Castro Almeida avisa restauração. “Tempestades vieram alterar as prioridades”

Ministro da Economia diz ao ECO que “toda a prioridade é para tentar recuperar das tempestades". Responde assim aos apelos dos restaurantes para aumentar apoios. “O calendário alterou-se”, frisa.

“As tempestades vieram alterar as prioridades.” É assim que o ministro da Economia remata, ao ECO, a polémica em torno dos apoios à restauração. A secretária-geral da AHRESP revelou que o setor estava a pedir um reforço da componente a fundo perdido, para responder ao agravamento da crise no setor, uma crise que o governador do Banco de Portugal diz não ser corroborada pelos indicadores económicos.

“A indicação que a AHRESP tem é de que as tempestades vieram alterar as prioridades”, disse ao ECO Manuel Castro Almeida. “O calendário alterou-se”, resumiu. “Toda a prioridade é para tentar recuperar das tempestades”, frisou.

As declarações podem ser um balde de água fria para o setor da restauração que está a pedir um reforço da componente a fundo perdido nos apoios anunciados pelo ministro da Economia e Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, em janeiro, e que ainda estão na gaveta, atendendo ao agravamento da situação. “Desde que a medida foi negociada até hoje, a situação só piorou”, disse Ana Jacinto em entrevista ao Jornal de Negócios e à Antena 1.

“Não sabemos quais os valores exatos”, disse a secretária-geral da associação, na mesma entrevista. Em cima da mesa estava um apoio até 60 mil euros, sendo que 70% são reembolsáveis e 30% podem ser a fundo perdido se as empresas atingirem aos resultados.

Quando foi anunciada a medida gerou grande polémica, mas acabou por ser remetida para segundo plano com o comboio de tempestades que assolou o país, em especial a zona centro, e depois pelo ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, que acabou por escalar e gerar uma crise nos combustíveis a nível mundial dado o encerramento do Estreito de Ormuz por onde passa cerca de 20 a 30% do petróleo mundial.

A entrevista de Ana Jacinto trouxe os apoios ao setor da restauração de novo para a ribalta, sobretudo porque o governador do Banco de Portugal publicou nas redes sociais um retrato do setor assente em diversos indicadores económicos que contestam os argumentos de que exista uma crise.

“Nos últimos meses tem-se falado muito de uma eventual crise no setor da restauração, com os representantes do setor a pedirem ajudas públicas e descidas de impostos. Será assim? O que é que nos dizem os números?”, questiona Álvaro Santos Pereira, num conjunto de posts nas redes sociais. “Nos últimos anos, o setor da restauração cresceu bastante, graças à expansão do turismo e aumento do consumo. Desde 2019, a restauração cresceu 69% em termos nominais e 25% em termos reais. Esta tendência de crescimento continuou em 2025, embora de forma mais moderada. Porém, em 2025, o volume de negócios na restauração aumentou 2,9% em termos nominais, face a 2024”, elenca o governador do Banco de Portugal, usando dados do Instituto Nacional de Estatística, entre muitos outros para traçar o quadro das falências, margens de lucro, emprego, preços, receitas, etc.

Uma posição já contestada pela AHRESP, que considera “indispensável que a análise do setor vá além das médias”, insistindo num cenário de “crise que as estatísticas não medem”. “A análise agregada e global do setor — frequentemente utilizada em relatórios macroeconómicos — tende a ocultar assimetrias profundas”, salienta a associação liderada por Ana Jacinto em comunicado, sem se referir diretamente a Álvaro Santos Pereira.

Mas a análise do governador do Banco de Portugal pode servir que nem uma luva para justificar um recuo na promessa de apoio do Executivo. Um recuo justificado por dados macroeconómicos e pela conjuntura do país a braços com a reconstrução e a mitigação dos impactos da guerra no Médio Oriente.

Um receio já admitido pela Pro.var – Associação Nacional de Restaurantes, que defende a necessidade de garantir que os apoios são direcionados para as micro e pequenas empresas, que têm a situação mais “aflitiva”. “É importante que o Governo encontre uma forma de excluir empresas que trabalham numa lógica de escala, como muitas cadeias de fast food e restaurantes em supermercados. Empresas estas que são agora incluídas na análise do governador”, disse Daniel Serra, ao ECO. “É muito injusta essa leitura e espero que não vá fazer com que o Governo dê o dito por não dito”, frisou o presidente da associação nacional de restaurantes.

Os restaurantes estão a contar com novos apoios ainda em abril, apesar dos atrasos na operacionalização do pacote que envolve um apoio de até 60 mil euros e reestruturação das dívidas dos empréstimos contratualizados durante o Covid-19.

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