Porto de Setúbal quer ‘roubar’ carros da Stellantis Mangualde a Leixões
Administração portuária vai lançar nova concessão Ro-Ro que vai permitir a Setúbal concorrer pela produção automóvel em Portugal, num momento em que Leixões está sem capacidade para crescer.
A preparar uma nova concessão para o terminal Roll-On Roll-off (Ro-Ro), dedicado a veículos, cujo concurso deverá ser lançado no início do próximo ano, depois deste investimento, além de manter a Autoeuropa, a administração do Porto de Setúbal assume que vai concorrer com o Porto de Leixões pelos carros da Stellantis fabricados em Mangualde, que atualmente são escoados através desta infraestrutura no Norte do país.
“Quero no futuro ter em Setúbal capacidade para receber o que se faz na Autoeuropa, os 300 carros [produzidos diariamente] da Stellantis, o que se faz na Mitsubishi Fuso, [ganhar] algum mercado de Espanha e [crescer no] transhipping”, assumiu Tiago Fernandes, diretor de negócio portuário e logística do Porto de Setúbal.
Num momento em que o Porto de Leixões tenta avançar com o seu plano estratégico para os próximos 10 anos, que vai incluir um novo terminal de contentores e uma nova concessão Ro-Ro no terminal multiusos Sul, mas sem capacidade para crescer nos próximos anos, Setúbal lidera o segmento automóvel. E espera, dentro de três anos, ter capacidade para receber mais oferta, indo buscar mais produção às fábricas em Portugal — Stellantis em Mangualde e Mitsubishi no Tramagal — e também a Espanha, mantendo ao mesmo tempo a Autoeuropa.
Quero no futuro ter em Setúbal capacidade para receber o que se faz na Autoeuropa, os 300 carros [produzidos diariamente] da Stellantis, o que se faz na Mitsubishi Fuso, [ganhar] algum mercado de Espanha e [crescer no] transhipping.
Isto será possível com a nova concessão Ro-Ro, cujo concurso deverá avançar entre o final deste ano e início do próximo, segundo adiantou Tiago Fernandes. Vai incluir uma área de 16 hectares, o que significa duplicar a que tem atualmente. “Com essa oferta criamos capacidade para receber novos mercados, como transhipping, carga mais pesada que precisa de mais capacidade de cais”, explica, destacando que essa oferta “vai ser uma realidade nos próximos anos”.
“O mercado da importação em Portugal é mais ao menos estanque, por isso, o trigger será a captação das fábricas em Portugal. Quero pôr em Setúbal alguma desta produção“, reconheceu na conferência Empack Logistics & Automation, na Exponor. “Temos capacidade de receber e receber bem”, destacou o responsável da administração portuária, que no ano passado movimentou 330 mil veículos e este ano espera aumentar “um pouco mais” este número.
O segmento Ro-Ro em Setúbal assenta em duas vertentes, a da importação — cerca de 60% dos carros importados chegam por Setúbal — e a da exportação, através do escoamento dos carros que chegam da fábrica de Palmela da Volkswagen. A Stellantis, o outro grande produtor de veículos em Portugal, com uma produção diária de cerca de 380 carros, é cliente de Leixões.
A Stellantis queria fazer mais. O que a fábrica [de Mangualde] pretende é aumentar o volume, mas o Porto de Leixões não tem capacidade para o fazer neste momento.
A fábrica de Mangualde tem tentado aumentar o número de veículos que envia através do porto, mas há dificuldades. Com duas saídas semanais, Sérgio Costa, diretor da CLdN, operador do grande serviço de Ro-Ro em Leixões, reconhece que a Stellantis, com quem tem contrato para os próximos anos, “queria fazer mais”.
“O que a fábrica pretende é aumentar o volume, mas o Porto de Leixões não tem capacidade para o fazer neste momento“, lamenta o responsável da infraestrutura nortenha.

O Porto de Leixões ganhou em novembro a exportação de carros da fábrica de Mangualde, que passou a expedir uma parte significativa dos carros produzidos em Portugal através desta infraestrutura.
Segundo a informação divulgada pela Stellantis, a produção nacional de veículos comerciais ligeiros e de passageiros – Citroën Berlingo e Berlingo Van, Fiat Doblò, Opel Combo, Peugeot Partner e Rifter – é expedida por Leixões, com o grupo a prever “numa fase inicial a exportação de 1.600 viaturas por mês“.
Com a fabricante automóvel interessada em reforçar o envio de carros através de infraestruturas portuárias e a pedir o reforço da linha ferroviária entre Mangualde e Leixões, a Medway assume igualmente estar atenta às oportunidades e quer trabalhar com a Stellantis.
Há um terminal que tem de ser preparado para carregar automóveis. Já temos comboios com 750 metros [na Linha da Beira Alta], o que permite uma oferta de 225 automóveis por comboio.
Segundo Paulo Niza, diretor comercial da Medway, depois das obras, a Linha da Beira Alta já permite ter comboios com 750 metros, como era pedido pela fábrica, para permitir o transporte de mais carros. “Há um terminal que tem de ser preparado para carregar automóveis. Já temos comboios com 750 metros, o que permite uma oferta de 225 automóveis por comboio”, calcula.
“É um projeto que a Medway quer agarrar”, assume o responsável, acrescentando que a empresa pode “encaminhar os automóveis para o porto que seja necessário”, uma vez que a própria fábrica já assumiu explorar outros portos, como é o caso de Aveiro.
Quanto a Leixões, Paulo Niza avisa que “vamos ter problemas com as obras” e “limitações com canais ferroviários que entram no porto“, alertando que a infraestrutura poderá ter problemas para crescer no segmento automóvel precisamente devido a estes problemas.
Num momento em que o plano estratégico de Leixões continua a ser alvo de escrutínio, Sérgio Costa destaca os problemas que a infraestrutura portuária enfrenta diariamente, reforçando a necessidade de uma intervenção para aumentar a capacidade de Leixões. “Faça-se mal, mas faça-se”, atira.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Porto de Setúbal quer ‘roubar’ carros da Stellantis Mangualde a Leixões
{{ noCommentsLabel }}