Operação Influencer. António Costa apanhado em falso com escutas telefónicas

  • Advocatus
  • 28 Abril 2026

O processo Operação Influencer reúne cerca de 20 mil páginas de elementos de investigação do Ministério Público que pediu a prorrogação do prazo para 2027.

António Costa, ex-primeiro ministro socialista que, em novembro de 2023, garantia que o seu amigo Diogo Lacerda Machado “nunca, em circunstância alguma” lhe tinha falado sobre o projeto Start Campus, em Sines, vê agora essa declaração contrariada por uma escuta telefónica divulgada pela TVI e pela CNN Portugal.

Nessa gravação, realizada na véspera de Natal de 2022, o consultor ligado ao centro de dados terá contactado o então primeiro-ministro para lhe transmitir a “dinâmica excecional” do projeto em Sines. Durante a conversa, António Costa refere ainda que tinha conhecimento de que Lacerda Machado tinha entretanto partilhado boas notícias com Vítor Escária, então chefe de gabinete do primeiro-ministro. Quer Lacerda Machado quer Vítor Escaria são arguidos no processo conhecido como Operação Influencer. Um processo que reúne cerca de 20 mil páginas de elementos de investigação do Ministério Público.

Da análise do processo resulta a indicação de várias fragilidades na investigação. Apenas dois meses após as detenções foi iniciado o rastreio de fluxos financeiros, três arguidos continuam por ser ouvidos e permanecem por realizar diversas diligências consideradas relevantes. O Ministério Público chegou a solicitar a prorrogação do prazo, admitindo a possibilidade de conclusão do inquérito apenas depois de 2027.

Em novembro de 2024, o procurador-geral da República, Amadeu Guerra, assumiu esperar que a decisão da Operação Influencer estivesse “para breve”, embora alertando que depende “um bocado do processo”. Mas o processo continua sem fim à vista.

Amadeu Guerra salientou que os processos esperam o tempo que “for necessário” e quando se chegar à fase final ou deduzem acusação ou arquivam o processo. “Isto significa que ainda não foi deduzida acusação nem foi arquivado o processo. Significa que o processo está pendente”, acrescentou.

No decorrer deste processo, António Costa, atualmente presidente do Conselho Europeu, foi ouvido – na qualidade de declarante –, mas nem sequer foi constituído arguido.

Foi no dia 7 de novembro de 2023 que a Operação Influencer chegou ao palco mediático com a realização de buscas à residência oficial de António Costa, e ainda buscas de ex-membros do Governo. Esta operação levou à detenção de cinco arguidos – o chefe de gabinete do primeiro-ministro, Vítor Escária; o presidente da Câmara de Sines, Nuno Mascarenhas; dois administradores da Start Campus, Afonso Salema e Rui Oliveira Neves; e o advogado Diogo Lacerda Machado, amigo de António Costa – e culminou com a demissão de António Costa, a posterior queda do Governo e a marcação de eleições antecipadas.

No total, há nove arguidos no processo, entre eles o ministro das Infraestruturas, João Galamba; o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Nuno Lacasta; o advogado e antigo porta-voz do PS, João Tiago Silveira; e a empresa Start Campus.

Em causa está a suspeita de 28 crimes: prevaricação, tráfico de influência, corrupção ativa e passiva – quanto a titular de cargo político, agravada – e recebimento indevido de vantagens quanto a titular de cargo público, agravado. Afonso Salema e Rui Oliveira Neves, da Start Campus, estão a ser investigados por seis crimes. Diogo Lacerda Machado por quatro.

O então primeiro-ministro demitiu-se depois de se saber que o seu nome tinha sido citado por envolvidos na investigação do MP a negócios do lítio, hidrogénio e do centro de dados em Sines, levando o Presidente da República a dissolver a Assembleia da República e convocar eleições legislativas para 10 de março.

Costa recusa comentar escutas e diz desconhecer processo Operação Influencer

Entretanto, o antigo primeiro-ministro António Costa reiterou esta terça-feira desconhecer o processo da Operação Influencer, escusando-se a comentar as escutas tornadas públicas sobre uma conversa com Diogo Lacerda Machado sobre o data center que iria ser construído em Sines.

“Não conheço nada do processo. Fui ouvido há quase dois anos, a meu pedido. Desde aí não faço ideia do que aconteceu. Já requeri várias vezes o acesso ao processo. Por isso, ao contrário dos senhores [jornalistas] nunca tive acesso. Não vou comentar o que não conheço”, disse António Costa, em Braga, após participar na celebração do 50.º aniversário do Curso de Licenciatura em Relações Internacionais, da Universidade do Minho.

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