Consumidores da Zona Euro estão mais pessimistas. Esperam mais inflação e maior contração
Inquérito aos consumidores divulgado pelo BCE indica um aumento das expetativas de inflação na Zona Euro a médio e longo prazo. Sobe pressão para a reunião do Conselho de Governadores.
- A guerra no Irão e a crise dos combustíveis estão a provocar um choque estagflacionista na Zona Euro, com aumento esperado da inflação e maior contração económica.
- Os consumidores esperam uma inflação de 4% para os próximos 12 meses, um aumento significativo em relação aos 2,5% previstos em fevereiro, refletindo um pessimismo crescente.
- As expectativas de crescimento económico caíram para -2,1% e a taxa de desemprego esperada subiu para 11,3%, indicando um cenário económico desafiador para a Zona Euro.
A guerra no Irão e a consequente crise dos combustíveis está a gerar não apenas um choque inflacionista, como a aumentar o risco de estagflação, isto é, baixo crescimento e inflação elevada, na Zona Euro. É pelo menos isso que revelam os dados sobre as expectativas dos consumidores, divulgados esta terça-feira pelo Banco Central Europeu (BCE), a dois dias da reunião do Conselho de Governadores em Frankfurt.
Os resultados do inquérito relativo a março revelam que os consumidores do bloco do euro esperam agora uma aceleração mais acentuada do que no mês anterior da inflação a médio e longo prazo. Deste modo, as expectativas para os próximos 12 meses e para um horizonte de três anos são de uma inflação de 4% e 3%, quando em fevereiro era esperada uma taxa de 2,5% em ambos os casos.
Mas o maior pessimismo não se fica por aqui. As expectativas de inflação dos consumidores sobre a taxa de inflação homóloga ao longo dos últimos 12 meses situa-a em 3,5%, quando em fevereiro era de 3%. Por outro lado, as expectativas de inflação para um horizonte de cinco anos também aumentaram em março, mas em menor grau, passando de 2,3% em fevereiro para 2,4%.
Ademais, os dados indicam que a incerteza relativamente às expectativas de inflação para os próximos 12 meses aumentou em março. Os dados são conhecidos na semana em que o Conselho de Governadores do BCE se reúne, aumentando a pressão para a instituição que em março cortou as perspetivas de crescimento e reviu em alta as da inflação.

“À medida que se aproxima a reunião de quinta-feira do Banco Central Europeu, os dados divulgados esta manhã reforçam a evidência de que a guerra no Médio Oriente e a subida dos preços da energia não estão apenas a gerar um choque inflacionista, mas sim um choque estagflacionista para a economia da Zona Euro”, assinala Carsten Brzeski, economista-chefe de macroeconomia do ING, numa nota de research.
É que o inquérito também revela que as expectativas relativas ao crescimento económico para os próximos 12 meses tornaram-se mais negativas, reduzindo-se para -2,1% em março, o que compara com -0,9% em fevereiro, ao passo que a taxa de desemprego esperada para daqui a 12 meses aumentou para 11,3% em março, em comparação com 10,8% no mês anterior.
Os dados divulgados esta manhã reforçam a evidência de que a guerra no Médio Oriente e a subida dos preços da energia não estão apenas a gerar um choque inflacionista, mas sim um choque estagflacionista para a economia da Zona Euro.
Tal como observado em meses anteriores, os agregados familiares de menor rendimento anteciparam a taxa de desemprego mais elevada a 12 meses (13,7%), enquanto os de maior rendimento preveem a taxa mais baixa (9,7%). No entanto, os consumidores continuam a esperar que a taxa de desemprego futura seja ligeiramente superior à taxa de desemprego atualmente percecionada (10,6%).
“Embora o aumento das expectativas de inflação alimente o debate sobre subidas das taxas de juro, os sinais crescentes de impactos negativos no crescimento tornam menos evidente a adoção de subidas agressivas [das taxas]. Ainda que o principal objetivo da política monetária do BCE seja a estabilidade de preços, é difícil imaginar que a instituição queira combater um choque exógeno de oferta à custa de agravar uma desaceleração económica“, antevê Carsten Brzeski.
Na semana passada, também chegaram outros sinais de maior risco de estagflação nos países do euro: a atividade do setor privado da Zona Euro entrou em contração em abril, pondo fim a um ciclo de 15 meses consecutivos de crescimento.
Ainda assim, “salvo uma surpresa muito significativa em alta” nos dados preliminares da inflação, que serão divulgados na manhã de quinta-feira, Felix Feather, economista da Aberdeen, também acredita que o BCE irá manter para já as taxas de juro diretoras inalteradas.
“No entanto, a presidente Christine Lagarde poderá aproveitar a conferência de imprensa para preparar o terreno para eventuais subidas de taxas já a partir de junho. Esperamos que o BCE preserve margem de manobra enquanto avalia o impacto macroeconómico do atual choque energético“, considera o economista. Contudo, realça que “o BCE estará determinado a não repetir erros recentes, o que significa que novas subidas das taxas de juro poderão não tardar”.
Neste sentido, as expectativas dos consumidores de crescimento dos preços da habitação para os próximos 12 meses aumentaram, tal como as expectativas para as taxas de juro do crédito à habitação no mesmo horizonte temporal.
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