Exclusivo Modelo de IA Amália continua reservado a investigadores, mas já foi ao Brasil
Mais de meio ano depois de concluída a "versão base", o Amália continua confinado aos campus das universidades, embora este mês tenha viajado até Salvador, Bahia. Veja o vídeo demonstrativo.
Sete meses depois de concluída a “versão base” do Amália, o modelo de inteligência artificial (IA) português continua reservado à comunidade académica, contrariamente à informação dada pelo coordenador do projeto.
O Governo, que investiu 5,5 milhões de euros para desenvolver um modelo de IA especializado na língua e cultura portuguesa, acaba de avançar ao ECO que o Amália está “em fase adiantada de desenvolvimento” e apresenta “um desempenho robusto”, estando prevista a sua disponibilização após a apresentação pública, que acontecerá “até ao final de junho de 2026”.
O consórcio de universidades responsável pelo desenvolvimento do Amália, no âmbito de um contrato assinado com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tem estado a trabalhar na “versão multimodal”, que dará a esta tecnologia a “capacidade para interpretar diversos formatos de dados”, como texto, imagens e vídeo, de acordo com a Resolução do Conselho de Ministros que enquadrou o anúncio feito pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, na Web Summit de novembro de 2024. Mas, apesar de permanecer largamente confinado aos campus das universidades, o Amália cruzou o Atlântico este mês, rumo ao Brasil.
“O modelo foi apresentado à comunidade científica lusófona e internacional no Congresso Propor, dedicado ao processamento computacional em português, no Brasil, no início de abril, tendo sido demonstrada a performance muito positiva do modelo em vários testes de IA de referência, tendo a apresentação sido acolhida muito positivamente”, revela ao ECO fonte oficial do Ministério da Reforma do Estado, que ficou com a tutela deste projeto no segundo Governo da AD.
Na agenda da 17.ª edição da conferência, que decorreu entre 13 e 16 de abril em Salvador, no estado brasileiro da Bahia, o ECO constatou a existência de uma sessão com o nome “AMALIA: Um Grande Modelo de Linguagem de Código Aberto para o Português Europeu”.
O Amália encontra-se em fase adiantada de desenvolvimento, apresentando um desempenho robusto, em português de Portugal, face a modelos LLM [Large Language Models – grandes modelos de linguagem] abertos.
O contrato de desenvolvimento do Amália indicava explicitamente que todas as fases do modelo deveriam ser divulgadas ao público, com a Resolução a prever três datas para a disponibilização do modelo em diferentes fases. Todavia, o Amália não irá ser divulgado antes do fim de junho de 2026. Esse é o prazo dado pelo Governo para a apresentação pública, “sendo o modelo disponibilizado em formato aberto em seguida”, afirma a mesma fonte oficial do gabinete do ministro Gonçalo Matias.
Antes, também o próprio coordenador do Amália, João Magalhães, deu informações ao ECO que acabaram por não se confirmar: “A versão de setembro do modelo Amália será tornada pública e a partir desse momento qualquer entidade poderá utilizar o modelo, desde que tenha acesso a uma infraestrutura adequada”, afirmou o investigador e diretor do grupo de Sistemas Multimodais do Laboratório de Ciência da Computação e Informática (Nova Lincs), da Nova FCT, no início de setembro de 2025, acrescentando: “As versões públicas do modelo serão libertadas em momentos já planeados: setembro de 2025 e junho de 2026.”
Ainda assim, o Amália “tem sido disponibilizado a investigadores do ecossistema de inovação nacional, na plataforma IAEdu (gerida pela FCT/AI2) desde o final de setembro de 2025, para efeitos de investigação”, confirma fonte oficial do Ministério da Reforma do Estado, referindo-se a uma plataforma de IA que está disponível apenas para as universidades.
Quanto ao uso do modelo em serviços públicos do Estado, o mesmo gabinete refere que existem “vários” casos de estudo “em fase adiantada de desenvolvimento, respondendo aos seus objetivos estratégicos de promoção da língua portuguesa, preservação da representatividade cultural portuguesa, soberania nacional e promoção do ecossistema de investigação e inovação em inteligência artificial”.
“Os restantes casos de uso iniciais serão partilhados aquando da divulgação do modelo. Nesse momento, o modelo será disponibilizado livremente, para uma utilização responsável, a qualquer pessoa ou entidade que o queira utilizar para desenvolver as suas próprias soluções”, acrescenta a mesma fonte.
Veja aqui o vídeo demonstrativo do Amália:
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para ver o vídeo.
Já em relação às conclusões da análise dos “possíveis impactos legais” do Amália — que, conforme avançou o coordenador, João Magalhães, estava a ser realizada por uma “equipa de peritos” –, fonte oficial do Ministério da Reforma do Estado responde apenas que “a equipa Amália tem desenvolvido o modelo em consonância com as recomendações e práticas legais exigidas, na sequência do trabalho efetuado pela equipa legal do projeto”.
Um dos aspetos centrais dessa análise prendia-se com os dados usados para treinar o modelo, onde se incluía o Arquivo.pt, uma plataforma gerida pela FCT que “preserva milhões de ficheiros recolhidos da web desde a década de 1990″, incluindo os artigos publicados pelos jornais portugueses na internet, suscitando receios de possíveis violações dos direitos de autor.
Entretanto, o modelo Amália já tem presença própria na web, com o lançamento do site amaliallm.pt. A página inclui uma lista de perguntas e respostas, um vídeo demonstrativo em que o software responde a questões como “Explica o teorema de Pitágoras” e sugere perguntas de “follow-up“, e um comparador com as capacidades de outros modelos, incluindo o GPT-4o (da OpenAI), Gemini 2.5 (Google), Llama 3.1 8B (Meta) e Mistral 7B.
Segundo o comparador, que apresenta conclusões numa pontuação de um a três, o Amália destaca-se em “variantes de português”, “representatividade cultural” e “soberania sobre dados de cidadãos”. Mas fica aquém dos principais ‘concorrentes’ em “cálculo matemático” e “dimensão do contexto”. Não é referida a metodologia que serviu de base à comparação.
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