Kristin. Autarca de Leiria considera “impossível” pagar casas no prazo e critica falta de exclusividade de arquitetos e engenheiros

No apoio à reconstrução de casas, falta de exclusividade de arquitetos e engenheiros atrasa pagamentos, afirma autarca, considerando difícil respeitar o prazo de pagamento anunciado pelo Governo.

“O Governo anunciou que queria pagar até finais de junho. Acho difícil. No caso de Leiria, acho impossível”, diz Gonçalo Lopes, presidente da Câmara Municipal de LeiriaHugo Amaral/ECO

Leiria, o município com os maiores danos causados pela depressão Kristin, tem em curso a análise dos cerca de 11 mil pedidos de indemnização pelos estragos causados em habitações, mas o autarca Gonçalo Lopes considera como “um dos pontos mais críticos” cumprir-se o prazo de finalização dos processos estabelecido pelo Governo, e que termina no final de junho. Em Leiria é, considera Gonçalo Lopes em declarações ao ECO/Local Online, “impossível”.

Na capital de distrito, a câmara tem vindo a “acelerar as análises”, garante o autarca socialista, havendo já 10.786 candidaturas. Números atualizados desta terça-feira, quando passam três meses de Kristin, apontam para 2650 candidaturas analisadas pela autarquia, das quais 808 estão estão validadas e pagas pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro. Aguardam pagamento 1082, foram recusadas 760 e devolvidas 719 ao requerente, para aperfeiçoamento (por vezes falta algo tão simples quanto a indicação do NIB de quem apresenta o processo).

Temos uma média semanal que pode chegar às 400, 500 avaliações. Mas depois precisam de ser validadas. Se mantivermos esse ritmo, estamos a falar no prazo de um mês para que consigamos 1500, 2000. Vai demorar o mês de Maio, o mês de Junho, julho… pelo menos 4 meses“, antevê.

E ainda que considere que a autarquia vai “conseguir aumentar o ritmo de validação, há uma [outra] tarefa, que é o pagamento”, e aí reside um problema adicional, explica: “Ainda tem que ser validada e paga pela CCDR, que ainda está mais lenta. Nós validámos mais rápido do que do que a CCDR está a pagar”.

Ainda tem que ser validada e paga pela CCDR, que ainda está mais lenta. Nós validámos mais rápido do que do que a CCDR está a pagar.

Gonçalo Lopes

Presidente da Câmara Municipal de Leiria

“Nós estamos com um ritmo de análise, embora lento, muito mais rápido do que se está a pagar. O principal trabalho é nosso, eles só tinham que pagar”, acentua. Num exemplo académico em que um cidadão solicite apoio de 4.000 euros e a avaliação da autarquia aponte para 3.000 euros de custos com a reparação dos danos, a CCDR deveria apenas “abrir o processo e proceder ao pagamento dos 3.000 euros”, resume.

Acho que eles estão a rever as coisas e depois também têm receio, o receio de que se pague mal e depois analisam outra vez, depois voltam para trás… é um processo, eu respeito, porque o escrutínio é muito grande“.

Nesta conversa com o ECO/Local Online na Câmara de Leiria, quando passam três meses da devastação que caiu sobre o seu concelho, Gonçalo Lopes diz que “está a ser mais lento devido às questões burocráticas que foram introduzidas e que obriga as câmaras a fazer mais trabalho na validação dos pedidos“.

A travar a celeridade está ainda a falta de dedicação plena dos arquitetos e engenheiros chamados a auxiliar o processo de análise dos pedidos de apoio à reconstrução de casas quando estão em causa valores até 5.000 e 10.000 euros.

"O Governo, através da estrutura de missão, financia a contratação de técnicos das ordens dos arquitetos e dos engenheiros. O que se repara é que os arquitetos e engenheiros têm a sua vida própria, os seus ateliês, os seus clientes, e só conseguem ter horas disponíveis fora do seu horário normal de trabalho e aos fins de semana, o que faz com que os tais 700 elementos que tinham sido anunciados preparados têm a sua agenda muito limitada, o que faz com que não sejam 700, sejam em termos de horas úteis, muito poucas horas para poder dar ritmo.”

“A conciliação entre um part-time e aquilo que é a vida das pessoas nem sempre é conciliável”, ironiza, fazendo o paralelo com o trabalho feito por outros profissionais no terreno: “Os peritos das companhias são profissionais a 100%, não fazem mais nada, portanto, conseguem agendar o seu trabalho a eito”.

“O Governo anunciou que queria pagar até finais de junho. Acho difícil. No caso de Leiria, acho impossível”, manifesta Gonçalo Lopes.

“Temos muitas empresas a funcionar ainda com starlinks”

Gonçalo Lopes lamenta ainda a falta de reposição do serviço de telecomunicações “em muitas aldeias e freguesias”, com ênfase na fibra. “Algumas empresas ainda não têm, o que é um enorme prejuízo, porque as empresas funcionam com internet para tudo. Não é só para comunicarem com clientes e fornecedores. Também dão instruções para funcionar em chão de fábrica, recorrendo à internet, nomeadamente na indústria 4.0, e por isso temos muitas empresas a funcionar ainda com starlinks”, reforça.

O autarca salienta que a reposição de fibra ótica “é uma operação muito demorada”, feita em postes de madeira “em que houve destruição completa. O processo é muito demorado, o que faz com uma população ainda bastante grande não tenha comunicações, apesar de ter sido reposta a comunicação móvel, porque essa é feita através de antenas”.


Notícia atualizada às 11h00 com valores desta terça-feira no segundo parágrafo

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