Vítor Bento aplaude venda do Novobanco, mas critica custos para o sistema

Presidente da Associação Portuguesa de Bancos considera que compra pelo BPCE é uma boa notícia, mas lamenta que o "buraco" do BES continue a onerar os bancos.

ECO Fast
  • A venda do Novobanco ao grupo francês BPCE por 6,7 mil milhões de euros é considerada um desfecho positivo, segundo Vítor Bento, presidente da APB.
  • O valor pago pelo Novobanco superou as expectativas iniciais, refletindo a capacidade concorrencial do sistema bancário português e a eficiência das instituições.
  • Apesar do sucesso da venda, persiste um encargo financeiro para os bancos, que continuam a suportar custos relacionados com a resolução do BES.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

“Tudo está bem quando acaba bem”. É desta forma que Vítor Bento, presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB) analisa a venda do Novobanco ao grupo francês BPCE, por um valor acima do estimado inicialmente. No entanto, salienta que há um problema do passado que continua por pagar, e isso fica por conta dos bancos portugueses.

“Tudo está bem quando acaba bem. Portanto, desse ponto de vista, acho que sim, o banco foi salvaguardado, a sua capacidade também. Foi sempre um banco com uma capacidade intrínseca de fazer banca muito boa, portanto, isso foi salvaguardado”, afirmou o responsável em declarações ao ECO. Ainda do lado positivo, prossegue: “tem agora um dono com estratégia, não é apenas um dono transitório que está a fazer, digamos, um processo de ajustamento. E diversifica a base acionista no que toca ao país, a origem geográfica, e acho que isso são elementos muito positivos“.

O capital do Novobanco foi oficialmente vendido na semana passada, com o BPCE a pagar 6,7 mil milhões de euros, cerca de 300 milhões acima do inicialmente estimado, devido à incorporação dos resultados muito positivos mais recentes. 75% desse valor foi para a norte-americana Lone Star, e os restantes 25% para o Estado e para o Fundo de Resolução, que também eram acionistas.

Vítor Bento considera ainda que o facto de o negócio se ter feito por um valor elevado diz respeito ao Novobanco, claro, mas tem também um efeito positivo em termos de perceção do que é, atualmente, a banca portuguesa.

“Eu acho que, obviamente, tem o valor do ativo por si, mas o valor do ativo também incorpora aquilo que é o sistema bancário português como ele é, de alguma forma”, sublinha. “A concorrência gera isso, que haja uma convergência para as melhores práticas, significa que tende a haver uma certa uniformização e mesmo quando há inovação, a inovação gera competição”.

O valor pago reflete “o desempenho do Novobanco, revela a capacidade concorrencial que as várias instituições têm, que cria um desafio sobre os outros, nomeadamente, o nível de eficiência que a banca portuguesa tem hoje em dia, medida nomeadamente pelo rácio cost-to-income, é um fator de inveja para muitas outras geografias e, portanto, admito que isso também suscite curiosidade sobre o nosso sistema e que isso também ajuda a valorizá-lo”.

Um fantasma chamado BES

E se o fim deste capítulo foi celebrado com grande efusividade, porque marca definitivamente o fim da transição e a passagem do herdeiro do BES para as mãos de um acionista de longo prazo e do setor, há um fantasma do passado que perdura no tempo, o valor que foi injetado no banco alvo de resolução.

O Estado e o Fundo de Resolução receberam cerca de dois mil milhões de euros com esta venda. Não foi divulgado, por qualquer das entidades, o acerto de contas entre este valor e o que foi injetado, mas esse valor será superior a seis mil milhões. Vítor Bento, que chegou a ser CEO do BES/Novobanco entre julho e setembro de 2014 (apanhando, por isso, em cheio, o momento da resolução, em agosto desse ano), evita voltar a esse momento, embora fique claro que a solução então encontrada poderá não ter sido a melhor, no seu entender.

“A forma como se processou o processo de resolução, propriamente dita, até à venda pelo Estado, aí as coisas são mais discutíveis, mas aí cada um tem a sua opinião e a minha não interessa agora para o caso”, afirma, questionado pelo ECO.

Sobre o encargo que ainda cai sobre o Fundo de Resolução, e que é pago pelos bancos, Vítor Bento defende que “essa é uma das partes injustas, não faz sentido nenhum, porque, no fundo, os bancos estão a pagar enquanto contribuintes“. “Porque quem assumiu o custo foi o Estado, só que o Estado – para fazer valer a narrativa que criou que isto não tinha custos para os contribuintes – fez sobrecarregar os custos nos contribuintes particulares que são os bancos, mas isso é o equivalente a impostos”, sustenta.

Os bancos vão pagar a conta enquanto contribuintes, e não é que tenham qualquer responsabilidade. Na prática é a mesma coisa que, no seu bairro, o seu vizinho foi descuidado e deixa incendiar a casa e depois vão pedir aos vizinhos todos que paguem o prejuízo dele

Vítor Bento

Presidente da Associação Portuguesa de Bancos

“Os bancos vão pagar a conta enquanto contribuintes, e não é que tenham qualquer responsabilidade. Na prática é a mesma coisa que, no seu bairro, o seu vizinho foi descuidado e deixa incendiar a casa e depois vão pedir aos vizinhos todos que paguem o prejuízo dele”, ilustra.

O sistema encontrado na altura foi uma injeção inicial por parte do Fundo de Resolução, mais o mecanismo de capital contingente, uma espécie de garantia à Lone Star de que o Novobanco iria sendo capitalizado conforme as necessidades, dentro de limites temporais e de valor. Como o Fundo de Resolução, na altura, tinha menos de 400 milhões de euros de disponibilidade, teve de contar com injeções dos bancos e empréstimos do Tesouro, que o fundo, isto é, os bancos, continuarão a pagar.

“Como disse no início, sobre a parte final podemos dizer que tudo está bem quando acaba bem. Na parte do processo, há muita coisa que pode ser discutida, mas não sou eu que o vou fazer neste momento. Tenho, obviamente, opinião sobre o assunto, porque eu, em geral, tendo a ter opiniões, mas não acho que seja útil pôr a minha em cima da mesa neste momento”, concluiu.

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