‘Plutonomy’ continua a ditar o mercado global de luxo
Vinte anos depois, a Knight Frank conclui que a concentração extrema de riqueza continua a moldar o imobiliário prime, os clubes privados e os ativos de estatuto.
A concentração extrema de riqueza continua a ser uma das principais forças por trás do mercado global de luxo, segundo a edição de 2026 do The Wealth Report, da Knight Frank. Vinte anos depois de ter identificado a “plutonomy” como uma tendência estrutural, a consultora conclui que a economia dos ultra ricos ganhou ainda mais peso no imobiliário prime, na hotelaria de topo, nos clubes privados e nos ativos de coleção.
O conceito descreve uma economia em que os mais ricos concentram uma parcela desproporcionada da riqueza e do consumo. “O mundo tem favorecido, e continua a favorecer, os mais ricos”, afirma David Poole, antigo responsável do Citi Private Bank no Reino Unido e Irlanda, citado no relatório. O mesmo gestor acrescenta que, nas últimas duas décadas, “a criação incremental de riqueza aumenta à medida que se sobe na pirâmide”.
O impacto é particularmente visível no imobiliário. A procura de uma residência principal deu lugar a uma lógica de várias bases globais, com os ultra ricos a distribuírem casas, capital e estruturas familiares entre Londres, Nova Iorque, Dubai, Miami, Singapura, Itália ou Suíça. Andrew Hay, antigo responsável global de residencial da Knight Frank, resume a mudança: “De repente, 100 pessoas ricas passaram a querer cinco casas cada.”
A mobilidade é agora um dos principais ativos dos grandes patrimónios. Segundo Hay, “a riqueza é verdadeiramente, verdadeiramente móvel”, mas a incerteza está a reduzir o número de mercados onde os ultra ricos se sentem confortáveis para investir. O relatório identifica Nova Iorque, Florida, Dubai, Londres e Singapura entre os hubs centrais desta nova geografia.
A pressão fiscal e regulatória tornou-se um fator decisivo. Jonathan Goldstein, CEO da Cain International, diz que, perante a escolha, muitos ultra ricos estão a mudar-se para Miami. E defende que “não é possível compreender o mercado de luxo atual sem compreender o Dubai”.
Mas a própria Knight Frank reconhece o risco político do modelo. Poole alerta que a acumulação extrema de riqueza se tornou “politicamente sensível” e pode gerar “uma reação adversa”. Para o mercado de luxo, a conclusão é clara: a procura dos ultra ricos está a deslocar-se da posse para o acesso, com residências de marca, clubes privados, hotéis exclusivos, privacidade e experiências raras a tornarem-se os novos marcadores de estatuto.
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