“Se Kristin entrasse 150 km mais a sul teríamos quatro vezes mais danos”
Enquanto o comboio de tempestades já ultrapassou 1,1 mil milhões de euros de perdas seguradas, os CEO da E Redes, Infraestruturas de Portugal e Cellnex explicaram como estão a enfrentar riscos.
A Fidelidade estima que se a depressão Kristin tivesse “entrado no continente 150 km para sul” haveria “provavelmente quatro vezes mais sinistros”. Já os CEO da E Redes, Infraestruturas de Portugal e Cellnex estão preocupados com a interdependência entre infraestruturas críticas e a fraca resiliência social num contexto de desastres naturais.

O debate sobre a “Gestão do Risco em Infraestruturas Críticas , promovido pela Proforum – um think tank ou plataforma de networking e influência centrado na engenharia em Portugal, que reúne grandes empresas, academia e entidades públicas do setor – contou com uma intervenção inicial de Rui Esteves, diretor-geral técnico e responsável pelo impact center for climate change da Fidelidade.
Para o responsável, o recente comboio de tempestades revelou que as infraestruturas são frágeis, estão muito interligadas e algumas falham em catadupa.
“Se o Kristin tivesse entrado no continente 150 km para sul, nós iríamos ter provavelmente quatro vezes mais sinistros, iríamos ter provavelmente quatro vezes mais danos do que tiveram e muitas mais pessoas a serem expostas às consequências deste evento”, avisou.

O diretor da Fidelidade alertou para a importância de pensar a longo prazo: “Não nos basta estar a tentar compreender como é que vai ser a evolução deste risco nos próximos cinco, 10 anos, é preciso olhar aos próximos 30, aos próximos 50 para perceber onde é que determinadas localizações vão estar particularmente expostas, qual vai ser a intensidade que essas perigosidades vão assumir e a partir daí fazer uma gestão adequada do risco”.
Rui Esteves salientou ainda que tão importante como a resiliência ao nível estrutural, e resiliência ao nível financeiro, é preciso “resiliência ao nível comportamental, que muitas vezes é ignorado, mas que é o essencial para que todas as empresas consigam reagir da forma mais resiliente possível”.

Tempestade encerrou mais de 340 estradas, 27 permanecem fechadas
O debate no auditório da Fidelidade juntou ainda três empresas com estruturas físicas essenciais ao funcionamento do país. José Ferrari Careto, CEO da E Redes, empresa que em Portugal conta com centenas de milhares de kms de linhas elétricas para distribuir média e baixa tensão, Miguel Cruz, presidente Infraestruturas de Portugal, e João Mora, CEO da Cellnex Portugal, que detém cerca de 6.500 torres e roof tops de telecomunicações que asseguram as comunicações móveis no país, revelaram os problemas detetados quando do furacão Leslie em 2018, do apagão de 2025 e do comboio de tempestades de 2026.
João Mora, CEO da Cellnex, abordou o caso das telecomunicações reconhecendo que é um setor que “afeta todos os outros, afeta a empresa, afeta as pessoas”. Alertou também para a interdependência: “As telecomunicações não funcionam sem rede elétrica”, o que exige bastante articulação com outros operadores.
Mora considerou que a Cellnex conseguiu responder a este desafio com alguma rede de redundância, explicando que a empresa opera mais do uma rede, duas redes de IoT, e em caso de falha de uma rede móvel é possível utilizar a rede da Cellnex para conseguir fazer chegar o sinal de alarme, de imagem, como no caso da Securitas/Verisure.

Ainda mencionou o recurso ao satélite através do Starlink, por exemplo, não só para atividades públicas, mas também para atividades privadas. “Poderá ser também uma solução a explorar, mas que mais ou menos também precisa de energia”, disse.
Miguel Cruz, presidente da Infraestruturas de Portugal (IP), salientou que só na área rodoviária houve “mais de 340 estradas encerradas por efeito de tempestade” e ainda hoje “27 estradas” continuam encerradas, acrescentando que quando se discute a resiliência das infraestruturas não se pode “ter a ilusão” de que se irá conseguir evitar qualquer impacto.
Relembra que o comboio de tempestades foi um evento absolutamente extremo. “Houve uma distribuição por todo o país de uma quantidade de pluviosidade que ultrapassou tudo aquilo que seria previsível”, salientou. O vento – disse – foi menos relevante para a IP, apesar de muitos materiais terem caído sobre a rede ferroviária e sobre a rede rodoviária. “O nosso problema essencial foi excesso de água no solo”, concluiu.
José Manuel Ferrari Careto, CEO da E-Redes, viu uma evolução positiva nos comportamentos desde o furacão Leslie até aos recentes temporais. “Tivemos a apagão há quase um ano com impactos diferentes dos recentes, mas acho que a própria sociedade civil tem-se vindo a aperceber que tem que estar mais preparada para este tipo de eventos”.
Para além da zona de entrada da depressão Kristin ter sido 150 km acima do que poderia ter sido uma tragédia material e humana quatro vezes maior, Ferrari Careto também salientou que os efeitos terem sido de madrugada evitaram males maiores. “Se tivesse acontecido às 10 horas ou às 16 horas”, estaríamos perante uma catástrofe de dimensão incalculável, disse.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
“Se Kristin entrasse 150 km mais a sul teríamos quatro vezes mais danos”
{{ noCommentsLabel }}