José Borralho: “Para a maioria das pessoas, dá muito mais medo ter sucesso do que fracassar”
É o criador da Escolha do Consumidor e foi líder da marca Produto do Ano. Recentemente, José Borralho lançou o seu primeiro livro, que fala sobre o medo, e onde partilha a sua história.
José Borralho, empresário e empreendedor, é o 76º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Considera-se um “provocador” e garante que sempre teve um papel disruptivo durante a sua vida, resultado de momentos de insatisfação que o levavam a um limite e que o obrigavam a mudar. No seu livro “Medo – Como Transformar as Ameaças em Forças”, o empresário explica como estes limites são decisivos para ganhar coragem e fazer diferente.
“Eu sou uma pessoa que, na vida adulta, sempre fui entendido como o tipo que leva tudo à frente, sem medo. Mas eu aprendi a falar com o medo. Ele é uma antecipação emocional de algo que ainda não aconteceu, mas que o teu cérebro já te está a dizer que vai doer. E isso faz com que olhes para o futuro e queiras, por exemplo, criar um negócio, mas já pensas que não tens recursos por causa dos medos“, começou por dizer.
Para José Borralho, estes medos surgem principalmente pelo comodismo que trabalhar por conta de outrem traz: “Eu sempre disse que ser empregado é muito bom porque é cómodo. Chegas ao fim do dia de trabalho, vais para casa e sabes que no fim do mês recebes o salário certinho. Mas quando tu és empresário tens de te preocupar com os impostos, com os ordenados, saber onde estão os clientes e o que é preciso fazer para o negócio se desenvolver. E isso provoca muito medo às pessoas“.
“Dizem as estatísticas que 95% das pessoas esperam para ver e só depois fazem acontecer. Os outros 5% são os loucos que veem o mundo de outra e fazem logo a mudança. E eu sinto-me completamente nos 5%“, continuou, ao mesmo tempo que começou a partilhar o “percurso doido” que fez: “Eu estudei contabilidade e gestão, a nível profissional. Não queria de todo ir para a universidade, mas depois apareceram os primeiros cursos de marketing e eu pensei que era capaz de ser giro porque gosto de publicidade, então tirei marketing no IPAM“.
Depois de tirar o curso, foi estagiar numa empresa alemã, que rapidamente o contratou, mas ao fim de algum tempo estava a receber propostas da Caixa Geral de Depósitos, do Grupo Espírito Santo, da Xerox e da Procter & Gamble. “Aí enfrentei um dos meus maiores medos porque eu sentia que não sabia vender e a carreira que me propuseram na P&G era começar nas vendas. Como pensei que estaria tramado, decidi ir para a Torralta, onde me disseram que não tinham dinheiro para marketing e, por vezes, nem para ordenados. E a verdade é que eu estive lá seis meses sem receber. Só que, em contrapartida, isso deu-me a capacidade de perceber que eu podia continuar a fazer as coisas sem dinheiro”, contou.
Esse ensinamento foi valioso para o resto da sua carreira, que ainda passou por uma agência de relações públicas, da qual era sócio maioritário. Durante esse percurso percebeu que, afinal, era um “grande comercial” porque vendia coisas intangíveis: “Eu vendi relações públicas, que acaba por ser uma promessa que fazes a alguém, na qual lhe dizes que se ela sair na televisão, nas rádios ou nos jornais, isso vai aumentar-lhe a reputação e, provavelmente, o negócio. A seguir, meti-me nos sistemas de avaliação – sabor do ano, produto do ano – e aqui a expectativa era de que, ao ganhar um prémio eleito pelos consumidores, isso iria ajudar a aumentar vendas. Portanto, quando dei por mim, pensei que afinal era um bom vendedor e um grande comercial“.
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José Borralho, empresário e empreendedor, no 76º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
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Mas, além de bom vendedor, José Borralho foi também líder e garante que a receita para se liderar bem passa por ter a “mente aberta”. “Quando és líder, tens de ser a pessoa mais aberta em termos de mente na organização. Mas isso não acontece muito em Portugal porque continuamos, por questões culturais, a ter muitos líderes que têm vergonha de ir pedir opinião aos colaboradores ou equacionar um negócio conjuntamente porque foram educados naquela ideia de que o patrão é que tem de saber tudo e que quando o patrão não sabe, a organização está perdida”, disse.
Contrariar esta tendência pode ser um fator decisivo para o sucesso das organizações e o empresário deu até um exemplo para elucidar esta realidade: “Ainda recentemente fiz uma intervenção estratégica na empresa de um amigo onde havia precisamente essa filosofia. Comecei por fazer um diagnóstico sem o líder da empresa e isto foi um choque para os colaboradores porque lhes foi dada a abertura para falarem bem e mal da organização. Por sua vez, o líder não acreditava no relatório, mas eu disse-lhe que se as pessoas estavam a dizer aquilo era porque realmente acontecia. Então, ele teve de mudar a sua mentalidade. E a verdade é que há duas semanas fizemos a reunião de seis meses e as pessoas já dizem que têm uma autonomia com responsabilidade porque agora é-lhes pedido que tomem decisões. A mentalidade passou de ´o patrão é que sabe´, para ´nós agora sabemos´“.
Oferecer autonomia aos colaboradores e estar aberto a receber conhecimento deles é, por isso, fundamental para o bom funcionamento da empresa e para a sua evolução. E, nesse sentido, José Borralho acrescenta: “Eu costumo dizer que a perfeição esconde o medo da insuficiência e do julgamento. Eu prefiro chamar a atenção [dos funcionários] por decisão do que por omissão porque, no segundo caso, tiveram a coragem de tomar uma decisão e é para isso que lhes pago“.
O problema, alerta, é que ainda há muito medo de errar, também por parte dos colaboradores. E isso leva a que as pessoas se mantenham nessa “bolha” e nem tentem fazer diferente, muito pela cultura de sucesso que se vive na sociedade. “É muito mais fácil receberes carinho porque não consegues lá chegar do que seres admirado por seres brilhante. Há dificuldade em aceitar as pessoas bem-sucedidas. Mas é quando tu não tens uma bolha que cresces“, afirmou.
“A verdade é que nem todos temos a capacidade para ser empresários e isto leva-nos ao ponto que eu considero fulcral, que é quando te questionas se te dá mais medo fracassar ou ter sucesso. E eu acho que, para a maioria das pessoas, dá muito mais medo ter sucesso do que fracassar porque o fracasso elas já conhecem e isto acaba por ser o tal comodismo. Mas o sucesso obriga a mudar de identidade. É preciso deixar de ser a pessoa que sempre se foi para ser outra, com mais responsabilidade, com uma nova perspetiva, uma visão diferente“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.
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