Ações e obrigações dominam carteiras da geração que vai herdar 71 biliões de euros
Os herdeiros milionários que vão gerir a maior transferência de riqueza da história nas próximas décadas preferem ações, obrigações e ETF a ativos disruptivas que dominam o discurso financeiro atual.
- Uma análise do UBS Global Wealth Management revela que 79% dos herdeiros preferem investir em ações e obrigações, em vez de criptoativos ou hedge funds.
- Embora a maioria dos herdeiros reconheça a importância da transferência de riqueza, apenas 17% tiveram discussões sobre o tema na infância, evidenciando um silêncio familiar prejudicial.
- A nova geração de herdeiros procura alinhar investimentos com valores sociais, com 45% interessados em investimento de impacto e sustentabilidade.
Quando se imagina como os herdeiros das maiores fortunas mundiais gerem a riqueza que vão receber, a intuição aponta frequentemente para apostas sofisticadas e disruptivas como criptoativos, hedge funds, ativos alternativos. Mas a realidade está muito longe disso.
O mais recente relatório do UBS Global Wealth Management “What’s on the horizon?”, revela que 79% dos herdeiros que gerem os seus próprios investimentos apostam em ações e obrigações individuais — os pilares tradicionais de qualquer carteira –, enquanto os fundos de investimento passivos e os ETF (fundos cotados em bolsa) surgem como segunda opção preferida, detidos por cerca de metade dos inquiridos.
Na outra extremidade surgem os criptoativos com apenas 11% dos milionários a revelar algum tipo de exposição a estes ativos e apenas 6% a dizer que investe em hedge funds, figurando assim entre as apostas menos populares destes investidores, segundo as respostas de mais de 170 membros da chamada “próxima geração” de herdeiros e líderes de famílias com elevado património, distribuídos por várias regiões do mundo.
Cerca de dois em cada cinco membros da próxima geração associam a transferência de riqueza à assunção de novas responsabilidades, e não tanto ao momento do falecimento de um familiar.
É uma geração de herdeiros mais conservadora e racional do que a narrativa mediática faz crer e é ela que se prepara para gerir a maior transferência de riqueza da história moderna que, segundo o UBS, irá traduzir-se na passagem de mãos de mais de 71 biliões de euros, o equivalente a cerca de 270 vezes o PIB de Portugal, ao longo das próximas duas a três décadas, de uma geração para a seguinte.
O fenómeno, batizado de “Grande Transferência de Riqueza”, resulta do envelhecimento demográfico, do aumento da esperança de vida e de décadas de valorização de ativos, e está a redesenhar, de forma silenciosa mas profunda, o mapa da riqueza mundial.
Porém, este não é apenas um movimento financeiro de grande escala. Para as famílias envolvidas, esta transição é, antes de tudo, uma transferência de responsabilidade e isso, segundo o relatório, acontece muito antes de qualquer ativo mudar formalmente de dono. “O meu irmão e eu não pensamos na herança como algo que vamos receber, mas sim como a nossa responsabilidade de fazer um trabalho tão bom como o do nosso pai”, diz ao UBS um herdeiro de segunda geração.
Esta perceção é transversal: cerca de dois em cada cinco membros da próxima geração associam a transferência de riqueza à assunção de novas responsabilidades, e não tanto ao momento do falecimento de um familiar. Nas famílias de quarta e quinta geração, essa visão é ainda mais pronunciada, com metade dos inquiridos a encarar já a sucessão como um processo estruturado de gestão de riqueza, e não como um evento reativo.
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Silêncio familiar pode custar fortunas às próximas gerações
O caminho até que os ativos mudam efetivamente de mãos é longo e faseado, destaca o UBS. Na maioria das famílias, cerca de 60%, são os pais ou os detentores atuais da riqueza quem inicia a conversa, mas à medida que o processo avança, é a nova geração que passa a liderar: a proporção dos herdeiros a conduzir ativamente a transferência sobe de 13% para 22%, enquanto os progenitores vão cedendo terreno.
Um terço dos inquiridos já se encontra em processo ativo de transferência de patrimónios, sendo o principal catalisador a assunção de maiores responsabilidades no negócio familiar (35%), seguida de eventos marcantes de vida — casamentos, nascimentos, divórcios (22%). “O meu pai é um grande crente no envolvimento gradual da próxima geração. Ele não quer uma correria louca no fim”, conta um herdeiro.
O relatório mostra ainda que mais de metade dos inquiridos (56%) acredita que os pais deviam discutir o tema da riqueza com os filhos durante a infância ou a adolescência, mas apenas 17% tiveram esse contacto precoce; a maioria, 44%, só abordou o assunto já em adulto.
O silêncio tem custos elevados: quase metade dos herdeiros (48%) afirma que nas gerações anteriores da sua família não existiu qualquer processo estruturado de transferência de riqueza. “Não havia estratégia nem visão. Por isso, quando chegar a minha vez, quero ter uma estrutura transparente e uma visão comum de onde queremos estar”, confessa um herdeiro ao UBS.
A geração herdeira quer riqueza com propósito
No que toca ao ecossistema de aconselhamento, a próxima geração surpreende, com os dados do relatório a apontar para que são os pares — outros herdeiros em situações semelhantes — a principal fonte de conselho (27% dos inquiridos), ligeiramente à frente dos gestores de patrimónios (21%).
Além disso, a continuidade conta na hora de alocar a gestão das fortunas: 41% preferem trabalhar com o mesmo banco ou gestor que a família já utiliza, e 74% das famílias com boa governação já estão ativamente a planear ou a executar a transferência dos seus ativos. “Os nossos consultores trabalham connosco há 15 a 20 anos. Quando encontramos alguém comprometido e de confiança, queremos trabalhar com essa pessoa a longo prazo”, resume um gestor de portefólio entrevistado no relatório.
É na filosofia de investimento que a marca desta geração de herdeiros se torna mais completa. Se a prudência dos ativos tradicionais é evidente — ações, obrigações e ETF dominam as carteiras, com os criptoativos e hedge funds no fundo da lista –, o que os distingue verdadeiramente das gerações anteriores é a ambição de alinhar a riqueza com valores.
A qualidade da transferência de riqueza depende de quão deliberadamente as famílias preparam aqueles que irão herdar.
Quase metade (45%) já investe ou quer aprender mais sobre investimento de impacto e sustentabilidade, com especial destaque entre as mulheres e os respondentes mais jovens. “Ganhar dinheiro é importante, mas também o é investir na sociedade”, sintetiza um dos herdeiros ouvidos pelo UBS. Não se trata de uma contradição com a preferência pelas ações e obrigações, mas de uma nova visão sobre como esses ativos devem trabalhar — não apenas para gerar retorno, mas para criar impacto.
O retrato que emerge do relatório do UBS é o de uma geração de herdeiros consciente, globalmente conectada e com uma visão de longo prazo que vai muito além da simples preservação da riqueza recebida.
Quando confrontados com os grandes desafios globais que terão de enfrentar, colocam a tecnologia e a inteligência artificial no topo das preocupações (62%), seguidos da pobreza e desigualdade (49%) e das alterações climáticas (38%). É assim uma geração que não quer apenas herdar, mas quer perceber porquê, como e com que propósito.
Como resume Benjamin Cavalli, responsável pela área de clientes estratégicos do UBS Global Wealth Management, “a qualidade da transferência de riqueza depende de quão deliberadamente as famílias preparam aqueles que irão herdar”. Com 71 biliões de euros em jogo, esse aviso dificilmente poderia ser mais oportuno.
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