Impacto da crise vai ser “duradouro”, mas Bruxelas defende que subsídios aos combustíveis fósseis têm de ser “temporários”

Comissão Europeia não afasta uma crise de abastecimento de querosene, dependendo da duração do conflito e antecipa "meses ou anos muito difíceis em função do ambiente no Médio Oriente".

A Comissão Europeia admite que a crise no Médio Oriente, que já determinou um agravamento da fatura de energia de 24 mil milhões de euros, terá um impacto “grave” e “duradouro” e defendeu que as medidas tomadas pelos Estados-membros para atenuar o impacto do aumento dos preços dos combustíveis devem ser “temporárias”. Bruxelas garante que está a trabalhar para garantir abastecimento de querosene, de modo a que haja jet fuel para os aviões. “Se vamos conseguir ou não evitar que haja uma crise na segurança do abastecimento vai depender da duração da própria crise”, reconhece o comissário Dan Jørgensen.

Com o verão à porta e depois de o alerta feito pela Agência Internacional da Energia (AIE) de que a Europa poderá ter jet fuel suficiente para apenas seis semanas, o comissário europeu admitiu que a situação do jet fuel é um “problema” para a Europa e frisou que Bruxelas está a trabalhar com os Estados-membros para abastecer os stocks de gás para próximo inverno e garantir que há abastecimento de querosene para toda a região. Mas avisa: “não estamos numa crise curta, rápida, nem pequena. Estamos a passar por uma crise tão grave como a de 1973 e 2022 combinadas. É preciso antever meses ou anos muito difíceis em função do ambiente no Médio Oriente”.

Não estamos numa crise curta, rápida, nem pequena. Estamos a passar por uma crise tão grave como a de 1973 e 2022 combinadas. É preciso antever meses ou anos muito difíceis em função do ambiente no Médio Oriente.

Dan Jørgensen

Comissário europeu

No melhor cenário, se o conflito acabar “nos próximos dias”, o responsável lembra que “países como Qatar vão levar dois anos ou mais para reconstruir sistema de produção de gás”. “Os preços não vão estabilizar ou diminuir próximos anos“.

No caso do petróleo, Bruxelas traça um cenário diferente, antecipando que “a produção possa ser restituída rapidamente”, no espaço de duas a quatro semanas após o fim da guerra. Uma situação que leva a “prever repercussões nos próximos anos”.

Uma das medidas apresentadas esta quarta-feira por Bruxelas é a criação de um Observatório de Combustíveis para acompanhar a produção e níveis de combustíveis na União Europeia (UE), com o objetivo de identificar rapidamente eventuais escassezes. A Comissão Europeia quer mapear as capacidades de refinação existentes na Europa, avaliar as necessidades e trabalhar em medidas para assegurar “a utilização plena” e suficiente da capacidade de refinação interna.

“Estamos a atravessar uma crise que afeta duramente alguns cidadãos, também tem incidência bastante difícil nalguns setores industriais, sobretudo os mais dependentes da energia, e é verdade que os membros são chamados a apoiar” estes grupos, admitiu o comissário Dan Jørgensen.

Tudo o que façamos que possa subsidiar combustíveis fósseis têm de ser medidas temporárias, muito específicas” e “não esquecer o foco no futuro”, que é a eletrificação, reforçou, na conferência de imprensa onde foi apresentado um pacote de medidas para atenuar o impacto da crise dos combustíveis.

Jørgensen calculou que “desde o início da crise, a nossa fatura de importação de energia aumentou de 24 mil milhões de euros, 500 mil euros por dia de custos”. “O grande impacto desta crise vai ser duradouro, é ainda imprevisível e os próximos meses vão ser povoados de incerteza“, avisou, acrescentando que é preciso atuar para “proteger cidadãos mais vulneráveis e setores mais dependentes” da energia, ao mesmo tempo que se atua “para nos protegermos de choques futuros”.

Questionado sobre se a União Europeia vai voltar a comprar energia à Rússia, o comissário foi perentório: “Seria um erro grave começar a importar de novo energia russa. Não vamos importar uma gota de combustível russo“.

A Comissão Europeia não emitiu recomendações específicas ao nível da procura, mas voltou a “encorajar” poupanças energéticas e a incentivar que se deixem os combustíveis fósseis, apelando aos Estados-Membros que utilizem os recursos para subsidiar políticas em que incentivam os cidadãos e as empresas, por exemplo, a substituir caldeiras a gás por bombas a calor.

“É uma oportunidade para acelerar a viragem para a energia limpa produzida internamente“, realçou a comissária Teresa Ribera, justificando que “a melhor medida para garantir a competitividade é reduzir vulnerabilidades e dependências relativamente ao exterior”. “É difícil imaginar que podemos ser competitivos se dependemos de algo que não produzimos”, concluiu.

(Notícia atualizada)

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