Drones, ‘gémeos digitais’, aeronáutica. Indústria de defesa nacional ruma aos EUA

Empresas nacionais do setor de defesa iniciam uma missão empresarial em Washington. Mais do que um bloqueio para negócio, olham para o atual momento das relações EUA-Europa como oportunidade.

Apesar da crescente tensão entre Europa e Estados Unidos, com o Irão a testar as relações entre aliados, as empresas portuguesas de defesa mostram-se otimistas com os potenciais resultados da participação na feira Sea-Air-Space Expo e no PT-US Defence Industry Days que arranca esta segunda-feira em Washington, nos EUA. “As empresas não fazem política. Quem faz política são os políticos.”

Um total de 22 empresas nacionais de defesa estão esta segunda-feira na capital norte-americana na “primeira participação estruturada deste tipo nos EUA”, visando “reforçar a visibilidade e o posicionamento da indústria de Defesa Nacional junto da maior indústria de Defesa do mundo”, como descreve a idD Portugal Defence, entidade que gere as participações do Estado português no setor da Defesa, esta missão empresarial ao maior mercado de defesa a nível mundial.

É um mercado que se mede em milhares de milhões. E no caso da defesa falamos do maior orçamento de um país a nível mundial: cerca de um bilião de dólares, sendo que a administração de Donald Trump quer reforçar os cofres da defesa do país em 50%, já no próximo ano.

Só pela dimensão é, claramente, um mercado apetecível para as empresas de defesa nacionais. Mas, além disso, com o atual momento de conflitualidade geopolítica, há uma procura interna crescente.

Donald Trump tem feito inúmeros apelos à indústria de defesa do país para aumentar a sua capacidade de produção e, recentemente, o Departamento de Defesa dos EUA terá reunido com empresas do setor automóvel, como as gigantes General Motors e a Ford Motor, para que convertam parte da sua capacidade produtiva e equipas ao fabrico de equipamento militar, noticiou o Wall Street Journal.

Sea-Air-Space é um dos principais fóruns globais de contacto com decisores, prime contractors e entidades governamentais dos Estados Unidos, o que cria condições únicas para reforçar relações com parceiros já existentes, incluindo empresas portuguesas com presença local, identificar novas oportunidades de negócio e integração em cadeias de valor internacionais e posicionar Portugal como um parceiro tecnológico credível e competitivo.

José Neves

Presidente do AED Cluster

Um potencial momento de oportunidade para a indústria de defesa portuguesa. As expectativas “são bastante positivas”, admite José Neves sobre esta participação, inserida “numa estratégia clara de internacionalização e afirmação das capacidades tecnológicas nacionais no setor da defesa”.

É a primeira vez que Portugal tem um stand na Sea-Air-Space. “É um dos principais fóruns globais de contacto com decisores, prime contractors e entidades governamentais dos Estados Unidos, o que cria condições únicas para reforçar relações com parceiros já existentes, incluindo empresas portuguesas com presença local, identificar novas oportunidades de negócio e integração em cadeias de valor internacionais e posicionar Portugal como um parceiro tecnológico credível e competitivo”, destaca o presidente da AED Cluster, associação que representa 160 empresas do setor de defesa, espaço e aeronáutica nacional.

José Neves aponta ainda outro momento dos três dias de missão em Washington, como potencial gerador de negócio: o PT-US Defence Industry Days, a realizar na embaixada de Portugal. “Uma iniciativa orientada para promover encontros entre empresas portuguesas e norte-americanas, estimular parcerias e transformar presença institucional em oportunidades concretas de cooperação industrial”, refere.

Em que área Portugal pode marcar diferença e atrair maior atenção das empresas de defesa americanas? José Neves elenca. “Áreas onde Portugal tem vindo a afirmar competências diferenciadoras, nomeadamente: sistemas autónomos e drones, software crítico e cibersegurança, materiais avançados e inteligentes, eletrónica e sistemas embarcados, tecnologias dual-use com aplicação civil e militar e o setor das tecnologias de espaço.”

Objetivo: prospeção de negócio

Estreitar relações com empresas locais, prospeção de mercado, fechar negócio. São vários os motivos que levaram a mais de duas dezenas de empresas — Aralab, Atena, BeyondComposite, Beyond Vision, Brestahl Engineering, Cablotec, Critical Software, EEA Aircraft and Maintenance, EID, Electrofer Coatings (Grupo Metalogalva), Infinite Foundry, Morais Leitão Galvão Teles Soares da Silva & Associados, NOS Security Technology, OGMA, Optimal Group, Orion Technik, Picklog, Spin.Works, Swatter Company, TecnoVeritas, Tekever USA e Usafe — do setor de drones, à aeronáutica, compósitos ou tecnologia, a rumar para os EUA

Para Francisco Oom Peres, a ida da Orion Technik tem como principal objetivo reforçar o posicionamento da empresa do setor de aeronáutica no ecossistema da defesa e aeroespacial português.

“Estar presente no Sea-Air-Space Expo e no PT-US Defence Industry Days permite-nos não só acompanhar esse movimento, mas também contribuir ativamente para a projeção da capacidade industrial portuguesa junto de um dos mercados mais relevantes a nível global”, explica o CEO.

Mais do que resultados imediatos, o objetivo é consolidar a Orion Technik como um parceiro credível e competitivo à escala internacional, contribuindo simultaneamente para o posicionamento de Portugal enquanto hub relevante na área da manutenção, reparação e engenharia aeronáutica e de defesa.

Francisco Oom Peres

CEO da Orion Technik

Não havendo propriamente uma expectativa de recolher frutos imediatos, entenda-se, fechar contratos. “Olhamos para esta participação sobretudo como uma plataforma de médio e longo prazo: reforço de relações com OEM e operadores, integração em novos programas e identificação de parcerias que permitam escalar capacidades a partir de Portugal”, aponta Francisco Oom Peres.

“Mais do que resultados imediatos, o objetivo é consolidar a Orion Technik como um parceiro credível e competitivo à escala internacional, contribuindo simultaneamente para o posicionamento de Portugal enquanto hub relevante na área da manutenção, reparação e engenharia aeronáutica e de defesa”, sintetiza.

Os EUA representam cerca de 20% das receitas globais do Optimal Group. “É um peso significativo. Chegámos até a mais do que isso antes do Covid, depois caiu e agora estamos a crescer muito com o mercado americano até a trabalhar para uma área mais invulgar, o mercado do espaço, com os satélites”, adianta António Reis, CEO do grupo que atua na produção de peças em compósitos.

Mas não é só no espaço que o grupo está focado, olhando com um interesse crescente para o setor de defesa onde já atua na produção de fuselagens de drones ou proteção balística.

“O mercado americano é muito interessante. Sempre tivemos presença, sempre trabalhamos com o mercado americano e, portanto, achamos uma boa oportunidade esta feira”, justifica António Reis.

“A minha experiência é que não se fecha negócio no momento da feira, a não ser em raras exceções. Vamos à feira para nos darmos a conhecer, conhecermos mais potenciais clientes, dar a conhecer os nossos produtos e o que nós fazemos, e depois, a partir daí, explorar novas oportunidades para o futuro com quem falar connosco”, sintetiza quando questionado sobre as expectativas com esta participação.

Dário Pedro resume numa frase os objetivos da Beyond Vision com esta ida a Washington: “Mais contactos e alinhamento com o nosso plano de expansão.” Neste mercado, a fabricante de drones já fechou um contrato de, “pelo menos 15 milhões” para o fornecimento de drones para emergência médica, tendo ainda anunciado o investimento de 50 milhões numa fábrica no país.

Com presença nos Estados Unidos, onde tem escritório, para a Tekever a participação nesta missão é “uma oportunidade para reforçar as relações com parceiros industriais e institucionais e identificar oportunidades de colaboração futura”, diz fonte oficial da unicórnio nacional de drones.

“No quadro de uma relação de longo prazo entre Portugal e os Estados Unidos, vemos esta visita como mais um passo para aprofundar a cooperação industrial e tecnológica, reforçar interoperabilidade e continuar a construir relações de longo prazo”, diz a mesma fonte.

Vamos apresentar o trabalho que temos vindo a desenvolver no âmbito do projeto AMIDA, onde estamos a construir um novo tipo de sistema baseado em gémeos digitais operacionais e inteligência física distribuída, aplicado à gestão do terreno de batalha e de ambientes altamente dinâmicos.

André Godinho Luz

CEO da Infinite Foundry

Embora seja a primeira vez que a Infinite Foundry participa numa missão deste tipo em Washington, André Godinho Luz vai com um plano de ação definido: “Prospeção estratégica e posicionamento num mercado extremamente relevante como o norte-americano”.

“Vamos apresentar o trabalho que temos vindo a desenvolver no âmbito do projeto AMIDA, onde estamos a construir um novo tipo de sistema baseado em gémeos digitais operacionais e inteligência física distribuída, aplicado à gestão do terreno de batalha e de ambientes altamente dinâmicos”, explica o CEO.

“Este tipo de abordagem responde a um desafio que hoje é cada vez mais evidente: o ritmo de evolução tecnológica em contexto de conflito é extremamente acelerado, com ciclos de melhoria que podem ocorrer em poucos meses. Nesse contexto, torna-se crítico dispor de plataformas que permitam não só coordenar operações de forma mais eficiente — incluindo meios robóticos — mas também simular, testar e adaptar continuamente sistemas e táticas, com base numa compreensão profunda do ambiente operacional”, refere o fundador da Infinite Foundry, empresa que tem vindo a trabalhar com o Exército Português na criação, através de inteligência artificial, de ‘gémeos digitais’ de cenários operacionais, permitindo uma melhor gestão dos meios no teatro operacional

“É precisamente esse enquadramento que vamos apresentar nos Estados Unidos: uma visão integrada onde a digitalização do terreno de batalha permite ligar, de forma contínua, a operação no terreno com a melhoria dos sistemas, acelerando o ciclo entre execução, análise e evolução tecnológica”, sintetiza.

Tensão EUA-Europa poderá ter impacto no negócio?

A missão empresarial ocorre num momento particularmente tenso das relações entre a Europa e os EUA — com o conflito no Irão e a recusa dos aliados NATO a envolver forças militares na região ou até a vedar acesso a bases ou espaço aéreo —, mas as empresas participantes não encaram o atual momento como tendo um potencial efeito negativo no fecho de negócios.

“No setor da defesa, os ciclos são longos e as relações relevantes tendem a ser estruturais. Por isso, mais do que olhar para o momento geopolítico em termos conjunturais, vemos espaço para continuar a aprofundar colaboração industrial, tecnológica e operacional entre empresas dos dois países”, diz apenas fonte oficial da Tekever.

Dário Pedro admite um impacto q.b. “Mais do que uma rutura, vemos este momento como um incentivo para a Europa acelerar o desenvolvimento e melhor aproveitamento da tecnologia que já possui, reforçando capacidades próprias, mas mantendo uma relação próxima e colaborativa com os EUA”, afirma o CEO da Beyond Vision.

No setor da defesa, os ciclos são longos e as relações relevantes tendem a ser estruturais. Por isso, mais do que olhar para o momento geopolítico em termos conjunturais, vemos espaço para continuar a aprofundar colaboração industrial, tecnológica e operacional entre empresas dos dois países.

Tekever

Fonte oficial

O ambiente político atual até pode ser de “algum desconforto e desconfiança”, mas no entender de Francisco Oom Peres isso não se tem refletido relação entre as empresas dos dois lados do Atlântico. “Sentimos que está a afetar as bases de entendimento político existente há várias décadas entre países aliados e que partilham os mesmos valores civilizacionais, mas que não se têm transposto para o dia a dia da economia entre estes países e a suas empresas”, diz o CEO da Orion Technik.

André Agostinho Luz admite que o contexto traz alguma “complexidade adicional”, em particular “em áreas mais sensíveis do ponto de vista industrial ou de defesa”, mas, ressalva, “também se está a reforçar a necessidade de cooperação entre aliados, nomeadamente em áreas como a digitalização, a autonomia tecnológica e a capacidade de adaptação rápida a novos cenários”.

“Para nós, o fator mais relevante será a capacidade de encontrar os parceiros certos, entidades que compreendam o valor diferenciador da nossa abordagem e que estejam alinhadas numa lógica de cooperação de longo prazo. Acreditamos que, neste domínio, soluções que aumentem a eficiência operacional, a resiliência e a capacidade de evolução contínua dos sistemas serão cada vez mais valorizadas, independentemente do contexto geopolítico”, sinaliza o fundador da Infinite Foundry.

O momento exige “prudência”, mas também “realismo”, considera José Neves. O presidente da AED Cluster explica. “Pode introduzir alguma incerteza no curto prazo ao nível político e regulatório. No entanto, no plano industrial e operacional, a cooperação entre a Europa e os Estados Unidos no setor da Defesa mantém-se estruturalmente sólida e estratégica”, diz.

As empresas não fazem política. Quem faz política são os políticos. Nós vemos oportunidade de trabalhar com empresas americanas e empresas americanas têm interesse em trabalhar com empresas europeias.

António Reis

CEO do Optimal Group

“O reforço das capacidades de defesa europeias e o aumento do investimento no setor tendem a criar mais oportunidades — não menos — para empresas com competências tecnológicas relevantes. Portugal, enquanto aliado da NATO e parceiro confiável, está bem posicionado para beneficiar deste contexto, sobretudo através de soluções inovadoras e competitivas desenvolvidas pelas nossas empresas”, acrescenta.

Mais do que um fator de bloqueio, o atual momento pode representar uma oportunidade para reforçar o papel da indústria portuguesa nas cadeias de valor transatlânticas. A minha expectativa é que estas jornadas PT-US Defence Industry Days 2026 sejam um dínamo para a projeção de Portugal no setor das indústrias da defesa ao nível global.”

Já António Reis é perentório. “As empresas não fazem política. Quem faz política são os políticos. Nós vemos oportunidade de trabalhar com empresas americanas e empresas americanas têm interesse em trabalhar com empresas europeias”, atira o CEO do Optimal Group.

“Toda a discussão política paralela passa-nos um pouco ao lado, deixamos isso para os políticos. Nós focamos simplesmente em fazer negócio. Temos sido algum sucesso no mercado americano, eles gostam de trabalhar connosco, nós gostamos de trabalhar com eles e é uma relação empresa com empresa.”

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