BRANDS' ECO Crescimento sem Desenvolvimento: O Paradoxo da “Economia do Ano”
O reconhecimento de Portugal como “Economia do Ano” enaltece o crescimento macroeconómico, enquanto o verdadeiro desenvolvimento, aferido pela redução das desigualdades, permanece adiado.
A distinção de Portugal como “Economia do Ano” pela revista The Economist expôs, uma vez mais, a fratura entre uma análise económica superficial e a realidade social do país. A publicação britânica centrou a sua análise em indicadores macroeconómicos: a inflação, o desvio da inflação, o emprego, o desempenho da bolsa de valores e o crescimento económico, entendido como aumento quantitativo do Produto Interno Bruto (PIB). Ignorando, portanto, as mudanças estruturais e sociais necessárias ao bem-estar coletivo. Uma “Economia do Ano” deveria conseguir desenvolver-se. E não apenas crescer. Genericamente, a noção de desenvolvimento traduz o processo de melhoria da qualidade de vida e da capacidade real de fazer escolhas. A sua evolução pode ser aferida através de três dimensões propostas por Dudley Seers, economista britânico reconhecido por contrariar o fetichismo do crescimento: O que aconteceu à pobreza? O que aconteceu ao desemprego? O que aconteceu à desigualdade?

Pobreza: O Emprego e a Insuficiência Económica
O emprego só gera desenvolvimento quando assegura dignidade e subsistência e, ainda que o desemprego esteja relativamente baixo, neste ponto a análise macroeconómica diverge da experiência quotidiana. Portugal tem uma das maiores taxas de pobreza entre os trabalhadores da União Europeia (quase 10%). Cerca de 20% dos trabalhadores empregados permanecem em risco de pobreza antes das transferências sociais, um indicador particularmente preocupante num contexto de crescimento económico, que evidencia a persistência do fenómeno dos “trabalhadores pobres”. Mesmo após a intervenção do Estado, através de prestações sociais, a taxa de risco de pobreza representa cerca de 16%. A estrutura produtiva nacional, ainda muito assente em pequenas e médias empresas de baixa intensidade tecnológica, gera postos de trabalho que, embora estatisticamente válidos, caracterizam-se por níveis salariais que não acompanham o custo de vida. O crescimento do PIB convive, assim, com um “achatamento” salarial, em que o salário médio se aproxima do salário mínimo, limitando a mobilidade social e a capacidade de planeamento de vida dos jovens e das famílias.
Emprego: A Dependência do Turismo e a Baixa Produtividade
A aposta no turismo, que representa direta e indiretamente cerca de 20% do PIB, ilustra bem a ideia de crescimento sem desenvolvimento estrutural. O sector gera receitas rápidas e equilibra a balança comercial, mas tende a cristalizar uma economia de baixo valor acrescentado. Ao canalizar recursos para serviços que exigem pouca qualificação, Portugal desperdiça uma geração qualificada, empurrando-a para a emigração. O trabalho do turismo continua a ser dominado por formas atípicas de emprego, marcadas pela precariedade. Exportamos “desenvolvimento” com a saída de capital humano qualificado e importamos “crescimento” com o aumento do consumo turístico. Tornando o país cada vez mais vulnerável a choques externos e dependente de uma procura internacional volátil.
Desigualdade: A Habitação como Fator Crítico
A terceira dimensão identificada, a desigualdade, encontra na habitação um ponto crítico. O crescimento económico recente baseou-se, em parte, na atração de capital externo, o que exerceu uma forte pressão sobre o mercado imobiliário, agravada nos últimos anos pela crescente financeirização da habitação. Dados consolidados até ao final de 2025 (Eurostat e INE) indicam que os preços da habitação em Portugal mais do que duplicaram face a 2010 (superando a barreira dos 100% de aumento acumulado), um ritmo de valorização que supera largamente a média europeia. Este desfasamento, face à evolução substancialmente mais lenta dos salários, produziu uma transferência de renda dos trabalhadores para os detentores de capital imobiliário. Os custos com habitação em Portugal representam cerca de 40% dos rendimentos, ultrapassando os 70% no caso dos trabalhadores de baixos rendimentos. O acesso à habitação tornou-se, assim, um bloqueio à emancipação jovem e um fator de segregação territorial, empurrando as classes médias para periferias cada vez mais distantes.
A resposta às questões de Seers, aplicadas ao contexto português, revela um diagnóstico que devia ser levado a sério: a pobreza mantém-se estrutural, mitigada apenas por transferências sociais; o desemprego diminuiu, mas deu lugar à precariedade; e a desigualdade agravou-se no acesso a bens fundamentais, como a habitação. Portugal vive uma profunda dissonância, que projeta a imagem de um ‘oásis’ de estabilidade para investidores e turistas, enquanto, internamente, os seus cidadãos enfrentam barreiras crescentes à subsistência e à manutenção dos níveis de bem-estar social. Um país frágil.
A sugestão política de adotar uma “mentalidade de Cristiano Ronaldo” merece, neste contexto, crítica. Embora a resiliência individual seja uma virtude, esta retórica promove a individualização de problemas de natureza estrutural. Insinuar que a superação das dificuldades depende da persistência do indivíduo materializa a falência, cada vez mais evidente, da nossa vida coletiva e, em particular, do Estado Social em assegurar condições de base equitativas. O verdadeiro desenvolvimento não se mede pela capacidade de criar exceções extraordinárias que fintam a adversidade. Mede-se pela capacidade de garantir que o cidadão comum tenha uma vida digna, sem exigir heroísmo quotidiano.
Este artigo expressa apenas a opinião da sua autora, não representando a posição das entidades com as quais colabora.
Ana Rita Cruz é Professora de Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve e Investigadora do CinTurs – Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-Estar.
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