O “faroeste” das plataformas e o impasse do Mundial: o Estado da Nação dos Media em 2026

Rafael Correia,

À margem do evento, Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital, revelou que os três canais pediram uma posição da ERC em relação aos direitos televisivos do Mundial.

Como é tradição, o Estado da Nação dos Media voltou a ter palco no congresso da APDC com as ameaças das grandes tecnológicas, como o YouTube e a OpenAI, a dominarem o debate. Num painel que reuniu os líderes da RTP, Impresa e Media Capital, a falta de regulação das plataformas globais e os direitos de transmissão desportivos estiveram no centro das preocupações.

O tema do YouTube e das grandes plataformas foi transversal a todas as intervenções. Para Nicolau Santos, presidente da RTP, o atual cenário de concorrência na comunicação social é “um autêntico faroeste”.As grandes plataformas produzem os conteúdos que querem e como querem, quando nós estamos sujeitos a regras muito apertadas. É fundamental que todos os operadores e autoridades de concorrência a nível europeu se entendam em relação a isto. Estamos a ser espoliados. Os pequenos cumprem as regras todas e os grandes fazem o que lhes apetece”, declarou.

O líder da estação pública alertou ainda que estas plataformas “entram em todas as áreas porque podem pagar e têm muito mais meios”, dando “cabo dos negócios de media locais”. Para ilustrar a rigidez do setor tradicional face ao digital, Nicolau Santos deu o exemplo da produção independente. “No setor público temos de cumprir determinadas metas do contrato de concessão, como a produção independente nacional. E de repente, surgem as micro-séries apenas para os telemóveis. Fizemos sete, com sucesso e não contam para o nosso apoio porque não está na legislação”, notou, acrescentando que obtiveram 17 milhões de visualizações até ao momento.

Francisco Pedro Balsemão, CEO da Impresa, partilha da mesma visão, apontando baterias à entrada da LiveMode, através do Youtube, no mercado do desporto, que considera ser “um piloto para aquilo que vai acontecer no resto da Europa”.

O gestor notou ainda as profundas desigualdades a nível de publicidade e exigências horárias. “Eles podem fazer aquilo que querem, nós não podemos fazer nem um décimo. (…) Temos de repensar e redefinir o que é a intervenção regulatória, do Estado e das instituições europeias. Há uma necessidade premente de corrigir as assimetrias regulatórias. Se não o fizermos rapidamente, as consequências podem ser muito complicadas”, alertou.

Francisco Pedro Balsemão, CEO da ImpresaAPDC

O impasse dos direitos do Mundial de Futebol

À margem do congresso da APDC, Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital, abordou os direitos televisivos do Mundial de Futebol. “A TVI, a RTP e a SIC, cada um por si, mas também em paralelo, pedimos à ERC para se pronunciar sobre qual era o valor justo”, revelou o responsável, após propostas conjuntas apresentadas à FIFA há mais de um ano não terem viabilizado o negócio.

A FIFA vendeu os direitos à Sport TV e, portanto, mesmo a ERC não tendo autoridade sobre a FIFA, tem autoridade sobre a Sport TV. Qualquer jogo transmitido em canal fechado para a Sport TV, a ERC tem capacidade de dizer que o jogo também pode ser transmitido em sinal aberto“, explicou. Com o início do torneio a escassas cinco semanas, Pedro Morais Leitão espera uma decisão da entidade reguladora até à próxima semana.

Caso as estações em sinal aberto fiquem de fora, o CEO da Media Capital não tem dúvidas. “Claramente vai haver publicidade a ser transferida da televisão aberta para o YouTube”. Ainda assim, garante que a equação financeira tem de fazer sentido. “A relação entre custos e receitas só será boa se aceitarem a proposta que fizemos. Se não aceitarem, vamos perder dinheiro e para perder dinheiro preferimos não transmitir“, diz. Apesar do impasse, a cobertura jornalística do evento está garantida pelas equipas destacadas, não descartando a hipótese de replicar modelos alternativos de relato áudio por cima de transmissões digitais gratuitas.

Pedro Morais Leitão, CEO da Media CapitalAPDC

O efeito da tensão geopolítica ainda não se sente

Refletindo sobre o primeiro trimestre, quer a Media Capital quer a RTP notam que o abrandamento económico e a crise geopolítica ainda não tiveram repercussões no mercado publicitário, mas a cautela impera.

O mercado da publicidade é um aviso, porque é o primeiro a morrer com a crise económica. E a verdade é que nestes primeiros meses ainda não se sentiu. Temos esperança de que a crise possa não acontecer. Mas o nosso plano de contingência tem vindo a ser construído ao longo dos anos. Temo-nos preparado para futuros incertos”, destacou Pedro Morais Leitão.

Da parte da RTP, Nicolau Santos admitiu que existem “problemas cada vez maiores de sustentabilidade”. “Apesar da publicidade ter sido razoável este ano, se houver uma crise mundial, não vamos escapar. As regras de regulação têm de se aplicar a todos”, reflete.

A tensão no painel não se limitou às gigantes tecnológicas. Num recado direto ao mercado nacional, o presidente da RTP não poupou críticas ao responsável pelo atual sistema de medição de audiências televisivas (a cargo da GfK), sugerindo a existência de um claro conflito de interesses. “Se a presidente da ERC fosse comentadora de um dos canais de televisão, achávamos bem? Não. Mas o principal medidor das audiências em Portugal é colaborador de um canal de televisão“, destacou.

“Não quero dizer que as audiências não sejam bem medidas, mas não fica bem seguramente, do ponto de vista ético, que esta situação exista no mercado português, ponto, final, parágrafo”, concluiu.

Do lado da Impresa, Francisco Pedro Balsemão salientou que o projeto de reestruturação de custos está a surtir efeitos, sublinhando a importância estratégica do novo parceiro no capital do grupo.A entrada de um parceiro de referência ajuda perante o que é a nossa situação financeira (…) Mas o nosso ADN não vai mudar, porque o nosso parceiro é do setor e tem como estratégia procurar captar sinergias na base das receitas e da tecnologia, com prioridade para os conteúdos locais. Não há qualquer interferência.”

O debate não encerrou sem um alerta para o futuro próximo, dominado pela Inteligência Artificial. Pedro Morais Leitão frisou que gigantes como a OpenAI, SpaceX e Anthropic se preparam para ter avaliações impensáveis e uma capacidade de investimento esmagadora. “Temos de continuar a fazer o nosso trabalho, perceber que somos muito pequenos neste jogo e tentar trabalhar em conjunto, sempre com uma reinvenção permanente”, concluiu.

Nicolau Santos, presidente da RTPAPDC

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O “faroeste” das plataformas e o impasse do Mundial: o Estado da Nação dos Media em 2026

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião