Porque é que faltam marcas portuguesas no Met Gala 2026?
Portugal teve um nome na Met Gala 2026 – Miguel Castro Freitas, na Mugler de Emma Chamberlain – mas voltou a não ter uma marca própria no centro da escadaria. Falta escala, diz quem trabalha o sector.

Um só nome português chegou à Met Gala na noite de segunda-feira: Miguel Castro Freitas, diretor criativo da Mugler, um dos nomes mais repetidos no evento graças ao vestido pintado à mão por Anna Deller Yee para a criadora de conteúdos Emma Chamberlain. Se a presença é notada em Portugal, deve também ser lida “com exigência”, como diz ao ECO Avenida a diretora do Portugal Fashion, Mónica Neto.
“Acho que a presença de um designer português no Met Gala deve ser lida com entusiasmo, mas também com exigência. Não basta ficarmos satisfeitos por haver um nome português associado a um vestido. A pergunta mais interessante é: como é que transformamos momentos excecionais em presença estrutural?”, questiona Mónica Neto, cuja missão, com o Portugal Fashion, tem sido, justamente, internacionalizar a moda portuguesa.
E não apenas na presença de um nome em concreto, mas de uma marca e, com uma marca, uma indústria, como acontece quando a Zara quebra barreiras e, vestindo Bad Bunny num evento de grande cobertura mediática (mais uma vez), encontra um lugar entre as marcas de alta costura como a já citada Mugler, Thom Browne e Prada (os que vestiram mais celebridades), Dior ou Schiaparelli. “O caminho que Portugal tem de fazer é o de investir em mais branding“, resume o presidente da ATP – Associação de Têxtil e Vestuário ao ECO Avenida.

“O Met Gala não é apenas uma passadeira vermelha. É um palco de poder cultural, mediático e económico. Junta moda, museu, celebridade, filantropia, imprensa global e grandes casas internacionais. A própria polémica em torno da presença de Jeff Bezos e da Amazon nesta edição mostra que o Met Gala não é apenas glamour: é também poder económico, reputação, influência cultural e disputa simbólica. Por isso, ambicionar estar num palco desta escala implica perceber que a moda, ali, é muito mais do que roupa”, sublinha Mónica Neto.
E o que a diretora criativa do Portugal Fashion acredita é que o caso de Miguel Castro Freitas é mais do que o de “um português que vestiu alguém para o Met Gala”. “Estamos perante um criador português que chegou à direção criativa da Mugler e que, a partir desse lugar, assina um look custom para Emma Chamberlain. Isso mostra que o talento português pode chegar ao centro das estruturas internacionais de decisão, não apenas aparecer na periferia”, diz.
O evento realiza-se desde 1948, primeiro de forma fechada e, desde 1995, com celebridades e aspiração a chegar a todos os cantos do globo, graças a Anna Wintour. “Tanto quanto é possível confirmar publicamente, não há um registo anterior comparável, na área da roupa, envolvendo um designer português com esta dimensão mediática no Met Gala”, nota Mónica Neto.
“Mas mais importante do que discutir se é ou não uma “primeira vez” é perceber o que este momento revela: Portugal tem talento, indústria e saber fazer. O que ainda precisa é de transformar essa competência em desejo cultural global”.
E, acrescenta, nem só de Met Gala se fala. “Temos marcas portuguesas que têm participado em contextos internacionais relevantes e que começam a construir consistência nos lugares certos: nas principais semanas de moda, nas melhores lojas globais, junto de stylists, celebridades, equipas criativas e figuras com influência real sobre o imaginário contemporâneo”, diz Mónica Neto.
Os exemplos da presença de talento nacional em grandes palcos internacionais são mensuráveis. “Marques’Almeida, por exemplo, assinou looks personalizados para Beyoncé na Cowboy Carter Tour, e Ernest W. Baker tem desenvolvido trabalho à medida para Euphoria, uma das séries com maior impacto visual e cultural dos últimos anos. Além disso, há marcas portuguesas que já recebem pedidos para desenvolver peças especiais destinadas a celebridades e projetos de grande visibilidade”.
E remata: “Nem todos estes processos avançam, porque exigem tempos de criação, desenvolvimento e produção muito específicos, mas demonstram algo essencial: a moda portuguesa já começa a ser considerada por quem constrói imagem no centro da cultura pop internacional”.
“Durante demasiado tempo, fomos reconhecidos sobretudo como o país que produz bem para os outros. Esse reconhecimento é importante e resulta de uma indústria muito qualificada, mas o desafio agora é sermos também o país que assina, propõe, influencia e cria imaginário”, acredita.
“Para isso, precisamos de escala, comunicação internacional, presença regular nos principais mercados, relações com stylists, celebridades, editores e compradores, e uma narrativa clara sobre aquilo que a moda portuguesa representa hoje. Portugal pode, sim, almejar estar em eventos desta escala. Mas isso exige continuidade. O Met Gala é o topo visível de uma cadeia muito mais longa. Se queremos chegar lá mais vezes, temos de trabalhar essa cadeia, não apenas celebrar quando ela, por acaso, nos inclui”.

França, Itália, Inglaterra: uma longa tradição em indústria de relevo
Estatisticamente, é também preciso notar que além da espanhola Zara, os países mais representados em marcas e designers são os franceses, italianos, ingleses e norte-americanos.
E são desses países os grandes grupos de luxo como LVMH, Kering, Prada, como contextualiza Ricardo Silva, presidente da ATP – Associação de Têxtil e Vestuário, ao ECO Avenida: “Itália e França têm e tiveram sempre na Europa o maior número de marcas, especialmente de luxo. Inglaterra também tem, em menor número atualmente. Esse legado foi construído baseado principalmente em indústria de relevo e durante várias gerações, juntamente com um investimento forte em marcas e glamour pelo país e investimento das empresas”.
Ricardo Silva acrescenta outra mais-valia destes países europeus em relação a Portugal. “São mais centrais do que Portugal, o que criou uma influência maior no mercado europeu, desde sempre. Ou seja, o mercado interno e de proximidade é alto”. Em Portugal, pelo contrário, “o mercado interno é muito pequeno e de proximidade também, apenas Espanha”.
E, voltando ao início, e à pergunta de Mónica Neto (“Como é que transformamos momentos excecionais em presença estrutural?”), a resposta é criar marcas, segundo Ricardo Silva.
“Com mais marcas, há mais influência, haverá melhor branding, haverá mais designers e mais design de autor. Até lá, teremos alguns designers de extrema qualidade mas sem a escala que merecem e o país deveria ter”.
E resume: “O caminho que Portugal tem de fazer é o de investir em mais branding, de vários setores. Turismo tem tido um bom investimento. Vinhos estão a ganhar relevo por isso, assim como o têxtil industrial português”.

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