Decisão de congelar juros foi unânime, mas debate sobre possível subida foi “longo e profundo”, diz Lagarde

Sinais dados pela presidente do BCE apontam para uma subida das taxas de juro em junho, segundo analistas. Seis semanas até essa reunião vão ser úteis para avaliar o impacto da guerra, diz Lagarde

ECO Fast
  • O Banco Central Europeu decidiu manter as taxas de juro inalteradas pela sétima vez consecutiva, refletindo a cautela em relação à guerra no Médio Oriente.
  • A guerra no Médio Oriente tem gerado um aumento acentuado dos preços da energia, impactando a inflação e o sentimento económico na Zona Euro.
  • Sem um fim rápido do conflito, o BCE poderá considerar uma subida das taxas de juro em junho, visando controlar a inflação.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A presidente do Banco Central Europeu começou por responder à pergunta sobre o que a instituição poderá decidir em termos de taxas de juro com o prolongar da guerra no Médio Oriente de forma tipicamente diplomática: “Creio que todos desejamos que a guerra termine rapidamente”. Christine Lagarde não fugiu à questão, mas acabou por satisfazer a curiosidade de jornalistas, analistas e investidores de forma parcial e apenas através de sinais.

“Se tivesse de resumir o que decidimos hoje, diria que tomámos uma decisão informada com base em informação que continua a ser insuficiente“, disse, de forma algo críptica. “Porque digo que foi uma decisão informada? Porque debatemos longamente e em profundidade várias opções”.

Debatemos a decisão que hoje tomámos por unanimidade“, explicou sobre a manutenção das taxas de juro da Zona Euro inalterados pela sétima vez seguida, em sintonia com a cautela demonstrada pelos outros principais bancos centrais perante o escalar da guerra no Médio Oriente. “Mas debatemos também, longamente e em profundidade, a possibilidade de uma subida das taxas de juro“, admitiu a francesa.

No comunicado após a reunião do Conselho, o BCE sublinhara que a guerra no Médio Oriente provocou um “aumento acentuado” dos preços da energia, impulsionando a inflação e agravando o sentimento económico, alertando que as implicações da guerra para a inflação no médio prazo e para a atividade económica dependerão da intensidade e da duração do choque nos preços da energia, bem como da dimensão dos seus efeitos indiretos e de segunda ordem.

Na conferência de imprensa, Lagarde adiantou que a economia da Zona Euro está a afastar-se do cenário base do BCE, ou seja, de uma guerra curta e com pouca propagação da inflação, mas não explicou quão perto está do cenário adverso ou extremo.

Para Carsten Breski, global head of macro do banco de investimento ING, os comentários mais marcantes durante a conferência de imprensa foram a referência a um debate sobre uma subida das taxas de juro na reunião de hoje. “Embora Lagarde tenha sublinhado que a decisão de manter as taxas inalteradas hoje foi tomada por unanimidade, a menção a um debate sobre uma subida das taxas sugere claramente que o BCE se aproximou de uma subida na reunião de junho“.

“Tudo isto significa que, a menos que haja um fim rápido da guerra no Médio Oriente, a inflação global continue a aumentar e os efeitos em cadeia sobre os transportes, os preços dos alimentos e outras partes da cadeia de abastecimento persistam, o BCE está claramente a encaminhar-se para uma subida das taxas em junho“, sublinhou.

Os mercados financeiros antecipam subidas das taxas de juro em junho e julho, seguidas de pelo menos mais um aumento no outono, partindo do princípio de que o BCE estará determinado a travar rapidamente qualquer espiral inflacionista, até porque foi criticado por ter reagido tarde em 2022 à crise energética provocada invasão da Ucrânia pela Rússia.

Lagarde acredita que as seis semanas até à reunião de junho “serão o momento adequado para avaliar a evolução, para compreender, em particular, o desfecho possível do conflito ou, caso não haja desfecho, o que isso, por si só, já será informativo, de modo a tomar uma decisão informada com base em informação verificada e revista que iremos receber nos próximos meses.”

Estacionar a estagflação nos anos 70

Questionada várias vezes sobre se a economia da Zona Euro poderá estar a entrar numa situação de estagflação –na qual a economia não cresce, as pessoas têm mais dificuldade em encontrar trabalho, mas os preços continuam a subir –, Lagarde mostrou alguma irritação e até ironia.

“A estagflação é a caracterização correta do que aconteceu na década de 70″, explicou. “Mas, da nossa perspetiva, consideramos melhor estacioná-la na década de 70, tendo em conta os factos que temos neste momento, é uma situação completamente diferente”.

A presidente do BCE recordou que com os choques energéticos, na década de 70, “a inflação continuava, continuava, continuava a um ritmo sustentado e elevado”.

“Tinha-se um desemprego muito elevado, existia um enquadramento monetário e orçamental que nada tem a ver com o que temos atualmente”, vincou. “Por isso, não aplicamos o termo ‘estagflação’.

Lagarde afirmou que as projeções de março do BCE, que previam uma expansão da economia da Zona Euro de 0,9% este ano, seguida de 1,3% no próximo e 1,4% em 2028, não apontavam para estagnação.

“É um crescimento mais baixo, reconheço, em 2026, mas não estamos em estagnação, muito menos em recessão”, disse. “Agora, pode imaginar cenários em que caminhamos nessa direção. Mas não é isso que estamos a observar neste momento.”

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