Energia. Agências de rating veem Portugal bem posicionado para responder a choque, mas há riscos

Fitch, S&P e DBRS destacam desempenho da economia portuguesa e das finanças públicas. Impacto da crise chegará sobretudo através da inflação, mas há mais riscos se conflito no Irão se prolongar.

ECO Fast
  • A economia portuguesa demonstra resiliência perante a escalada geopolítica no Golfo, mas enfrenta vulnerabilidades se a crise energética se prolongar.
  • As agências de rating, como Fitch, DBRS e S&P, destacam que o aumento dos preços da energia terá impacto na inflação, o poder de compra das famílias e dos custos para as empresas.
  • Um prolongamento do conflito no Médio Oriente pode levar a um défice orçamental em 2026, aumentando a pressão sobre as finanças públicas e o crescimento económico.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A resiliência da economia portuguesa e a posição orçamental permite ao país enfrentar o impacto escalada geopolítica no Golfo com uma posição de alguma folga, ainda que vulnerável face a um eventual prolongamento da crise energética. É desta forma que as principais agências de rating olham para o país, salientando que o risco não reside tanto no imediato, mas na eventualidade do choque se tornar persistente, transformando o abrandamento controlado numa deterioração mais estrutural.

Sem surpresas, três das quatro principais agências de ‘rating’ — Fitch, S&P, DBRS — apontam para o mesmo mecanismo de transmissão da guerra no Irão à economia portuguesa: o choque nos preços do combustível. Segundo os analistas, será sobretudo através desta vertente que se farão sentir os efeitos diretos sobre a inflação, o rendimento das famílias e os custos para as empresas.

“Na perspetiva da Fitch, o principal canal de transmissão das tensões geopolíticas para Portugal faz-se através do aumento dos preços da energia. Estes estão a impulsionar a inflação, a reduzir o poder de compra das famílias e a pesar sobre o crescimento. Sendo um importador líquido de energia, Portugal enfrenta também alguma pressão sobre a balança corrente, à medida que a fatura das importações energéticas aumenta“, considera Uktu Geyikci, analista da Fitch em declarações ao ECO.

Na perspetiva da Fitch, o principal canal de transmissão das tensões geopolíticas para Portugal faz-se através do aumento dos preços da energia. Estes estão a impulsionar a inflação, a reduzir o poder de compra das famílias e a pesar sobre o crescimento.

Uktu Geyikci

Analista da Fitch

Ainda assim, realça o analista, “Portugal encontra-se relativamente bem posicionado para gerir estas pressões”, uma vez que o mix energético do país, caracterizado por uma elevada e crescente quota de produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, “ajuda a mitigar a transmissão dos choques dos preços internacionais da energia para os preços internos, embora Portugal continue exposto a custos mais elevados dos combustíveis importados”.

Uma posição semelhante à da S&P que explica que o impacto económico do atual choque dos preços da energia e das perturbações no comércio depende da duração e da intensidade do conflito no Médio Oriente. “Assumimos atualmente um conflito de curta duração, embora com perturbações persistentes, o que está a conduzir a um aumento da inflação em Portugal, que sobe para 2,7% em março de 2026, face a 1,9% em janeiro, e deverá reduzir o consumo privado“, aponta Adrienne Benassy, analista principal para Portugal da S&P Global Ratings, em declarações ao ECO.

Ao mesmo tempo, o aumento dos custos de importação de energia, indica a analista da S&P, deverá “prejudicar o crescimento económico, mas o impacto deverá manter-se contido devido à menor intensidade energética de Portugal em comparação com os pares da Zona Euro”, devido à economia assente nos serviços, apesar da dependência do petróleo”.

Assumimos atualmente um conflito de curta duração, embora com perturbações persistentes, o que está a conduzir a um aumento da inflação em Portugal, que sobe para 2,7% em março de 2026, face a 1,9% em janeiro, e deverá reduzir o consumo privado.

Adrienne Benassy

Analista da S&P

Contudo, alerta que “um conflito prolongado, com escalada dos preços da energia e perturbações comerciais, agravaria significativamente estas pressões económicas”.

Por seu lado, em declarações ao ECO, Javier Rouillet, analista da DBRS, prevê que o crescimento económico de Portugal se irá manter “sólido este ano”, voltando a superar o da Zona Euro. “As perspetivas económica e orçamental de Portugal mantêm-se sólidas, apesar de um contexto externo difícil e incerto, dominado por tensões geopolíticas e comerciais”, salienta.

No entanto, destaca que “a incerteza continua elevada e o atual contexto geopolítico — em particular os desenvolvimentos relacionados com o conflito no Médio Oriente — deverá pesar sobre as perspetivas“.

“O principal canal de transmissão são os preços mais elevados da energia para famílias e empresas. Custos energéticos elevados poderão alimentar a inflação, reduzir o poder de compra, abrandar o consumo e comprimir a rentabilidade das empresas”, elenca, identificando efeitos de segunda ordem como uma procura global mais fraca, menor confiança e condições financeiras mais restritivas caso o conflito se prolongue, transformando-se num ‘cocktail’ que pode conduzir a um maior abrandamento da economia.

O principal canal de transmissão são os preços mais elevados da energia para famílias e empresas. Custos energéticos elevados poderão alimentar a inflação, reduzir o poder de compra, abrandar o consumo e comprimir a rentabilidade das empresas.

Javier Rouillet

Analista da DBRS

Ainda assim, sublinha que “a dimensão de qualquer impacto dependerá da gravidade e da duração do conflito, que continuam a ser altamente incertas”.

Um cenário que encontra respaldo também nas estimativas da Moody’s. Numa nota de research, a agência, coloca Portugal num grupo intermédio em termos de impacto no crescimento, longe dos casos mais expostos, como Itália ou economias da Europa de Leste, onde admite mesmo cenários de recessão.

Contas públicas: de excedente a ligeiro défice

O ponto de maior convergência entre as agências e que sustenta o tom relativamente benigno das avaliações passa também pela posição de partida do ponto de vista orçamental, destacando-se o excedente orçamental de 0,7% do PIB em 2025 e o rácio da dívida pública abaixo de 90% do PIB, em trajetória descendente.

Neste sentido, as agências assumem que este enquadramento permite ao país absorver choques temporários sem comprometer a credibilidade orçamental, embora convirjam na leitura de uma deterioração do saldo, que passará, nas suas óticas, de excedentário a défice este ano.

Um agravamento adicional do conflito no Médio Oriente poderá empurrar Portugal para um défice orçamental em 2026“, estima Javier Rouillet, da DBRS, considerando que “este risco aumentaria se o Governo fosse forçado a reforçar o apoio a famílias e empresas num momento em que o enfraquecimento da atividade económica limita as receitas fiscais”.

“Um agravamento adicional do conflito no Médio Oriente poderá empurrar Portugal para um défice orçamental em 2026.

Javier Rouillet

Analista da DBRS

No entanto, o analista considera que, até ao momento, porém, a resposta à crise tem-se limitado a medidas direcionadas e temporárias.

Mesmo antes do conflito no Médio Oriente, manter excedentes orçamentais estava a tornar-se mais difícil, à medida que as pressões sobre a despesa aumentavam e os cortes de impostos pesavam sobre as receitas. A longo prazo, o envelhecimento da população e o aumento da despesa com defesa deverão continuar a exercer pressão persistente sobre as finanças públicas”, adverte.

Ainda assim, destaca que Portugal entra neste período com uma posição sólida. “A estimativa preliminar para o saldo orçamental de 2025 aponta para um excedente de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB), superior ao inicialmente previsto pelo Governo, pelo Banco de Portugal e pela Comissão Europeia. Em conjugação com uma dinâmica favorável da dívida, este ponto de partida sólido ajuda a amortecer o impacto de uma deterioração moderada das finanças públicas”, assinala.

Portugal entrou em 2026 a partir de uma posição sólida. O excedente orçamental de 0,7% do PIB em 2025 foi superior ao esperado pela Fitch, o que dá ao Governo alguma margem adicional para absorver estes choques sem uma deterioração acentuada da posição orçamental.

Uktu Geyikci

Analista da Fitch

Por sua vez, a Fitch já antecipava um défice em 2026, antes mesmo da crise, devido a choques internos como as tempestades no início do ano. O novo contexto energético aumenta esse risco, sobretudo se forem prolongadas medidas de apoio aos combustíveis.

Portugal entrou em 2026 a partir de uma posição sólida. O excedente orçamental de 0,7% do PIB em 2025 foi superior ao esperado pela Fitch, o que dá ao Governo alguma margem adicional para absorver estes choques sem uma deterioração acentuada da posição orçamental“, destaca Uktu Geyikci.

O analista sublinha que “o risco de défice em 2026 aumentou, mas deverá manter-se moderado, em vez de sinalizar um enfraquecimento significativo das finanças públicas”, ao mesmo tempo que “a dívida pública portuguesa deverá também continuar numa trajetória descendente”.

A S&P traça um cenário semelhante. “A resposta orçamental de Portugal ao choque atual mantém-se limitada, incluindo um plano de contingência para plafonamento dos preços da eletricidade e restrições ao consumo, bem como subsídios temporários aos combustíveis, em linha com a tradição do país de medidas direcionadas e temporárias“, destaca Adrienne Benassy.

A resposta orçamental de Portugal ao choque atual mantém-se limitada, incluindo um plano de contingência para plafonamento dos preços da eletricidade e restrições ao consumo, bem como subsídios temporários aos combustíveis, em linha com a tradição do país de medidas direcionadas e temporárias”, destaca Adrienne Benassy.

Adrienne Benassy

Analista da S&P

No entanto, a analista enfatiza uma deterioração simultânea de receitas e aumento de despesa. “O principal impacto deverá resultar da redução das receitas públicas, caso o crescimento do PIB abrande, e do aumento da despesa, compensando o efeito da inflação mais elevada. Embora uma transição temporária para défice orçamental seja possível, esperamos que as autoridades continuem, no médio prazo, focadas na redução da dívida pública”, antevê.

No plano orçamental, a Moody’s reforça a ideia já avançada pelas restantes agências. Numa nota de research, na qual analisa os países europeus, a agência estima que, no seu conjunto, a dívida pública aumente cerca de um ponto percentual adicional até 2027 devido à combinação de um menor crescimento e dos estabilizadores automáticos.

Assim, apesar das perspetivas não serem para já desfavoráveis há riscos. “O principal risco é o de as tensões geopolíticas se prolongarem mais do que o esperado, mantendo os preços da energia elevados e obrigando o Governo a manter as medidas de apoio por mais tempo. Isto acrescentaria pressão tanto ao crescimento como às finanças públicas“, destaca Uktu Geyikci.

O analista da Fitch explica que “uma procura mais fraca na Europa e condições financeiras globais mais restritivas constituem também riscos, especialmente para as exportações e o investimento”, além de que “a incerteza em torno do custo orçamental das tempestades ainda não foi resolvida”.

“Ainda assim, o recente desempenho orçamental acima do esperado e a redução da dívida pública proporcionam alguma almofada face a estes riscos”, realça.

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