diz Eloy Martínez de la Pera. “Ela mistura têxtil na arte, e é a representação de alguém que cria arte com moda”, afirma o curador, lembrando que a artista “fez incríveis colaborações com Dior” e que “usa ouro, passamanaria”.

“Não queremos dar ênfase às peças usadas por celebridades porque queremos que as vejam como são, obras de arte”, afirma Eloy Martínez de la Pera diz, abrindo uma exceção para o vestido vermelho de Givenchy usado por Audrey Hepburn, já que “a pessoa que popularizou a alta-costura foi Givenchy com Audrey Hepburn”. Por outro lado, mas também na exposição, é a Charles Frederick Worth que o curador atribui a paternidade da alta-costura, em 1852, explicando que o designer britânico “começa a assinar as suas peças de roupa, que merecem o mesmo tratamento que uma obra de arte”. Foi também ele que alterou a relação com os clientes quando estes passaram a visitá-lo no seu atelier (e não o contrário), como era costume, e começou a tradição de fazer coleções duas vezes por ano – primavera/verão e outono/inverno – e, com a ajuda da mulher, que mostrava os seus vestidos, inaugurou a ideia de ter alguém a desfilar os seus modelos em vez de os mostrar numa boneca. “Isso mudou tudo. O designer era o líder”, resume o curador.

“Também percebeu que se uma pessoa importante usasse o seu vestido, outros quereriam”, diz, fazendo uma referência à que chama de “primeira influencer de sempre”, a imperatriz Eugénia de Montijo, mulher de Napoleão III e a primeira cliente da realeza de Worth. O que usava era desejado por outras mulheres, diz, lembrando os 150 modelos que terá levado para o Egito por ocasião da abertura do Canal de Suez, onde esteve em representação do marido e usou o que ficou conhecido como “verde Nilo”.

O curador sublinha também que a exposição não se limita à moda feminina nem a uma visão restrita da alta-costura. Por exemplo, “queríamos mostrar que a alta-costura e a alta moda não são apenas de mulher”, diz, lembrando que “os homens usavam saltos e meias” no século XVIII. Mais, “não é por algo ser popular que não é alta-costura” e dá como exemplo que “há muita alta-costura na cultura popular”. Os trajes de Viana do Castelo são um exemplo.

“Os tecidos, as texturas e as silhuetas dialogam com os mármores, as madeiras, as porcelanas e as telas do Museu. Uma manga de gaze de Balenciaga pode encontrar o seu eco num pregueado escultórico de Antonio Canova; a filigrana de uma peça da dinastia Qing pode refletir-se num vestido de Alexander McQueen; um azul de Hermès pode reverberar num retrato de Jean-Auguste Renoir; um espartilho de Schiaparelli pode ser o protagonista de uma cena de cumplicidade feminina pintada por Niklas Lafrensen; e os bordados de Jan Taminiau podem encontrar correspondência numa imponente natureza-morta de Jan Weenix. Nestes encontros visuais, o visitante descobre a continuidade secreta da beleza”, escreve no catálogo Eloy Martínez de la Pera.

O projeto, conta o curador, mobilizou toda a estrutura do museu. “Esta exposição é um esforço do museu Gulbenkian e de todos os departamentos”, conta. “Fui muito chato, pedi peças em todos”. O resultado é um percurso que junta pintura, tapeçaria, artes decorativas e criação de moda para mostrar como o vestuário passou a ser visto não apenas como adorno ou uso, mas também como arte, património e linguagem central da economia do luxo.

A exposição pode ser vista até 21 de junho na galeria principal da Fundação Calouste Gulbenkian, das 10h00 às 18:00. Sábados e domimngos, 10h00 às 21h00 (encerra à terça-feira).

Pontos-chave
Sábado: Inauguração da exposição “Arte e Moda” na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
1852: Charles Frederick Worth começa a assinar as suas peças de roupa, sendo considerado o pai da alta-costura.
século XVIII: Referência ao uso de saltos e meias por homens.
21 de junho: Data até à qual a exposição pode ser visitada na galeria principal da Fundação Calouste Gulbenkian.
10h00 às 18h00: Horário da exposição na galeria principal da Fundação Calouste Gulbenkian.
Sábados e domingos, 10h00 às 21h00: Horário alargado da exposição aos fins de semana.
terça-feira: Dia em que a exposição está encerrada.

 

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