Exclusivo Sócio do Japão reduz participação na CaetanoBus. National Express cancela 60% das encomendas
Mitsui decide não acompanhar aumento de capital de 15 milhões, baixando quota na CaetanoBus para 19,7%. Novo despedimento coletivo em Gaia após britânica National Express cancelar 60% das encomendas.
- A CaetanoBus avançou com um aumento de capital de 15 milhões de euros para investir no segmento dos aeroportos e na mobilidade urbana, após acentuar as perdas nos autocarros de turismo.
- A participação do Mitsui Group na empresa caiu para 19,7%, enquanto a Toyota Caetano Portugal reforçou a participação e a Fundação Salvador Caetano entrou como acionista.
- A empresa enfrenta um despedimento coletivo de 88 trabalhadores devido à perda de um contrato significativo com a britânica National Express, que afetou a sua capacidade produtiva e recuperação financeira.
A CaetanoBus avançou nas últimas semanas com um novo aumento de capital de 15 milhões de euros para “continuar a investir no segmento de aeroportos e na mobilidade urbana”, nos quais está a reposicionar o negócio na sequência das perdas nos autocarros de turismo. No entanto, segundo a documentação consultada pelo ECO, ao contrário do que aconteceu noutras ocasiões nos últimos anos, desta vez o Mitsui Group não acompanhou a operação, que apenas foi subscrita pela casa-mãe Toyota Caetano Portugal (TCP) e pela Fundação Salvador Caetano, que desta forma entrou como acionista da empresa de autocarros do grupo.
Questionada pelo ECO, a fabricante de carroçarias e autocarros indicou apenas que se trata de “uma decisão do próprio acionista Mitsui & Co, tomada em alinhamento com o acionista maioritário”. No passado recente, a empresa de Vila Nova de Gaia descrevera as injeções de dinheiro por parte do conglomerado com sede em Tóquio como um “reforço do seu compromisso com a continuidade da empresa” do grupo Salvador Caetano.
Na sequência desta operação destinada a “suportar esses investimentos [no segmento de aeroportos e na mobilidade urbana], nomeadamente em inovação e no alargamento do portefólio de produtos e serviços nestes setores”, os japoneses reduziram para 19,7% a participação que no final de 2024 rondava os 38%, segundo dados oficiais. A composição acionista fica agora completa com a TCP (61,94%) e com a fundação (18,37%) criada em 1981 como instituição sem fins lucrativos.
A CaetanoBus continua a investir no segmento de aeroportos e na mobilidade urbana. (…) Trata-se de uma decisão do próprio acionista Mitsui & Co, tomada em alinhamento com o acionista maioritário [Toyota Caetano Portugal].
Fundada em 2002 através de uma parceria com a Daimler-Chrysler – o grupo português ficou com 100% do negócio em 2010, quando adquiriu a quota de 26% aos alemães –, a empresa que fez uma aliança com a gigante chinesa CRRC para fabricar autocarros urbanos viu a Mitsui entrar em 2017 através da compra de uma participação inicial de 15%, que depois reforçou. Entre 2021 e 2024 tinha acompanhado proporcionalmente a TCP em várias injeções que totalizaram 45 milhões de euros.
No mesmo dia em que avançou com esta operação que reduziu a participação japonesa e implicou a entrada de um novo acionista, para “cobertura de prejuízos acumulados”, a empresa reduziu antes o respetivo capital social e utilizou ainda os 20 milhões de prestações suplementares que tinham sido entregues em 2023 pela TCP (12,4 milhões) e pela Mitsui (7,6 milhões).
No exercício de 2025, a CaetanoBus voltou a registar prejuízos de 13,8 milhões de euros, com o volume de negócios a baixar 12% para 118,3 milhões — o número de unidades vendidas caiu de 371 em 2024 para 365 no ano passado. Segundo o relatório e contas anual, o EBITDA consolidado situou-se em -2,7 milhões, “penalizado sobretudo pela quebra no turismo e pelo menor contributo do segmento urbano de produção interna”.
Despedimento após britânica National Express cancelar 60% das encomendas
Esta reconfiguração acionista acontece num momento em que a CaetanoBus está a avançar com um novo despedimento coletivo de 88 trabalhadores em Gaia. Deverá ficar concluído em junho, irá reduzir o número de trabalhadores para perto de 500 e foi justificado com a perda de um contrato com impacto negativo de 20 milhões de euros no volume de negócios da empresa que forneceu os veículos para o metrobus da Boavista, no Porto.
“A CaetanoBus registou uma quebra significativa de encomendas de um cliente no segmento de autocarros de turismo. (…) Esta redução teve um impacto negativo relevante, o que nos obrigou a ajustar a capacidade produtiva instalada e a avançar com um processo de despedimento coletivo”, refere ao ECO a empresa liderada por Patrícia Vasconcelos, que tem subsidiárias no Reino Unido (Caetano UK) e na Alemanha (Cobus, especializada em autocarros de aeroporto, com 204 unidades em 2025).
A empresa nortenha alegou “razões contratuais” para não identificar a identidade do cliente, mas na informação entretanto partilhada com os investidores, consultada pelo ECO, a Toyota Caetano Portugal acaba por revelar que foi a britânica National Express que cancelou 60% das encomendas, a partir de outubro de 2025, levando à interrupção da produção nesta linha, que em outubro de 2024 já tinha sido afetada por um incêndio, e obrigando a esta nova reestruturação interna.

Numa primeira reação a este despedimento coletivo, depois de no ano passado já ter concretizado outro que afetou mais de 40 funcionários, a CaetanoBus, que há poucas semanas entregou mais 20 autocarros elétricos à STCP, sublinhou que “os resultados positivos começavam a sentir-se, ainda que de maneira ténue”. Esses indicadores de recuperação, detalha agora sem contabilizar, “estavam sobretudo associados à retoma gradual da produção e à melhoria progressiva dos resultados operacionais”.
“A quebra de encomendas – com um impacto superior a 20 milhões de euros no volume de negócios – comprometeu de forma material essa trajetória, reduzindo a utilização da capacidade instalada”, relata ao ECO fonte oficial da CaetanoBus, acrescentando que “para salvaguardar o plano de recuperação em curso, tornou-se necessário ajustar a estrutura de custos, alinhando-a com o novo nível de atividade”.
No que toca às perspetivas para este ano, assinala no relatório e contas que a parceria com a chinesa CRRC “continuará a ser determinante para aumentar a competitividade tecnológica e industrial” da empresa. Na lista de desafios aponta “a forte pressão competitiva dos OEM (Original Equipment Manufacturer) asiáticos ou a incerteza na velocidade de adoção das soluções FCEV [elétricos a hidrogénio] na Europa”.
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