FMI vê inflação em Portugal disparar para 4,2% este ano caso guerra do Irão se prolongue
Instituição estima que, no pior dos casos, inflação em Portugal dispara para 5,7% em 2027 e crescimento reduz-se em termos acumulados em 1,4 pontos percentuais face ao cenário base.
- O Fundo Monetário Internacional prevê uma desaceleração acentuada do crescimento da economia portuguesa, com a inflação a disparar para 4,2% se a guerra no Irão se prolongar.
- A análise do FMI destaca que, apesar de um crescimento superior à média da Zona Euro, persistem desafios estruturais, como a elevada dívida pública e a qualidade de vida abaixo da média europeia.
- As recomendações do FMI incluem a necessidade de reformas para aumentar a produtividade e a eficiência da despesa pública, visando um crescimento sustentável e a redução da vulnerabilidade económica.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o crescimento da economia portuguesa desacelere fortemente e a inflação dispare para 4,2% este ano e 5,7% em 2027 num cenário em que a guerra no Irão se prolongue até 2027. A instituição liderada por Kristalina Georgieva alerta ainda para uma qualidade de vida abaixo da média europeia, dívida pública elevada e uma rápida subida dos preços das casas.
Numa análise à economia e finanças públicas portuguesas divulgada esta quarta-feira, no âmbito da visita de missão do FMI pós-programa da troika, os técnicos traçam um retrato para a evolução do crescimento económico, da inflação e do cenário orçamental perante três cenários: um base, um adverso e um severo.
No cenário base, tal como divulgado no início de abril, a instituição de Bretton Woods aponta para uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,9% este ano e de 1,8% no próximo ano, uma taxa de inflação de 3,1% em 2026 e de 2,7% em 2027 e um défice de 0,1% e 0,2%, respetivamente.
Agora, na análise pós-missão, explica que nas contas incorpora a travagem da economia no arranque do ano devido às fortes tempestades, mas também o impulso da atividade no resto do ano dos trabalhos de reconstrução e reparação, deixando o impacto anual globalmente neutro.
“No entanto, os efeitos indiretos negativos da guerra no Médio Oriente pesam sobre o crescimento e aumentam a inflação. O seu impacto no crescimento deverá ser mitigado por maiores entradas de fundos do Mecanismo de Recuperação e Resiliência (PRR) da União Europeia”, pode ler-se na comunicação.
Os efeitos indiretos negativos da guerra no Médio Oriente pesam sobre o crescimento e aumentam a inflação. O seu impacto no crescimento deverá ser mitigado por maiores entradas de fundos.
Na fotografia geral, apesar do aumento das importações impulsionado pelos preços elevados das matérias-primas, o FMI espera que “as contínuas e fortes receitas do turismo” sustentem um excedente da balança corrente no médio prazo.
Contudo, porque a instituição considera que estas previsões estão associadas a riscos significativos que poderão enfraquecer o crescimento e agravar ainda mais a inflação, apresentou também projeções para um cenário mais severo, em que a guerra se prolonga até 2027.
Aqui, o FMI vê a taxa de inflação a disparar para 4,2% este ano e 5,7% em 2027, mais 1,1 pontos percentuais e 2,7 pontos percentuais, respetivamente, do que no cenário base, enquanto “o crescimento do PIB poderá ser inferior ao do cenário de referência em termos acumulados em 1,4 pontos percentuais ao longo de 2026-27″.
Já num cenário adverso, em que a guerra se prolonga durante grande parte de 2026 e os preços do petróleo e do gás são assumidos em 100 dólares por barril e 24 dólares por MMBtu, respetivamente, os técnicos do FMI estimam que o crescimento poderá situar-se em 1,7% este ano e 1,6% em 2027 e a inflação 0,8 pontos percentuais superior ao cenário de referência.
“Além dos riscos relacionados com a guerra no Médio Oriente, a escassez de mão-de-obra no mercado interno, as alterações climáticas e o aumento das ameaças cibernéticas constituem importantes riscos estruturais. Acresce que as pressões salariais decorrentes da rigidez do mercado de trabalho poderão conduzir a uma inflação mais elevada e persistente“, dá nota a instituição.
Os desafios estruturais e os riscos
Embora destaque um crescimento em Portugal superior à Zona Euro, um excedente orçamental e uma “impressionante trajetória de redução” da dívida pública, o FMI alerta que persistem “desafios estruturais”.
Entre estes identifica a qualidade de vida “bastante abaixo da média da União Europeia”, os níveis de dívida pública ainda elevados e “a rápida subida dos preços da habitação” que pesa “fortemente sobre” as famílias, ao mesmo tempo que “cria riscos” para o setor financeiro.
Ademais, advertem, existem “riscos significativos”, sobretudo decorrentes do contexto externo turbulento, que tornam as perspetivas mais cinzentas e podem “travar o crescimento” e pressionar ainda mais a inflação em alta. “Neste contexto de elevada incerteza, as políticas económicas devem continuar a reforçar a resiliência da economia, promovendo simultaneamente um crescimento mais elevado”, considera.
Para o FMI, para o futuro, a política orçamental “deve dar prioridade” à continuação da redução da dívida pública, de forma a reconstruir margem para responder a eventuais choques e reduzir a vulnerabilidade à volatilidade dos mercados, ao mesmo tempo que aumenta o investimento público favorável ao crescimento.
“Isto exige a redução da despesa corrente e das isenções fiscais, o aumento da eficiência da despesa pública e a resposta às pressões relacionadas com o envelhecimento sobre o sistema de pensões e os cuidados de saúde“, aponta.
FMI alerta para qualidade de vida “bastante abaixo da média da União Europeia”, os níveis de dívida pública ainda elevados e “a rápida subida dos preços da habitação” que pesa “fortemente sobre” as famílias, ao mesmo tempo que “cria riscos” para o setor financeiro.
“O reforço adicional do enquadramento das políticas financeiras, em linha com as recomendações do FSAP, ajudará a preservar a estabilidade. A redução dos desequilíbrios no mercado imobiliário e a melhoria da acessibilidade da habitação exigem sobretudo a eliminação dos estrangulamentos na oferta habitacional”, recomenda.
Segundo os técnicos, são ainda necessárias medidas para promover a inovação e o crescimento das empresas, simplificar a burocracia, reforçar o investimento nas competências da população, melhorar o acesso das PME ao financiamento e combater a dualidade do mercado de trabalho, de modo a apoiar um maior crescimento potencial e melhores condições de vida.
“São necessárias reformas para impulsionar o crescimento da produtividade – a chave para aproximar os níveis de vida em Portugal dos dos seus pares da Zona Euro. O fraco crescimento da produtividade em Portugal reflete um investimento insuficiente, tanto em capital humano como físico, agravado por um ambiente empresarial limitador”, argumenta.
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