Volvo ES90: Foi ao fim do mundo e voltou a querer mais

Luís Leitão,

Nasceu na Suécia e reinventou-se na China sob a forma elétrica. A nova berlina da Volvo não precisa de fazer barulho para se impor e faz questionar se o destino importa tanto como a viagem.

Há momentos em que um carro entra numa rotunda e as pessoas param para olhar. Não de forma exagerada — não é um Ferrari nem um Lamborghini que faz virar cabeças por reflexo condicionado. É um olhar diferente: o da pessoa que não sabe bem o que está a ver, mas percebe que é algo importante. O Volvo ES90, estacionado no fim-de-semana passado à beira do Cabo Espichel com o Atlântico como pano de fundo, foi exatamente isso. Uma berlina elétrica de cinco metros que não precisa de gritar para se fazer notar.

A Volvo tem uma história peculiar para uma marca de automóveis: foi fundada em 1927 em Gotemburgo, construiu uma reputação global baseada em segurança — foi a marca que inventou o cinto de segurança de três pontos e o cedeu gratuitamente ao mundo inteiro, o que diz muito sobre o seu ADN — e chegou ao século XXI sob propriedade chinesa da Geely sem perder a identidade nórdica que a distingue.

O ES90 é o primeiro sedã elétrico da marca, sucedendo ao S90 a combustão, e chegou para disputar um segmento onde o BMW i5 e o Mercedes EQE dominam com a arrogância de quem nunca foi verdadeiramente desafiado. A versão testada pelo ECO custa 93.037 euros na configuração Ultra com todas as opções. Não é para toda a gente, mas também não pretende ser.

Entrar no ES90 é perceber de imediato porque razão a Volvo escolheu um museu de arte moderna em Estocolmo para apresentar este carro ao mundo. O interior é, por si só, um argumento de compra sério em que salta à vista os estofos em mistura de lã em antracite, madeira de bétula certificada e um cuidado nos detalhes que raramente se encontra a este preço.

O teto panorâmico eletrocrómico transforma o habitáculo numa sala com janela para o céu, e o espaço traseiro é tão generoso que os pequenos, por uma vez, viajaram sem se queixar de falta de espaço para as pernas — feito que merecia, sozinho, meia coluna de análise. E os bancos dianteiros com função de massagem tratam a coluna com uma dedicação quase clínica.

A suspensão pneumática ativa faz o resto: nas estradas irregulares da costa da Arrábida, o ES90 desliza sobre o alcatrão com uma serenidade que faz questionar se o piso é assim tão mau ou se o carro simplesmente se recusa a admiti-lo.

O ES90 é o tipo de carro que faz bem ao humor de quem conduz e ao silêncio de quem vai atrás, que chega ao destino sem drama e parte de regresso sem ansiedade.

Na estrada, impõe-se um silêncio quase conspirativo. Os 333 cavalos do motor traseiro estão sempre disponíveis, com uma linearidade que não surpreende mas nunca desaponta, e a autonomia declarada de até 634 quilómetros significa que a viagem de Lisboa ao Cabo Espichel e de volta nem sequer levanta o dedo.

Há um prazer genuíno em conduzir um carro que não exige nada ao condutor; nenhuma ansiedade de autonomia, nenhuma vibração de motor, nenhum ruído intruso. A direção é deliberadamente leve, cúmplice da filosofia do carro: chegar sem esforço aparente, como se a viagem não tivesse custado nada a ninguém.

Há detalhes num carro que não constam em nenhuma ficha técnica mas que ficam na memória muito depois de devolver as chaves. O sistema de som Bowers & Wilkins com 25 altifalantes é, objetivamente, muito bom. Num habitáculo já silencioso por natureza, o resultado é uma qualidade sonora que poucos carros a qualquer preço conseguem igualar e que carregam um pormenor de estético e ao mesmo tempo útil, como é o caso da barra translúcida iluminada que a Volvo instalou por baixo do painel de bordo, exclusivamente para regular o volume.

Num carro onde quase tudo migrou para o ecrã central de 14,5 polegadas, este elemento físico e analógico destaca-se precisamente por ser diferente: desliza-se o dedo, o volume responde, e o gesto tem uma naturalidade que contrasta, de forma bem-vinda, com a lógica de menus que governa o resto do cockpit. É o género de decisão de design que demonstra que a Volvo ainda pensa nos detalhes antes de os cortar a favor da minimalismo.

A lógica de menus não é apenas um pormenor de design, é, no dia-a-dia, a crítica mais recorrente ao ES90. Ajustar os retrovisores, inclinar o volante, controlar os vidros traseiros, são gestos simples que, neste carro, pedem atenção ao ecrã numa altura em que a atenção devia estar na estrada. Para uma marca que construiu a sua identidade em torno da segurança há aqui uma tensão que não passa despercebida.

A visibilidade traseira também não ajuda: a janela de trás é generosa em design, mas estreita na prática. E o porta-bagagens, para um carro de cinco metros, entrega menos do que o tamanho promete — quem planeia partir com mala grande, mala pequena e a mochila dos miúdos vai ter de tomar decisões difíceis antes de fechar a tampa.

Ainda assim, o ES90 sai desta viagem com a reputação intacta e, em vários momentos, reforçada. É o tipo de carro que faz bem ao humor de quem conduz e ao silêncio de quem vai atrás, que chega ao destino sem drama e parte de regresso sem ansiedade.

A 93 mil euros, ninguém compra um carro assim por impulso. É o tipo de decisão que se toma depois de perceber que o conforto, quando feito com seriedade, justifica o preço da fatura. O Cabo Espichel é o fim do mundo, dizem. O ES90 foi lá e voltou como se fosse uma ida ao supermercado. Essa, talvez, seja a melhor forma de o descrever.

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