Após 15 anos de lucros, RTP regista prejuízo de quase quatro milhões em 2025
Grupo RTP passa de lucros a prejuízos, com administração a culpar "receitas trancadas desde 2016 e aumento geral de todo o tipo de encargos". Fatura com pessoal subiu 4,9 milhões no ano passado.
Depois do aviso deixado pela administração em janeiro, os números oficiais confirmam o cenário negativo. O grupo RTP registou um prejuízo de cerca de 3,97 milhões de euros em 2025, o que compara com os lucros de 341 mil euros no ano anterior, mostra o Relatório e Contas.
A rentabilidade operacional também sofreu um revés. O EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) fixou-se nos 7,35 milhões de euros. Numa base comparável com o ano anterior — 12,74 milhões –, isto traduz-se numa contração de 42,3%.
A RTP justifica a diferença entre dados comparáveis e reportados — que eram de cerca de 14 milhões em 2024 — com uma mudança contabilística. “No período anterior o cálculo excluía as imparidades e as provisões”, componentes que a fórmula adotada em 2025 passou a integrar.
“Infelizmente, depois de 15 anos a anunciar resultados positivos, a RTP registará em 2025 um prejuízo de 3,9 milhões de euros”, aponta a administração liderada por Nicolau Santos na mensagem que abre o documento. A justificação assenta em dois vetores: “receitas trancadas desde 2016 e aumento geral de todo o tipo de encargos nesse período, num contexto em que a sustentabilidade financeira é condição para assegurar a missão de serviço público”.
“É claro que o Plano de Saídas Voluntárias pesou também neste resultado; e é verdade que ele não ocorreria se os investimentos em curso se reduzissem drasticamente. Isso seria, contudo, hipotecar o futuro da RTP, porque parte importante destes investimentos não são uma opção, mas uma obrigação imperiosa, sob pena da operação poder colapsar”, acrescenta a administração.
Citando a poeta Sophia de Mello Breyner — “Nunca choraremos bastante quando vemos que quem ousa lutar é destruído” –, o Conselho de Administração conclui a mensagem afirmando que “a RTP vai continuar a lutar pelas suas ambições e essa luta é fundamental para o país.”
Fatura com pessoal sobe 4,9 milhões
A nível global, as receitas mantiveram-se estagnadas nos 237,8 milhões de euros — contra 237,9 milhões no período homólogo. A Contribuição para o Audiovisual (CAV) subiu 1,2%, atingindo os 195,7 milhões, um valor que a empresa diz ser “estritamente” justificado pelo incremento orgânico do número de subscritores.
Já as receitas comerciais recuaram 1,7% para 39,79 milhões de euros — numa base comparável com 2024, onde foram registados 40,46 milhões. A RTP explica que esta rubrica passou a contemplar apenas ganhos gerados pela exploração direta do mercado, o que origina a diferença face aos 44,46 milhões reportados em 2024.
A maior queda nas receitas comerciais ocorreu na rubrica “Outras”, que registou apenas 2,39 milhões em 2025 — face a 3,4 milhões numa base comparável e 7,4 milhões com base nos valores reportados. Os principais fatores foram:
- Chamadas de Valor Acrescentado: redução de 404,8 mil euros, devido à descontinuação dos passatempos com recursos a números de valor acrescentado na grelha a partir do verão
- Prestação de serviços de produção: decréscimo de 418 mil euros, motivado pela diminuição de ações de telepromoção e de marketing, com especial incidência no formato “MasterChef”. Adicionalmente, 2024 tinha beneficiado de um contrato com o Turismo de Portugal, no valor de 90 mil euros
- Venda de Conteúdos: quebra homóloga de 180 mil euros
Se as receitas não cresceram, os gastos operacionais ascenderam a 230,5 milhões de euros — um aumento de 2,4% na base comparável. Recorde-se que os dados agora reportados incluem as imparidades e as provisões. Embora os custos de grelha se tenham mantido estáveis, os fornecimentos e serviços externos agravaram-se em 700 mil euros.
A fatura com pessoal subiu 4,9 milhões de euros, dos quais 2,6 milhões devido à atualização salarial anual e à integração judicial de 63 trabalhadores (processos ARECT). A este valor somam-se o impacto extraordinário de 2,3 milhões de euros com as indemnizações do plano de saídas voluntárias.

Analisando outros detalhes financeiros, o endividamento bancário do grupo aumentou também durante 2025, com um acréscimo de 17,8 milhões de euros (+24,9%) face ao período homólogo. De 71,6 milhões em 2024, a dívida ascende agora a quase 90 milhões. “Este incremento concentra-se no endividamento de Médio e Longo Prazo (MLP), que apresentou um crescimento de 17,4 milhões de euros, decorrente da estratégia de reestruturação financeira concluída em maio de 2025″, aponta-se.
Os capitais próprios da empresa permaneceram em território negativo, fixando-se nos 4,4 milhões de euros negativos. O valor foi agravado em 19,3% face aos 3,7 milhões de 2024. “Não obstante a manutenção deste saldo, importa sublinhar a estabilidade deste indicador face ao exercício precedente, refletindo o esforço de equilíbrio entre o desempenho operacional e os encargos financeiros e de investimento da estrutura”, explica o grupo.
Em termos de investimento (Capex), a RTP executou 12,2 milhões de euros — uma taxa de execução de 52% — face ao orçamentado de 23,45 milhões. Do valor executado, 8 milhões foram alocados a infraestruturas e frota, e 4,2 milhões a projetos de renovação tecnológica.

De acordo com o relatório, o grupo RTP, em termos de televisão, encerrou 2025 com 13,1% de share, refletindo uma quebra de 0,6 pontos percentuais face ao ano anterior. Já as rádios contaram com uma média de 652 mil ouvintes, “o melhor desempenho desde 2014”. No digital, obtiveram “o melhor ano de sempre”, tendo obtido 173 milhões de visitas ao site da RTP Online.
Perspetivando 2026, a RTP afirma que a sua situação ” evidencia um desfasamento crescente entre o nível de atividade e de responsabilidades que lhe é exigido e os meios financeiros para o assegurar, tornando-se ainda mais exigente a gestão da empresa num contexto económico adverso”.
Recorde-se que, em janeiro, a administração da RTP alertou, em audição parlamentar, para o facto de o sistema tecnológico que sustenta toda a empresa estar em descontinuação, o que motivava, em parte, os investimentos em curso. Além disso, revelou que é esperado que este ano o resultado da empresa seja melhor, mas que se agrave em 2027.
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