Fantasma da estagflação paira sobre a Zona Euro. Atividade do setor privado contrai-se em abril

PMI da Zona Euro entrou em território de contração em abril, com atividade no setor dos serviços a cair para nível mais baixo em 62 meses. Pressões inflacionistas continuam a intensificar-se.

O risco de estagflação — crescimento reduzido e inflação elevada — continua a aumentar na Zona Euro perante a guerra no Médio Oriente e o choque de preços na energia, aumentando a pressão para o Banco Central Europeu. O alerta chega esta quinta-feira com os sinais de que a atividade do setor privado da Zona Euro entrou em contração em abril, pondo fim a um ciclo de 15 meses consecutivos de crescimento.

“O conflito empurrou a economia para uma contração em abril, ao mesmo tempo que provocou uma subida acentuada da inflação. Além disso, a crescente generalização de escassez na oferta ameaça travar ainda mais o crescimento, ao mesmo tempo que acrescenta pressão adicional em alta sobre os preços nas próximas semanas“, alerta Chris Williamson, economista-chefe de negócios da S&P Global Market Intelligence, citado em comunicado.

A estimativa preliminar do PMI composto da Zona Euro desceu para 48,6 em abril, entrando em território de contração (abaixo dos 50) pela primeira vez em 16 meses e ao ritmo mais acentuado desde fevereiro de 2021, de acordo com os dados preliminares do inquérito PMI da S&P Global e do Hamburg Commercial Bank, divulgados esta quinta-feira.

Fonte: S&P Global Flash Eurozone PMI

A redução global da atividade empresarial concentrou-se nos prestadores de serviços, onde o índice caiu para o nível mais baixo em 62 meses. Enquanto isso, o PMI do setor industrial continuou a aumentar, registando o quarto mês consecutivo de aumento e ao ritmo mais rápido desde agosto do ano passado — ainda que, em parte, associado à constituição de stocks de segurança.

O retrato geral mostra que a redução da produção foi generalizada nos países do euro. Na Alemanha, a atividade empresarial caiu pela primeira vez em 11 meses, enquanto em França a produção registou a descida mais acentuada desde fevereiro de 2025. Já a restante Zona Euro registou uma ligeira redução da produção, pondo fim a uma sequência de crescimento que durava desde janeiro de 2024.

A crescente generalização de escassez na oferta ameaça travar ainda mais o crescimento, ao mesmo tempo que acrescenta pressão adicional em alta sobre os preços nas próximas semanas.

Chris Williamson

Economista-chefe de negócios da S&P Global Market Intelligence

Ademais, numa altura de elevada incerteza internacional, as novas encomendas na Zona Euro diminuíram pelo segundo mês consecutivo em abril, ao ritmo mais rápido em quase um ano e meio. “Tal como aconteceu com a produção, a redução global foi impulsionada pela queda das novas encomendas no setor dos serviços”, explica o relatório associado à divulgação do PMI.

Sumultaneamente, as novas encomendas na indústria transformadora aumentaram ao ritmo mais elevado dos últimos quatro anos, refletindo uma subida das novas encomendas de exportação. Contudo, “parte desta recuperação refletiu relatos de clientes a procurarem garantir compras antecipadas, perante preocupações com a subida de preços e possíveis escassezes na oferta“, explica.

Peter Vanden Houte alerta que, “tendo em conta as perturbações nas cadeias de abastecimento causadas pela guerra no Médio Oriente, “parece que a atividade industrial está atualmente a ser sustentada pela acumulação de inventários, com as empresas a tentar assegurar fatores de produção essenciais face a potenciais escassez”.

Apesar do crescimento global estar a abrandar, o economista do ING sublinha que o emprego registou apenas uma ligeira diminuição, com os níveis de trabalhadores no setor dos serviços a manterem-se resilientes.

Pressões inflacionistas continuam a itensificar-se

Ao mesmo tempo que o PMI da Zona Euro entrou em território de contração em abril, a guerra no Médio Oriente reforçou as pressões inflacionistas. Este retrato ganha particular relevância a uma semana da reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE).

As pressões inflacionistas continuam a intensificar-se, evidenciando o impacto ‘estagflacionista’ do atual choque. Embora uma subida das taxas de juro em abril ainda pareça improvável, o Banco Central Europeu deverá ter de apertar a política monetária mais tarde ao longo deste ano“, salienta Peter Vanden Houte, o economista do ING Research, numa nota de análise.

A estimativa preliminar do PMI compósito entrou em território de contração em abril. Ao mesmo tempo, as pressões inflacionistas continuam a intensificar-se, evidenciando o impacto estagflacionista do choque atual.

Peter Vanden Houte

Economista do ING

De acordo com o relatório do PMI, na sequência do choque energético e das perturbações do lado da oferta, os custos dos fatores de produção aumentaram ao ritmo mais elevado desde o final de 2022 e, embora o crescimento tenha desacelerado, a inflação dos preços de venda atingiu um máximo de 37 meses. Uma tendência que se revelou particularmente forte na Alemanha, embora se tenha verificado uma aceleração também em França e no conjunto do restante bloco da moeda única.

“Este dado é relevante, uma vez que a presidente do BCE, Christine Lagarde, afirmou durante a conferência de imprensa de março que o BCE estaria particularmente atento às expectativas das empresas quanto aos preços de venda. O facto de o site da S&P ter ficado temporariamente sobrecarregado após a divulgação do PMI apenas ilustra a importância crucial deste relatório antes da reunião do BCE da próxima semana”, refere Peter Vanden Houte.

Custos dos fatores de produção aumentaram ao ritmo mais elevado desde o final de 2022 e, embora o crescimento tenha desacelerado, a inflação dos preços de venda atingiu um máximo de 37 meses.

Para o analista do ING, o relatório do PMI mostra que, apesar da desaceleração, “já estão a surgir alguns efeitos de segunda ordem nos preços”. “Isto poderá levar o banco central a avançar com pelo menos um aumento das taxas de juro ainda este ano, de forma a evitar que a atual subida da inflação se traduza num aumento das expectativas inflacionistas”, alerta.

Também Chris Williamson destaca que “o BCE volta a ter a difícil tarefa de decidir se deve aumentar as taxas de juro face ao preocupante quadro inflacionista ou se este aumento de preços será apenas temporário, devendo então concentrar-se antes na necessidade de evitar que a economia entre numa recessão mais profunda”.

Embora adiar qualquer decisão possa agravar qualquer um dos cenários, seria compreensível que os responsáveis pela política monetária optassem por manter as taxas inalteradas e aguardassem maior clareza sobre a situação, tanto em relação ao conflito como à avaliação da saúde económica da Zona Euro”, considera o economista-chefe de negócios da S&P Global Market Intelligence.

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