Em modo paciente, BCE vai empurrar subida de juros até (pelo menos) junho
Uma guerra que avança aos solavancos obriga o BCE a pausar para avaliar o impacto nos preços da energia. O foco estará virado para os sinais de Lagarde sobre uma subida preventiva dos juros em junho.
- O Banco Central Europeu deverá manter as taxas de juro inalteradas, devido à incerteza do conflito no Médio Oriente e à evolução económica.
- A maioria dos economistas, numa sondagem da Reuters, prevê que o BCE mantenha as taxas, com 84 de 85 a apontar para essa possibilidade.
- As incertezas geopolíticas podem levar o BCE a adopte uma postura mais restritiva, mesmo que o conflito termine rapidamente, afetando a inflação.
O custo do euro não vai subir, pelo menos para já. Com a incerteza do conflito no Médio Oriente a prolongar-se, o Banco Central Europeu (BCE) vai aproveitar o facto de estar bem posicionado e equipado (dixit Christine Largade em março) para manter esta quinta-feira as taxas de juro inalteradas e avaliar, com mais dados, se decide uma subida em junho.
Dessa forma, o banco central deverá manter inalterados os juros pela sétima vez seguida – a taxa de Facilidade Permanente de Depósito nos 2% e as taxas de refinanciamento e de cedência de liquidez nos 2,15% e 2,4%, respetivamente.
Com a guerra no Irão em curso, os preços do petróleo e do gás contidos (estando estes últimos longe dos níveis de 2022), as pressões salariais a abrandar e as expectativas de inflação a longo prazo ancoradas, a paciência parece ser a melhor estratégia a seguir.
“Não vemos motivos para que o BCE proceda a uma alteração imediata das taxas de juro”, escreveu Roman Ziruk, senior market analyst na Ebury, uma fintech global especializada nos mercados cambiais. “Com a guerra no Irão em curso, os preços do petróleo e do gás contidos (estando estes últimos longe dos níveis de 2022), as pressões salariais a abrandar e as expectativas de inflação a longo prazo ancoradas, a paciência parece ser a melhor estratégia a seguir”.
Ziruk prevê que os decisores políticos “façam uma pausa esta semana e vejam como tudo se desenrola antes da próxima reunião em junho, quando serão divulgadas novas projeções macroeconómicas”.
A expectativa de uma manutenção dos custos de financiamento é generalizada entre investidores e economistas. Numa sondagem da Reuters, 84 de 85 economistas apontam para esse cenário. Segundo o ECB Watch, uma ferramenta do BCE para divulgar as probabilidades implícitas no mercado relativamente às decisões sobre as taxas de juro, há uma chance de 90% de uma pausa e de 10% de uma subida de 25 pontos base.

Avaliar o grau de preocupação
Com a pausa praticamente assegurada, o que procurar na comunicação do BCE esta quinta-feira? “Avaliar a atual função de reação do Conselho será a principal tarefa da reunião de abril“, explicou Oliver Rakau, economista na empresa de research e advisory Oxford Economics. “Iremos procurar sinais sobre a forma como o Conselho encara o compromisso entre crescimento e inflação no atual contexto económico e o grau de preocupação do BCE relativamente aos riscos de um aumento significativo das expectativas de inflação e da inflação subjacente, apesar de o choque inicial de custos ter sido muito menor do que em 2022”.
Para Rakau, os dados precisam de mostrar evidências suficientes de efeitos de segunda onda para levar o BCE a agir, mas o limiar é baixo.
“Esperamos que sinais de aumento das expectativas de inflação, um mercado de trabalho resiliente, danos económicos contidos e uma aceleração da inflação subjacente desencadeiem subidas das taxas em junho e julho”, acrescentou, sublinhando que “este modesto aperto monetário equilibra os custos económicos infligidos e o objetivo do BCE de limitar os efeitos de segunda ordem”.
A natureza intermitente do conflito – conflito, cessar-fogo, negociações, colapso, bloqueio, etc. – significa que ainda existe muita incerteza em relação ao próprio conflito e o que isso implica para os preços da energia e a propagação de um choque nos preços da energia para a inflação em geral
Os analistas do Deutsche Bank (DB) recordaram que, tal como tem argumentado Lagarde, “a natureza intermitente do conflito – conflito, cessar-fogo, negociações, colapso, bloqueio, etc. – significa que ainda existe muita incerteza em relação ao próprio conflito e o que isso implica para os preços da energia e a propagação de um choque nos preços da energia para a inflação em geral”.
O banco alemão elaborou sobre os diferentes cenários do conflito e da incerteza. “Mesmo que o conflito termine rapidamente, continuará a existir alguma incerteza persistente em torno dos efeitos duradouros do conflito nos preços da energia, bem como um período prolongado em que o aumento da inflação energética já incorporado possa gerar efeitos de inflação indiretos e de segunda ordem”.
Os analistas do DB salientam que se for provável que as incertezas só se dissipem por fases, o BCE poderá ter de manter a opção de uma postura restritiva durante algum tempo, mesmo que o conflito termine rapidamente.
“Se a crise geopolítica terminar rapidamente, ainda há boas hipóteses de o BCE não
precisar de aumentar as taxas e um choque inflacionário continuaria a estar ‘incorporado, no sentido em que a inflação harmonizada na zona euro atingiria uma média próxima dos 3% este ano, mesmo que o conflito terminasse rapidamente”, explicaram.
Probabilidades elevadas de subidas em junho e julho
Ainda assim, o DB mantém a tese central, devido à incerteza: aumentos no total de 50 pontos base na taxa de facilidade de depósito para 2,50%. “Aumentar para 2,50 % sinalizaria o compromisso com a estabilidade dos preços quando existem riscos de persistência da inflação, e mantendo as taxas dentro do intervalo neutro não prejudicaria excessivamente o crescimento económico”.
Uma das questões a avaliar na conferência de imprensa de Lagarde é o timing desse ou desses aumentos. “Os mercados estimam uma probabilidade de 80 % de um aumento das taxas
em junho; consideramos isso muito provável“, referiu Roman Ziruk, da Ebury.
Segundo a ferramenta ECB Watch essa probabilidade de uma subida de 25 pontos base na reunião de 11 de junho já escalou para 83,6%, enquanto para a reunião de 23 de julho a hipótese principal – de 60,5% – é da taxa de facilidade de depósito avançar até aos 2,50%.
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