Seguro e Aguiar-Branco falam de transparência na política num país que não a fiscaliza

O Presidente da República e o presidente da Assembleia da República exigiram mais transparência à política, mas os dados mostram que o país tem muita dificuldade em fiscalizar os políticos.

ECO Fast
  • Os discursos do Presidente da República e do presidente da Assembleia da República no 25 de Abril destacaram a necessidade de maior transparência na política, mas revelaram divergências sobre como alcançá-la.
  • A Entidade para a Transparência fiscalizou apenas 10% das declarações de políticos nos últimos dois anos, evidenciando a insuficiência de recursos e a dificuldade em garantir a transparência prometida.
  • A falta de resposta sobre como assegurar a fiscalização efetiva das declarações políticas pode comprometer a credibilidade democrática e a confiança pública nas instituições.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A 52 anos da Revolução dos Cravos, os discursos da sessão solene do 25 de Abril do Presidente da República e do presidente da Assembleia da República colocaram a transparência no centro do debate político, mas os números mostram um país onde a exigência é maior do que a capacidade de a concretizar.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

António José Seguro, no primeiro discurso como Presidente da República em sessão solene do 25 de Abril, defendeu mais escrutínio sobre os donativos partidários e advertiu que “onde há opacidade cresce a suspeita”.

Pouco antes, o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, traçou um diagnóstico inverso, alertando que “os remédios populistas não abrem a política, fecham-na”.

A leitura conjunta das intervenções de Seguro e Aguiar-Branco sugere uma sintonia institucional sobre o estado da democracia portuguesa, mas revela um desencontro de fundo sobre o caminho a seguir.

O contraste entre os dois discursos ganha outra dimensão à luz dos dados da Entidade para a Transparência (EpT), que apontam para que apenas 10% das declarações entregues por políticos e altos cargos públicos nos últimos dois anos tenham sido fiscalizados pela entidade liderada por Ana Raquel Moniz.

A leitura conjunta das intervenções de Seguro e Aguiar-Branco sugere uma sintonia institucional sobre o estado da democracia portuguesa, mas revela um desencontro de fundo sobre o caminho a seguir.

Seguro dirigiu um apelo direto às novas gerações — “estejam atentos” — e fez delas o eixo da defesa da liberdade conquistada em 1974, sublinhando que “não há liberdade sem transparência no exercício dos cargos públicos”. Para o Chefe de Estado, a indiferença juvenil e opacidade financeira convergem na erosão da credibilidade democrática.

A defesa de Seguro pela transparência das políticas foi amplamente sublinhada, com o Presidente a salientar que “não há verdadeira liberdade sem transparência no exercício dos cargos públicos” lembrando que “a transparência dos donativos políticos é essencial para garantir uma democracia saudável e justa”.

A referência à transparência dos donativos aos partidos políticos por parte do Presidente da República surge num momento particularmente sensível. O Livre acaba de propor que os contributos a partidos a partir de 600 euros passem a ser de acesso público, depois de a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) ter deixado de divulgar a identidade dos doadores, invocando a proteção de dados pessoais. O tema atravessa todo o arco parlamentar, ainda que com leituras divergentes:

  • O PS avançou com uma proposta de alteração à lei do financiamento partidário para garantir que os dados dos doadores continuam a ser “públicos e acessíveis”, com Pedro Delgado Alves a sustentar que, “a partir do momento em que” alguém faz um donativo, “tem que estar preparado para ser escrutinado”, e admite mesmo classificar os donativos partidários como de interesse público.
  • O Bloco de Esquerda entregou um projeto de lei que enquadra a divulgação dos financiadores ao abrigo do tratamento de dados para fins de interesse público previsto no RGPD, depois de ter pedido a audição urgente da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) e da ECFP, uma iniciativa cuja votação foi adiada por um pedido potestativo do Chega.
  • O Iniciativa Liberal, pela voz de Mariana Leitão, declarou-se disponível para acompanhar “tudo o que for no sentido de garantir que há transparência”, lembrando que esse é “o princípio que tem de ser defendido”.
  • o PCP rejeitou a leitura da ECFP de que terá obstaculizado o envio dos elementos de identificação dos doadores e diz pugnar pela “consagração de regras de transparência”, ainda que com “salvaguarda e proteção de dados pessoais”, ao lado de Chega e Bloco de Esquerda entre os partidos que invocaram o RGPD junto da entidade.

Na intervenção que antecedeu a do Presidente da República, Aguiar-Branco optou pela contracorrente, criticando a proliferação de regimes de incompatibilidades, o volume crescente de declarações exigidas a quem ocupa cargos públicos e a transformação da política naquilo que classificou como “reality show”.

A frase mais incisiva aponta uma contradição que diz atravessar o sistema, lembrando que “os políticos que defenderam e advogaram a presunção de inocência para os cidadãos do dito país real são os mesmos que defendem e advogam a presunção de culpabilidade para todos os políticos”. Para o presidente do Parlamento, o resultado é o “entrincheiramento” da vida política e a dificuldade em atrair talento, com a profissionalização a substituir a renovação.

Nos últimos dois anos, a Entidade para a Transparência concluiu a fiscalização de apenas 10,25% das 8.620 declarações de rendimentos, património, interesses e incompatibilidades entregues por titulares de cargos políticos e altos cargos públicos.

A tensão entre os dois discursos — mais transparência, de um lado, e risco de saturação regulatória, do outro — torna-se mais nítida quando se confrontam as palavras com a aritmética: entre março de 2024 e o final de 2025, a EpT, presidida por Ana Raquel Moniz, concluiu a fiscalização de apenas 883 das 8.620 declarações de rendimentos, património, interesses e incompatibilidades entregues por titulares de cargos políticos e altos cargos públicos, com outras 244 ainda em curso. Os 10,24% de cobertura efetiva contrastam com o peso retórico que o tema assume no discurso público.

A explicação está, sobretudo, na escassez de meios. A EpT funciona com um quadro de somente 13 elementos — já considerado insuficiente em 2024 — e a sua presidente afirmou ao Público que precisaria, “no mínimo”, de mais 11 postos de trabalho para ocupar todos os espaços disponíveis nas instalações. A proposta de alargamento do mapa de pessoal continua a aguardar decisão, num momento em que se antecipa para 2026 um aumento significativo do volume de declarações, em parte por efeito das eleições autárquicas.

Em 2024 e 2025, a entidade recebeu 1.105 pedidos de acesso a documentos, dos quais 998 foram deferidos, com os jornalistas a representarem 95% dos requerentes — sinal de uma procura cívica que excede largamente a capacidade instalada. No pano de fundo desta engrenagem subdimensionada permanece o caso da Spinumviva que mais expôs as fragilidades do sistema.

A empresa do primeiro-ministro Luís Montenegro originou dois picos históricos de acessos à EpT — cerca de 1.700 a 1 de maio de 2025 e mais de 3.000 a 2 de junho desse ano — e culminou com a rejeição, pelo Tribunal Constitucional, do recurso do chefe do Governo, por ter sido entregue fora do prazo legal, decisão confirmada pelo Tribunal de Contas em março de 2026.

Entre o apelo de Seguro à abertura, o aviso de Aguiar-Branco contra o excesso e os números da EtP, fica em aberto a questão que nenhum dos discursos respondeu: como assegurar que as declarações exigidas aos políticos são, de facto, escrutinadas. Sem essa resposta, a transparência arrisca-se a permanecer mais um princípio invocado em data solene do que um mecanismo eficaz de controlo democrático.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Seguro e Aguiar-Branco falam de transparência na política num país que não a fiscaliza

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião