Fundação Jiménez Díaz promove a inovação tecnológica aplicada à reabilitação neurológica
O Hospital Universitário Fundação Jiménez Díaz reuniu especialistas em Neurologia, Reabilitação e tecnologia da saúde numa jornada centrada na inovação aplicada à neurorreabilitação.
Um domínio que está a passar por uma profunda transformação, tanto a nível conceptual como prático, e que evidenciou como a integração da evidência científica e das novas ferramentas tecnológicas permite avançar na recuperação funcional de doentes com patologias neurológicas, aproximando terapias cada vez mais eficazes da prática clínica habitual.
«Estamos perante uma mudança de paradigma: a neurorreabilitação está em plena transformação, onde a evidência científica e a tecnologia nos permitem ir mais além na recuperação funcional», salienta a Dra. Raquel Cutillas, chefe associada do Serviço de Medicina Física e Reabilitação do hospital madrileno. Neste contexto, destaca-se o papel central da neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se reorganizar que, estimulada por meio de tratamentos intensivos, repetitivos e direcionados, pode traduzir-se em melhorias significativas.
Esta nova abordagem baseia-se em fatores como a intensidade, a repetição e a especificidade da tarefa, fundamentais para ativar os mecanismos de recuperação do sistema nervoso central. A tecnologia permite potenciar estes elementos e transpor-los de forma eficaz para a prática clínica habitual, facilitando intervenções mais precisas, consistentes e adaptadas a cada paciente.
Um dos principais avanços é a capacidade de ativar e orientar a neuroplasticidade de forma mais eficaz. A tecnologia não só permite aumentar o número de repetições, como também melhorar a precisão do movimento e orientá-lo para tarefas funcionais, mantendo uma qualidade constante difícil de alcançar manualmente. Neste sentido, ferramentas como a robótica ou a realidade virtual estão a assumir um papel cada vez mais relevante, ao transformar o exercício terapêutico em atividades funcionais e motivadoras.
«O paciente deixa de fazer exercícios para passar a alcançar objetivos», explica a Dra. Cutillas, o que aumenta a adesão ao tratamento e o seu impacto sobre o sistema nervoso. Além disso, estas tecnologias permitem ajustar em tempo real parâmetros como a assistência, a dificuldade ou a carga, adaptando continuamente a intervenção à evolução do paciente em cada sessão e favorecendo uma reabilitação mais personalizada.
ABORDAGEM MULTIDISCIPLINAR
O evento também destacou a importância do trabalho coordenado entre as diferentes especialidades. «Não tratamos funções isoladas, tratamos pessoas com perturbações complexas que afetam os planos motor, cognitivo, funcional, emocional e social», sublinhou a especialista. A abordagem multidisciplinar permite integrar todas estas dimensões num único plano terapêutico, no qual participam médicos de reabilitação, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e logopedas, trabalhando de forma coordenada e com objetivos comuns centrados no paciente.
Este modelo é especialmente importante para a correta implementação da tecnologia, uma vez que os dispositivos, por si só, não geram resultados: é a equipa que decide como, quando e para que os utilizar, integrando-os numa abordagem global orientada para transferir os avanços para a vida quotidiana do paciente.
A incorporação de tecnologia avançada não substitui o tratamento convencional, mas complementa-o e potencia-o, permitindo aumentar a intensidade, a precisão e a interação com o sistema nervoso central, além de reduzir a carga física do terapeuta. Entre as suas principais vantagens destacam-se a possibilidade de aumentar a repetição do tratamento e aceder a ambientes virtuais que influenciam o sistema neurológico, favorecendo a neuroplasticidade.
Outro aspeto relevante é a capacidade de adaptar continuamente o tratamento, ajustando parâmetros como a assistência, a velocidade ou a amplitude do movimento em função da evolução do paciente. A isto acrescenta-se a componente motivacional: a gamificação e os ambientes virtuais transformam exercícios repetitivos em atividades com objetivos e «feedback» imediato, o que aumenta significativamente o envolvimento do paciente.
Em termos de resultados, esta abordagem permite otimizar a recuperação funcional. Observam-se melhorias na marcha, no equilíbrio e na função dos membros superiores, bem como na capacidade de realizar atividades da vida diária, em consonância com a evidência científica, que aponta maiores benefícios quando estas tecnologias são combinadas com a terapia convencional e aplicadas de forma precoce e intensiva.
O PAPEL DO EXOESQUELETO
Durante o evento, foi também abordada a utilização de tecnologias como o exoesqueleto, que permite reintroduzir a marcha em condições ótimas, mesmo em fases em que o paciente não consegue andar de forma autónoma. A sua indicação é considerada de forma individualizada em pessoas com alterações da marcha de origem neurológica, como acidente vascular cerebral, lesão medular, doenças neurodegenerativas ou traumatismo cranioencefálico.
Esta ferramenta permite treinar a marcha de forma precoce, intensiva e com um padrão fisiológico, mesmo em doentes com elevada dependência, facilitando a postura ereta e o movimento com uma biomecânica adequada. O seu impacto é significativo não só a nível motor, mas também sensorial e proprioceptivo, contribuindo para a reorganização do sistema nervoso. Além disso, traz benefícios a nível físico: melhora da força, da resistência, do controlo postural e da função cardiovascular, e ajuda a prevenir complicações associadas à imobilidade. A tudo isto acrescenta-se uma componente motivacional e emocional especialmente relevante: o facto de poder levantar-se e dar passos após semanas ou meses sem o fazer representa um impulso fundamental no processo de recuperação.
As conclusões da jornada «Inovação tecnológica em Neurorreabilitação» apontam para a consolidação de um modelo de neurorreabilitação ativo, orientado para a função e baseado na neuroplasticidade. Neste cenário, a tecnologia desempenha um papel essencial ao potenciar a intensidade, a precisão e a personalização das intervenções, num contexto em que as doenças neurológicas representam cerca de 20% da incapacidade a nível global.
O desafio para o futuro passa por consolidar a integração efetiva destas inovações na prática clínica, reforçar a evidência científica e melhorar o acesso a estas terapias. «O objetivo é claro: traduzir estes avanços numa melhoria tangível da autonomia e da qualidade de vida dos doentes», conclui a Dra. Cutillas.
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