Galp quer assinar com Moeve até final de julho. Conversas com Governo “focadas na segurança de abastecimento”
Petrolífera tem "fluxo e proximidade" grande com Governo, diz co-CEO ao ECO. Sobre o abastecimento de jet fuel para a aviação, João Diogo Marques da Silva assegura que "não há razão para alarmes".
- A Galp pretende concluir a fusão dos seus portefólios de downstream com a espanhola Moeve antes de agosto, focando-se na segurança de abastecimento em Portugal.
- O acordo não vinculativo, anunciado em janeiro, prevê que a Galp fique com 50% da nova RetailCo e 20% da IndustrialCo, criando duas empresas líderes na Península Ibérica.
- A fusão levanta preocupações sobre a soberania energética, com o Governo a exigir garantias sobre a proteção dos postos de trabalho e a continuidade das operações.
A Galp quer assinar o acordo de fusão dos seus portefólios de downstream (que incluem refinarias e estações de serviço) com a espanhola Moeve antes de agosto, adiantou ao ECO o co-CEO João Diogo Marques da Silva, garantindo que antes disso “todas as conversas” com o Governo estão focadas na segurança de abastecimento em Portugal.
A petrolífera portuguesa e os acionistas da Moeve — a Mubadala Investment Company e o The Carlyle Group — anunciaram a 8 de janeiro que chegaram a um acordo não vinculativo para avançar com discussões detalhadas sobre a potencial fusão dos seus portefólios de downstream e criar duas empresas líderes de energia na Península Ibérica: a RetailCo e a IndustrialCo. A Galp informou nessa altura que, havendo acordo, ficará com cerca de 50% da nova plataforma de retalho (a RetailCo) com 3.500 estações de serviço na Ibéria e, pelo menos, 20% da empresa industrial a ser criada para a refinação e o trading (a IndustrialCo).
“Isto é um processo que tem timings, é um processo que tem algumas tarefas que são precedentes de outras e, portanto, se nós tivéssemos um atraso, nomeadamente na preparação da due diligence, teríamos um atraso necessariamente na conclusão do processo”, disse João Diogo Marques da Silva, em conversa telefónica após a apresentação de resultados do primeiro trimestre. “Nesta altura, o que posso dizer é que está tudo dentro do timing que nós tínhamos previsto, temos um envolvimento muito grande das nossas equipas, tanto do nosso lado como da Moeve, estão cada vez mais próximas do fim do processo e, nesta altura, é uma transação em que mantemos a intenção de ter uma firme assinatura em meados deste ano”.
O gestor especificou que “portanto, antes de verão ou antes das férias — se as férias forem em agosto para todos –, deveríamos ter essa conclusão e entrar num processo de aprovações que é normal neste tipo de operações”.
Numa primeira reação, a 13 de janeiro, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, disse que o Executiva estava “consciente das vantagens e possíveis desvantagens, mas convencido que vai ser positivo”, respondendo sobre uma eventual preocupação de que este negócio afete a soberania energética nacional. Um dos pressupostos em cima da mesa é que a Galp ficará com 20% da entidade que juntará os ativos industriais das duas petrolíferas, o que inclui a refinaria de Sines. “Nós ganhamos o controlo de duas outras [refinarias]”, alegou.
Porém, passados oito dias, Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e Coesão Territorial, veio dizer que “era melhor termos uma refinaria totalmente controlada por Portugal”, sublinhando que a infraestrutura de Sines tem um peso na economia e soberania relevante e que a Galp está ciente disso. “O Governo tem de acompanhar as negociações e preservar o máximo da soberania em matéria energética”, referiu ainda o ministro.
A 2 de março, os co-CEO da Galp disseram ao ECO que a liderança da empresa já teve “mais que uma conversa” com o Governo para explicar o “racional” do acordo e prestou toda a informação.
Esta segunda-feira, João Diogo Marques da Silva garantiu que a Galp tem “um fluxo e uma proximidade muito grande [com o Governo], e essa proximidade tem estado sobretudo focada naquilo que é a segurança de abastecimento em Portugal”.
Sublinhou que “é aí que estão todas as conversas”. “Aquilo que nós temos de assegurar é que temos ativos que estão a funcionar, ativos que são competitivos e há ativos que se podem apetrechar ainda mais, do ponto de vista de transição, para que eles tenham a longevidade e a resiliência no tempo que nós necessitamos como país”, completou.
“É isso que temos de conversar e não começou agora. Estas conversas já começaram há muito tempo e o Governo está bastante bem informado sobre aquilo que pensamos”, adiantou.
“Temos as pessoas certas”
A Comissão Central dos Trabalhadores da Petrogal e sindicatos têm exigido esclarecimentos sobre o negócio – que dizem poder ser “muito desastroso” – e pedido garantias para a proteção dos postos de trabalho. Questionado se a eventual fusão dos negócios iria criar sinergias em termos de duplicação de postos de trabalho e, portanto, cortes no emprego, Marques da Silva recusou comentar o assunto. Referiu, contudo, que “as refinarias têm de continuar a funcionar e precisam de ter gente capaz e formada para isso”. “Estamos muito convencidos que temos dos dois lados as pessoas certas para dar continuidade a esses processos”, frisou.
“Um dos motivos pelos quais esta transação que estamos a discutir nos parece, e acreditamos que também parece à Moeve, interessante é exatamente porque, como estamos a falar de dois veículos [um para industrial e outro para comercial] – como são separados e muito específicos a cada uma das atividades, isso permite ter estruturas de financiamento e toda a componente financeira desenhada para os aspetos que são características destes negócios“, acrescentou a co-CEO Maria João Carioca.
“Um negócio industrial tem, apesar de tudo, características diferentes de um negócio mais comercial. E ao ter os dois veículos, isso cria aqui a possibilidade de otimizar, não só otimizar operacionalmente, mas também otimizar financeiramente”, sublinhou na mesma conversa telefónica. “Lembro que na empresa industrial temos um calendário de investimentos de transição relevante e, portanto, conseguir separar as águas, perceber que em momentos diferentes as necessidades de cada uma são diferentes e, portanto, que o melhor é termos essas águas bem separadas e cada uma estar a dar a sua resposta ao seu ritmo, é uma das partes boas da transação“.
“Acalmar as pessoas”
Noutro assunto de soberania energética, o abastecimento de jet fuel para a aviação numa altura em que a guerra no Médio Oriente está a restringir a oferta, João Diogo Marques da Silva recordou que “tipicamente 80% da procura nacional é abastecida por produção também nacional e há evidentemente alguma flexibilidade e volatilidade em função da evolução da procura e da oferta”.
Adiantou, no entanto que “temos de ter em conta, e não vou conjeturar sobre cenários, temos observado alguma redução também do lado da procura, porque tem-se verificado algum cancelamento de voos, mas temos sobretudo tentado antecipar compras de jet fuel, temos tentado também reforçar os stocks, e a flexibilidade logística para nos dar acesso a mais rede”.
“E, nesta altura, aquilo que posso dizer é que não há razão para alarmes, temos o abastecimento assegurado“, vincou. “Tipicamente, um mês e meio antes, este abastecimento é assegurado e, portanto, a mensagem tem sido de segurança e de acalmar as pessoas em relação a um problema que nós estamos atentos, mas que é, eu diria, mais um problema europeu do que propriamente um problema em Portugal”.
O lucro líquido da Galp disparou 41%, em termos homólogos, para 272 milhões de euros no primeiro trimestre, beneficiando do aumento da produção e dos preços do petróleo no contexto da guerra no Médio Oriente, anunciou esta segunda-feira a empresa. O EBITDA (sigla em inglês para resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) também subiu 41% para 943 milhões de euros entre janeiro e março, face ao mesmo período de 2025, informou.
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