Empresas do Estado fecham ano com lucros a colapsar

O resultado líquido das 126 empresas do Estado caiu 98% em 2025, passando de 480 milhões para apenas 11 milhões de euros, e com os gastos a crescerem quase ao dobro do ritmo da receita.

ECO Fast
  • O Setor Empresarial do Estado registou uma queda drástica nos resultados líquidos, passando de 480 milhões de euros em 2024 para apenas 11 milhões em 2025.
  • Apesar do aumento da receita total em 2,5% para 22.509 milhões de euros, os gastos cresceram quase o dobro, resultando num desequilíbrio financeiro significativo nas empresas públicas.
  • A diminuição da dívida em 3,5% para 12.323 milhões de euros oferece um alívio, mas não resolve os problemas estruturais do modelo de gestão das empresas públicas.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O Setor Empresarial do Estado (SEE) terminou o ano passado com um desempenho económico-financeiro que deixa pouco espaço para otimismo. Num relatório publicado esta terça-feira pela Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) da Assembleia da República, o organismo que monitoriza as contas públicas conclui que os resultados líquidos das 126 empresas analisadas caíram 469 milhões de euros num único ano, de 480 milhões de euros em 2024 para apenas 11 milhões em 2025. Uma queda de 98%.

A deterioração do desempenho é transversal aos principais indicadores operacionais. O EBITDA — medida que mede os lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações, e que funciona como barómetro da saúde operacional das empresas — caiu 455 milhões de euros, cerca de 17,1%, passando de 2.658 milhões em 2024 para 2.203 milhões em 2025.

“Registou-se um aumento homólogo da atividade económica das empresas que integram o SEE, quer por via do aumento da receita total quer dos gastos totais, mas com um impacto líquido agregado negativo de 455 milhões”, refere a UTAO, neste relatório elaborado por António Antunes. Significa que as empresas do Estado cresceram, mas gastaram muito mais do que aquilo que faturaram a mais. Os números das receitas e dos custos contam essa história com precisão.

Sob a tutela do Ministério das Finanças liderada por Joaquim Miranda Sarmento, a receita total das empresas do SEE subiu 2,5% em 2025 num valor equivalente a 542 milhões de euros em 2025 para 22.509 milhões. Já os gastos totais cresceram quase o dobro: mais 998 milhões de euros, uma subida de 5,2%, para 20.306 milhões.

O desequilíbrio é ainda mais gritante quando se olha para as Empresas Públicas Não Financeiras (EPNF) — como a TAP, Infraestruturas de Portugal e Metropolitano de Lisboa — e para as Empresas Públicas Reclassificadas (EPR) – como as unidades hospitalares EPE –, os dois grupos que mais pesaram na degradação dos resultados. Se as EPNF aumentaram a receita em 7,7%, os gastos cresceram 12,1%; as EPR viram as receitas crescer 8,3%, enquanto os custos dispararam 12,6%.

“As EPNF diminuíram o EBITDA em 733 milhões de euros e os resultados líquidos em 787 milhões, agravando este indicador, que já registava valores negativos para este subconjunto de empresas” e “as EPR diminuíram os EBITDA em 725 milhões e os resultados líquidos em 773 milhões”, revela a UTAO, sublinhando ainda que, “no período em análise e também no período homólogo, os níveis de EBITDA e de resultados líquidos registam valores negativos para o conjunto das EPR”. Trata-se, na prática, das empresas públicas que estão integradas no perímetro das Administrações Públicas, ou seja, aquelas cujos resultados negativos têm impacto direto nas contas do Estado.

Menos dívida num contexto de resultados em queda livre é um alívio parcelar, mas não esconde que o modelo de gestão das empresas públicas mais estratégicas para o Estado está a consumir recursos a um ritmo que os resultados já não conseguem justificar.

Mas nem tudo correu mal no universo do SEE. As Empresas Públicas Financeiras (EPF) — como a Caixa Geral de Depósitos, o Banco Português de Fomento e a SOFID — e as Empresas Públicas Não Reclassificadas (EPNR), que operam fora do perímetro das Administrações Públicas, foram as que registaram melhorias.

As EPF aumentaram o EBITDA em 277 milhões e os resultados líquidos em 318 milhões, enquando as EPNR melhoraram estes indicadores em 270 milhões e 304 milhões de euros, respetivamente. “É interessante notar que os segmentos empresariais que apresentam melhores indicadores de rentabilidade EPF e EPNR foram os que contribuíram para o aumento da dívida, ainda que não sejam aqueles que acumulam os maiores stocks de dívida”, ressalva a UTAO.

Há, contudo, uma nota positiva nas contas globais do SEE: a dívida desceu. O stock global de endividamento caiu 444 milhões de euros, menos 3,5%, passando de 12.767 milhões de euros em 2024 para 12.323 milhões em 2025, impulsionada sobretudo pelas EPNF (-660 milhões) e pelas EPR (-447 milhões).

No final do ano, o maior volume de dívida continuava concentrado nas Empresas Públicas Não Financeiras, com 10.015 milhões de euros, e nas Empresas Públicas Reclassificadas, com 8.039 milhões.

Menos dívida num contexto de resultados em queda livre é um alívio parcelar, mas não esconde que o modelo de gestão das empresas públicas mais estratégicas para o Estado está a consumir recursos a um ritmo que os resultados já não conseguem justificar.

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