“Ninguém acorda a querer comprar um seguro”. Reinventar essa perceção é o grande desafio do setor
Tecnologia, dados e regulação estão a transformar o setor segurador, mas o desafio continua a ser convencer o cliente de que o seguro vale mais do que apenas no momento em que precisa dele.
O setor segurador precisa de reinventar o valor percebido junto do cliente, combinando tecnologia, dados e personalização para deixar de ser visto apenas como um mecanismo de pagamento de sinistros. Foi esta a mensagem principal da conferência “Seguros em Movimento: Novos Modelos de Relacionamento” realizada pela Universidade Católica na segunda-feira, onde especialistas do setor debateram o impacto da tecnologia, da regulação e da relação com o cliente nesta nova realidade.

Filipe Santos, Dean da Católica-Lisbon, abriu a conferência sublinhando que a área dos seguros é estratégica para a escala. “Não há setor na criação de valor de longo prazo como o setor segurador“, afirmou, salientando que este é o setor mais se preocupa em olhar para o risco a longo prazo.
Já Luís Baltazar, Técnico Superior do Departamento de Política Regulatória da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), durante a sua intervenção defendeu que a proposta de regulamento FiDa (Financial Data Access Regulation), que prevê a partilha de dados através de APIs, pode promover novos produtos e maior competitividade no setor, mas também pode ser um “gamechanger” para o setor ao estabelecer regras. “A regulação não representa inovação por si só”, advertiu, acrescentando que a atual falta de disponibilização de dados consome recursos e coloca obstáculos à eficiência operacional das seguradoras. Assim, a partilha de dados permitirá simplificar o acesso e reduzir a burocracia.
Já durante a mesa redonda, onde estiveram Maria João Silva, Chief Marketing Officer da Generali Tranquilidade, Sérgio Carvalho, Head of Marketing & Client da Fidelidade, e Nuno Gomes Duarte, Diretor de Marketing de Produto do Grupo Ageas Portugal, com moderação de Ester Leotte, Head of Tangity Portugal, e Paulo Bracons, Diretor do Programa “Inovação e Transformação em Seguros”, no que toca à relação com o cliente, o consenso foi claro: o que falha é o valor percebido.
“Ninguém acorda a querer comprar um seguro”, reconheceu Maria João Silva, que defendeu que é necessário mudar o valor percebido dos seguros.
Sérgio Carvalho defendeu que é preciso “ser mais do que apenas a parte que paga o sinistro”, e que para isso a verticalização e consolidação dos sistemas são essenciais, bem como a presença regular das seguradoras na vida dos clientes.
Já para Nuno Gomes Duarte, falta “desenvolver os ecossistemas dos seguros”, explicitando o caso dos seguros automóveis como contraste aos seguros de saúde, onde atualmente é impossível ter um seguro de saúde e não ter uma app para aceder a ele. Duarte defendeu ainda que uma maior personalização dos seguros pode ser a ferramenta chave.
Em conclusão, deste debate resultou que o futuro do setor, apesar da transformação global em curso, continua a depender dos produtos e das pessoas e ao reinventar o valor percebido junto do cliente, combinando tecnologia, dados e personalização, a relação das seguradoras com o consumidor pode mudar.
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