Curiouz, uma plataforma portuguesa a levar o vintage europeu pelo mundo
Um ano depois de ter chegado ao mercado, a portuguesa Curiouz apresenta-se em Milão. Esperam chegar este ano ao milhão de vendas e lançam agora um novo modelo de subscrição para compradores.

Um ano (e uns pozinhos) depois de a Curiouz ter nascido, online, mostrou-se na semana de design de Milão pela primeira vez. Soma mais de 280 mil euros em vendas, quer acelerar nos Estados Unidos, atingir o primeiro milhão em vendas.
A Curiouz foi à cidade italiana marcar presença física, algo novo para quem nasceu online e online quer crescer. Trabalham com profissionais e designers de interiores, arquitetos que fazem projetos premium, colecionadores e clientes que estão no segmento de luxo, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa, e é uma plataforma para peças vintage europeias verificadas. O objetivo não é apenas juntar oferta e procura, mas resolver um problema concreto de sourcing, autenticação, logística e confiança. Na próxima segunda-feira, lançam uma nova forma de chegar às melhores peças – com um serviço só para compradores profissionais.
A novidade é contada ao ECO Avenida pela fundadora da Curiouz a partir de Milão. Bárbara Neto conta que a boa receção da Curiouz na primeira apresentação física, num espaço intimista fora da feira principal, apenas visitável sob marcação (e a meio da semana já iam em 40), com uma seleção de peças muito forte, juntado peças de arte com marcas e designers franceses italianos, brasileiros, suíços tinha um propósito. Dizer: “Nós existimos, não somos só um website que vocês visitam e fazem perguntas no chat, existem pessoas por detrás desta plataforma, existem tecnologias, sim, sem dúvida nenhuma, mas existem pessoas que estão aqui para vos dar essa curadoria das melhores peças que existem no mercado europeu”. Ficaram longe dos holofotes, mas numa zona estratégica da cidade, próxima do Bar Basso, explica, e integrada num circuito mais ligado a raridades, vintage e colecionismo. A lógica era simples: estar onde está o público da Curiouz. “Os nossos clientes raramente vão a feiras. Preferem um espaço mais intimista, como uma pop-up ou uma galeria”, explica.

Bárbara Neto, 33 anos, começou a trabalhar ainda na universidade, passou por uma marca de mobiliário, abriu escritório em Londres, estudou design de interiores na escola KLC e criou depois o seu próprio estúdio. A Curiouz, explica ao ECO Avenida, é uma resposta aos desafios que a própria sentia após uma década a trabalhar no design de interiores. Nos projetos que desenvolvia, sobretudo para clientes de luxo internacionais, percebeu que havia uma procura crescente por peças com história, mas um processo de compra moroso, opaco e pouco escalável.
“Eu tinha de viajar para Paris, Bélgica ou Holanda para encontrar as peças certas, fazer follow-up, lidar com fornecedores, logística e autenticidade. E comecei a perceber que era um problema comum a toda a indústria”, contou ao ECO Avenida. A conclusão a que chegou é que os marketplaces existentes funcionavam como intermediários, mas não resolviam realmente o problema.
No final de 2024, a Curiouz começou a ganhar forma e em março de 2025 lançou a plataforma para vendedores, o primeiro passo do negócio. Em setembro, abriu ao lado da procura. Hoje, diz Bárbara Neto, têm mais de 5 mil produtos online, oriundos das 332 contas aprovadas (das mais de 600 candidaturas analisadas). O critério é apertado, garante Bárbara Neto. “Menos de metade dos vendedores que se candidatam são aceites”, diz.
A filtragem acontece em várias camadas. Particulares estão excluídos, já que a plataforma só trabalha com profissionais verificados. Depois, entra a tecnologia. A empresa desenvolveu um sistema com machine learning que cruza imagens, palavras-chave, documentação, certificados e detalhes construtivos para avaliar autenticidade e estado de conservação, um dos três projetos com foco em Inteligência Artificial em que investiu o fundo Angels Way em outubro de 2025, como noticiou o ECO.

Quando há dúvidas, a peça passa para validação humana. “Não aceitamos muito mais do que aquilo que aprovamos”, disse Bárbara Neto. “Não queremos vender uma peça que represente um investimento elevado sem garantir verdade e autenticidade.”
Esse rigor acompanha uma tendência mais ampla. No luxo, o vintage deixou há muito de ser apenas nicho alternativo ou exercício nostálgico. Para muitos clientes, sobretudo em projetos residenciais de gama alta, uma casa não deve parecer uma reprodução da casa do vizinho. E é aí que entram as peças únicas, com proveniência e storytelling. “Se as pessoas usarem, pelo menos, 10% de peças vintage num projeto, isso já tem impacto”, defende a fundadora. “Impacto na experiência, impacto ambiental, impacto na história do espaço. Eleva automaticamente o projeto”.
Garantir a autenticidade das peças é o que distancia a Curiouz de um site de vendas online. “Há cerca de dois anos, comecei a fazer esse levantamento das plataformas em que eu já comprava para os meus projetos e percebi que eles realmente eram só um intermediário, não resolviam o problema, quando havia problemas eles passavam o problema ao vendedor e ao comprador – resolvam-se”. Com a Curiouz, pretendia algo diferente. “Eu sempre quis ter clientes para a vida e acredito que isso é possível mesmo quando as coisas correm mal nós estamos lá. O desafio foi esse: como é que eu crio algo que seja escalável, que não dependa só de mim ou só de uma pessoa ou duas ou três e que realmente consiga resolver o problema da indústria”. No final de 2024, tinha um protótipo, no início de 2025 encontrou um sócio, Bruno Costa, que se encarrega da logística e operações.
“Temos um triângulo nós juntamos os vendedores das peças vintage que estão espalhados na maioria pela Europa, pegamos nos produtos deles, profissionais verificados com a empresa registada, conectamos a parceiros logísticos, transportadoras com que nós trabalhamos”, diz.
A Curiouz vende sobretudo peças mid-century, design italiano e francês dos anos 50 e 70, mas tem registado também um interesse crescente em nomes brasileiros como Joaquim Tenreiro, Sérgio Rodrigues ou Oscar Niemeyer, conta a fundadora da empresa. Do lado da procura, os Estados Unidos continuam a liderar. Em 2025, representaram 80% das vendas. No primeiro trimestre deste ano, esse peso baixou para 52%. Reino Unido, Suíça e Bélgica tornaram-se mais expressivos. Mas o outro lado do Atlântico continua a ser um alvo, “porque é um mercado que procura peças europeias no geral, mas vintage ainda mais”.

Na segunda-feira avançam com uma nova parte do projeto – a subscrição destinada aos compradores, “em que eles têm acesso a ferramentas digitais de trabalho para acelerar os seus processos de especificação no dia-a-dia, como converter qualquer peça vintage num 3D para usar nos projetos deles, o apoio no private concierge, ou seja, terem alguém dedicado a eles para ajudar a encontrar as peças”.
Focados no milhão de vendas
Desde que lançou a plataforma para compradores, a Curiouz já ultrapassou os 280 mil euros em vendas. O modelo de negócio assenta em comissões médias de 18% por transação, que podem chegar a 22%, margens mais elevadas em sourcing para projetos de maior dimensão e uma percentagem sobre logística. A partir de 4 de maio, vai somar uma nova frente: uma subscrição para compradores, com ferramentas digitais, concierge dedicado e funcionalidades como conversão de peças vintage em 3D para integração em projetos. Espera chegar ao milhão de vendas até ao final do ano.
Além do fundo Angel’s Way, contaram com investimento de um fundo belga que aposta em plataformas de impacto social, ambiental, criativo, a investidora portuguesa Anabela Ferreira (uma das fundadoras da Intraplas) e a norte-americana Vera Baker. Neste momento, diz Bárbara, “estamos a avaliar várias hipóteses”. “Queremos investidores que tragam contactos, experiência e conhecimento do mercado norte-americano”, diz Bárbara Neto sobre o que procura. “Nós não estamos só em busca de dinheiro. Estamos em busca de smart money”, sublinha Bárbara Neto.
A proposta da empresa assenta numa convicção que, em Milão, ganhou corpo físico: num setor cada vez mais atravessado por tecnologia, algoritmos e inteligência artificial, o luxo continua a pedir presença, relação e confiança. “Por mais que tenhamos tecnologia do nosso lado, o lado humano é muito importante”, resume a fundadora. “E, na indústria do luxo, esse lado pessoal nunca vai desaparecer.”
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