Quatro subidas de juros em 2026? Mercado foi “demasiado agressivo” e JPMorgan só vê BCE a mexer uma vez nos juros
Gestora de ativos do banco dos EUA admite que crescimento global vai ser afetado pelo agravamento do petróleo provocado pela guerra no Médio Oriente. Cenário base é que conflito não será prolongado.
Depois de um 2025 marcado pelo anúncio de tarifas, tensões comerciais e outros conflitos, este ano prometia ser mais tranquilo, mas o conflito no Médio Oriente trouxe uma renovada dose de incerteza e reacendeu receios inflacionistas, levando os mercados a antecipar até quatro subidas de juros por parte do BCE. Uma estimativa “demasiado agressiva“, diz a JPMorgan AM. A gestora de ativos admite que a subida dos preços do petróleo vai ter um impacto negativo na economia (e nos preços), mas o cenário base é que “o conflito não se alongar muito mais no tempo” e o BCE, a mexer nos juros este ano, apenas o deverá fazer uma vez.
“Quando comecei a preparar a apresentação havia coisas que me lembravam o ano passado, como o anúncio das tarifas. Vínhamos de um ano que achávamos que ia ser de crescimento, suportado por uma política orçamental e monetária. Mudámos essas perspetivas“, explicou Lucía Gutiérrez-Mellado, diretora de estratégia para Espanha e Portugal da JPMorgan AM, numa apresentação com o outlook para o segundo trimestre do ano.
Para a responsável, a direção dos mercados irá depender de quanto vai subir o preço do petróleo e quanto tempo vai manter-se elevado e da reação dos bancos centrais ao impacto do conflito nos preços, depois de um longo período para trazer a taxa de inflação para níveis próximos da meta de 2%. O que é certo, diz, “é que o petróleo está mais caro” e vai manter-se acima dos níveis a que negociava no arranque do ano.
“Depois de anos de luta, a inflação estava praticamente na meta do BCE. Com a guerra, dados da inflação publicados na semana passada já mostraram uma ligeira subir e as expectativas para a inflação subiram a curto e médio prazo”, realça Lucía Gutiérrez-Mellado.
Quanto a decisões futuras, a gestora da JPMorgan AM destaca que “os bancos centrais deixaram bem claro que não vão deixar acontecer o que se passou em 2022, mas daí às expectativas dos mercados” que apontam para quatro subidas, na Europa, as expectativas foram “demasiado agressivas“, explica.
A previsão da gestora é que o “BCE se mantenha praticamente neutral este ano. Antecipamos uma subida, enquanto o mercado antecipa quatro“. Para os EUA, as perspetivas da JPMorgan AM é a “possibilidade de não haver descidas este ano e, a acontecerem, seria mais no final do ano”.
“O mercado descontou demasiadas subidas de juros”, reforça.
Conflito não dura até ao verão
Num momento em que os EUA e o Irão continuam a negociar um acordo de paz, a gestora de ativos do banco norte-americano mantém um cenário base, ao qual atribui uma probabilidade de 50%, que antecipa que o “conflito não se vai alongar muito mais no tempo”.
“Não é do interesse de ninguém [prolongar o conflito]“, justifica a responsável, acrescentando que os “EUA têm eleições em novembro”.
“Há uma campanha que tem de começar no verão se querem ganhar a confiança dos consumidores”, explica, adiantando que “um dos fatores que levou os democratas a perder as eleições foi a subida da inflação. [Trump] não pode permitir que a inflação volte a subir de forma significativa“.
“Os EUA querem acabar a guerra, mas o Irão percebeu que tem poder”, através do controlo do Estreito de Ormuz. “Há países a pressionar para fim da guerra”, refere e recorda que 80% do petróleo que sai do Irão vai para a Ásia, nomeadamente a China e a Índia. Países que estão a exercer a sua influência junto do Irão para que este termine a guerra: “A China não pode permitir que haja uma desaceleração do crescimento”.
Caso o cenário base da JPMorgan se materialize, o crescimento nos EUA deverá fixar-se em 2,1% em 2026, abaixo da estimativa inicial de 2,3%, e em 0,9% na Zona Euro, face à previsão anterior de 1,6%.
Mas se a guerra se prolongar até ao verão, as previsões mudam de forma significativa, com a gestora a ver o petróleo a cotar nos 123 dólares, preços que levariam a Zona Euro a uma contração em 2026, registando um crescimento negativo de 0,8%, enquanto a economia norte-americana travaria para 1,5%.
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