Cerâmica “de rastos” com custos elevados e concorrência desleal

APICER alerta que o setor da cerâmica, que reúne 1.260 empresas e mais de 18 mil empregos, enfrenta um desequilíbrio estrutural provocado pelos custos de carbono e pela concorrência externa "desleal".

A Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristaleira (APICER) alertou esta terça-feira que o setor está em risco devido ao aumento dos custos com as taxas de carbono e à concorrência desleal.

“O setor está a atravessar um período muito complicado, que não é conjuntural, mas estrutural, devido às taxas de carbono”, afirmou o vice-presidente da APICER, na Assembleia da República, durante uma audição a pedido do Chega para analisar o impacto dos conflitos geopolíticos e do aumento dos custos de carbono na cerâmica e no vidro.

O responsável sublinha que o principal problema reside nas licenças de carbono, que classifica como uma “questão estrutural”. A associação, que representa 1.260 empresas, emprega mais de 18 mil pessoas e gera cerca de 1,5 mil milhões de euros de volume de negócios, defende uma revisão do benchmark aplicado ao setor.

“Atualmente, ao contrário do cimento, do papel e de outras indústrias, a cerâmica não tem um benchmark por produto e acabou por ficar num benchmark residual, o chamado benchmark de combustível, que nos atira para valores de emissão muito abaixo dos do gás natural”, explicou.

Não somos contra as taxas de carbono, mas defendemos a revisão da forma como são atribuídos os créditos de carbono às empresas cerâmicas”, acrescentou Paulo Almeida, salientando que “a descarbonização plena do setor só será possível com gases renováveis”.

A pressão de custos está a agravar-se com a concorrência externa. “A cerâmica europeia está a ser invadida por produtos indianos que entram no mercado sem qualquer custo adicional”, apontou, denunciando um “excesso de oferta” e uma concorrência “absolutamente desleal”.

A cerâmica europeia está a ser invadida por produtos indianos que entram no mercado sem qualquer custo adicional.

Paulo Almeida

Vice-presidente da APICER

Neste contexto, o vice-presidente da APICER admite que “é quase impossível repercutir os aumentos de custos nos preços ao cliente”.

Para mitigar o impacto, a associação defende a criação de medidas que assegurem maior estabilidade no preço do gás natural, bem como o apoio ao consumo de gases renováveis. Estas medidas seriam essenciais para apoiar as empresas e acelerar a descarbonização, reduzindo a dependência do gás natural.

A APICER pede ainda “neutralidade tecnológica”, criticando o que considera ser uma dualidade de critérios na política europeia. “Na Europa, os carros híbridos são considerados uma solução de transição, mas no caso da cerâmica um forno híbrido continua a ser tratado como um forno a gás natural. Esta dualidade está a colocar a indústria de rastos”, lamentou.

“Sem apoio aos gases renováveis, há setores que não têm qualquer possibilidade de descarbonizar ao ritmo exigido pela Europa”, concluiu o vice-presidente da Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e Cristaleira.

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