Miguel Poisson: “Eu nunca estive preparado para as funções que vim a desempenhar, nunca”

  • ECO
  • 20 Abril 2026

Começou a trabalhar numa empresa de produtos industriais, depois passou para a área de soluções financeiras, até que se estabilizou no imobiliário. Conheça, aqui, a história de Miguel Poisson.

Miguel Poisson, CEO da Portugal Sotheby’s International Realty, é o 74º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Viveu em oito países diferentes, mudou 22 vezes de casa e, hoje, lidera uma das empresas de imobiliário de luxo em Portugal. Licenciado em Gestão pela Faculdade de Economia do Porto, garante que nunca fez grandes planos para a vida, mas que apenas se dedicou a dar o seu melhor em tudo aquilo que fez – desde traduzir fichas técnicas de máquinas até aceitar um cargo de CEO.

“Confesso que a minha carreira profissional não foi muito pensada. Nunca fui daquelas pessoas que planeou muito. Eu nasci no Porto, em Vila Nova de Gaia, onde fiquei até aos cinco anos. Mas, por uma questão profissional, o meu pai teve de ir trabalhar para Lisboa e, nessa altura, viemos com ele. Em Lisboa, comecei a estudar num liceu francês e, mais tarde, regressei às raízes, ao Porto, para tirar o meu curso na FEP“, começou por dizer.

E foi ainda durante a licenciatura que se lançou na sua primeira aventura – o programa ERASMUS: “Estive um ano no País de Gales e foi uma aprendizagem muito boa, sobretudo do ponto de vista da tecnologia. Isto porque, na altura, ainda se entregavam os trabalhos escritos à mão aos professores. Mas quando cheguei ao País de Gales já toda a gente usava as primeiras edições do Word“.

Essa nova realidade obrigou Miguel Poisson a adaptar-se e aprender a utilizar os novos programas, algo que lhe fez “ganhar pontos” quando regressou a Portugal. “Eu regressei no quinto ano da licenciatura, mas comecei a trabalhar num estágio em Inglaterra, enquanto estudava. Obviamente, pediam-me tudo. Fazia coisas tão variadas como trabalhos administrativos e, como trabalhava numa área de produtos industriais e sabia vários idiomas, também fiz traduções técnicas de máquinas. Mas, além disso, acabei por dar formação de folhas de cálculo ao top management daquela empresa, porque eu dominava aquilo. Fiz tudo isso e acabei por ter o meu primeiro trabalho a sério em Barcelona, depois de vir de Inglaterra”, contou.

O “primeiro trabalho a sério” foi na Cargill, uma empresa de soluções financeiras que se dedica ao trading de commodities: “Eu entrei num mundo completamente novo para mim, de compra e venda de matérias-primas cotadas em bolsa. E, ainda na Cargill, fui para Amesterdão trabalhar na área de supply chain. Foi mais uma mudança interessante, mas depois acabei por voltar para Barcelona e é aí que, por causa de um anúncio enviado por um amigo meu, me candidatei à Philip Morris, que, na altura, tinha acabado de adquirir a Tabaqueira”.

“Candidatei-me sem grande convicção, ainda em Barcelona, mas eles ofereceram-me viagem para eu ir à primeira entrevista e eu achei isso fabuloso. Era uma oportunidade de voltar a Portugal, mas depois fui-me envolvendo, acabei por ir a uma segunda e terceira entrevistas, até que aquilo acaba num assessement center enorme, em Genève. Tratava-se de um programa para preparar trainees a assumir posições na área das operações”, continuou.

Foi justamente por aí que começou e acabou por fazer um grande percurso na Philip Morris, que considera ser uma “escola brutal, com muito boas práticas, que dá importância à formação, à gestão das pessoas, e ao feedback”. Foi também durante o percurso nesta empresa que teve a oportunidade de viver na Suíça e, mais tarde, em Roma, onde ficou durante dois anos: “Na altura, a Philip Morris estava a adquirir as fábricas a um monopólio italiano e eu fui para Roma no processo de aquisição”.

“Fomos um grupo de 20 pessoas e, ao fim de dois anos, éramos mais de 300. Vivi dois anos em Roma até haver uma mudança na minha vida pessoal, que me levou a tomar a decisão de regressar a Portugal. Foi detetado um problema cardíaco na bebé durante a primeira gravidez da minha mulher, então sabíamos que era uma bebé que ia ter de ser operada ao coração à nascença e decidimos voltar. A Philip Morris foi absolutamente exemplar, deu-me apoio total”, partilhou.

O apoio por parte da empresa foi além da transição de Roma para Portugal. Na altura, Miguel Poisson propôs fazer um MBA, pago pela Tabaqueira, porque queria “ocupar a cabeça” e aprender mais: “É preciso saber transformar os momentos mais difíceis em momentos que temos de ultrapassar e desfrutar daquilo que são as coisas maravilhosas, como poder transformar a vida das pessoas, poder criar projetos novos e fazer a diferença. E foi isso que quis fazer. Quis aprender mais e foi quando propus o MBA executivo pago pela Tabaqueira, que me levou até à Porto Business School”.

Voltou, assim, às suas raízes, numa rotina que ficou dividida entre Porto e Lisboa. Apesar de ter tido outros colegas que pausaram o trabalho para tirar o MBA, Miguel Poisson quis conciliar os dois, mas admite que não tinha noção do nível de dificuldade que esta mudança iria acarretar para a sua vida. Ainda assim, ao fim de um ano, concluiu o MBA com sucesso e manteve-se na Tabaqueira. Só anos depois é que viria a receber uma proposta que, mais uma vez, trouxe uma enorme mudança à sua vida.

Desta vez, o convite partiu dos administradores da ERA Imobiliária, uma área na qual nunca havia trabalhado antes. “Eu tinha 36 anos e não me via a trabalhar no imobiliário. Por isso, aquilo foi um ´namoro´ que durou um ano. Durante esse tempo, fui conhecendo mais pessoas, fui falando com alguns amigos ligados ao setor e, curiosamente, como a minha mulher também tinha começado a trabalhar na área imobiliária, eu acho que ela foi a grande responsável para eu ter aceite o convite. Ela conhecia a empresa, sabia que era uma escola, e também acabei por ir sendo sensibilizado em conversas com outras pessoas, ao longo de um ano, até que tomei a decisão”, disse.

Apesar de estar “numa das empresas mais maduras em todo o mundo”, Miguel Poisson viu no convite da ERA uma oportunidade: “Na Philip Morris, eu seria mais uma de muitas pessoas, mas na ERA eu poderia, eventualmente, fazer a diferença. Então, comecei a fazer tudo, inclusivamente porta a porta, para aprender com os comerciais e para, depois, perceber como podia melhorar processos, recolher dados e tendências, como ser mais eficaz e mais rápido. Fiz essa aprendizagem toda até ser consultor de operações, onde geria 20 lojas, até que, a determinada altura, surge o desafio de ser diretor-geral da ERA, que foi um projeto que eu abracei. Se estava preparado? Não, mais uma vez não estava“.

No entanto, mesmo sem se sentir preparado, tinha a confiança de que seria capaz de responder ao desafio e assim foi. Hoje, Miguel Poisson lidera uma das agências imobiliárias de luxo em Portugal, a Sotheby’s International Realty, e, se não fossem os saltos de confiança que deu ao longo da vida, provavelmente não chegaria a este cargo. “Eu nunca estive preparado para as funções que vim a desempenhar, nunca. Nem a de CEO, hoje em dia. Obviamente, tinha as bases necessárias, mas a vida é um jogo em que nós vamos aprendendo e ajustando e vamos sendo cada vez mais fortes à medida que aprendemos cada vez mais coisas”, afirmou.

Enquanto CEO, deixa claro que um dos trabalhos que considera mais importantes fazer no seu dia a dia é conhecer as pessoas que trabalham consigo e saber valorizá-las: “Quero saber quem são as pessoas que estão a fazer a diferença e porquê, mesmo que tenham entrado na semana anterior. E, apesar de recolher os feedbacks e respeitá-los, gosto de ser eu a sentir a pessoa, de a ver e de a entrevistar. Gosto de pensar pela minha cabeça. E é muito importante que as lideranças em todas as organizações lutem por isso e que se atravessem para eliminar qualquer tipo de canais que possam desvirtuar este processo de meritocracia“.

Quando olha para trás, não hesita em dizer que o seu percurso “correu bem”, mas garante “que ainda pode correr melhor”. “Eu gosto muito de fazer aquilo que faço e não anseio pela idade da reforma. Acho que é importante ir desfrutando e, enquanto estiver a gostar, vou permanecer. Mais tarde, gostava de perpetuar estes ensinamentos e de poder ajudar miúdos a lançar as suas empresas, pro bono. Pegar no que gosto de fazer e ajudar outros a levantar voo é uma coisa que dá muita satisfação“, concluiu.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.

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