“A Anacom está sozinha”. Operadoras garantem que “vai acontecer consolidação” no setor

Líderes das principais empresas de telecomunicações insistem que o mercado não permite quatro operadoras. Em 2025, as receitas de consumo caíram pela primeira vez em sete anos.

Miguel Almeida e Ana Figueiredo mantêm a convicção de que haverá consolidação no setor das comunicações eletrónicas em Portugal. Os CEO da Nos e da Meo, respetivamente, falavam no congresso anual da APDC e, em conjunto com Luís Lopes, CEO da Vodafone, os três concordaram que é necessário criar condições para o investimento.

“É evidente que vai acontecer consolidação no mercado português, não há outro caminho”, afirmou esta quinta-feira o CEO da Nos, criticando o regulador por continuar a falar “com felicidade” sobre o quarto operador, a Digi. “Não é possível combater pelo preço” num mercado com a dimensão do mercado português, explorado por quatro empresas. “A Anacom está sozinha”, dramatizou.

Miguel Almeida, CEO da NosAPDC

Por seu turno, Ana Figueiredo, CEO da Meo, referiu que “a consolidação vai naturalmente acontecer no setor e na Europa”.

“O setor precisa de escala para investir”, assinalou, advertindo, todavia, que “tem de ser pelos motivos certos”.

“A consolidação deve ser feita não no quadro de corrigir erros do passado, mas no âmbito de uma reforma europeia e portuguesa deste setor, para permitir escala e termos infraestruturas críticas”, avançou.

Os três CEO das operadoras, no único debate do ano que os junta, concordaram que é necessário criar mais condições para investir. Em particular, Luís Lopes, CEO da Vodafone, assinalou que “as receitas de retalho, que o setor tem, voltaram a cair em 2025, coisa que não se verificava há mais de sete anos”.

“Os investidores não acham que o mercado português é interessante”, atirou, sublinhando, contudo, acreditar que o setor pode ainda vir a ter “um futuro muito brilhante”.

A CEO da Meo indicou mesmo que o setor tem vindo a reduzir pessoal: “Todos nós fizemos reduções do nosso quadro de pessoas. No Meo houve redução de 1.200 pessoas através de programas de saídas voluntárias”, revelou, número que a empresa clarificou ao ECO dizer respeito ao ano civil de 2025 e não abranger as contratações.

Ana Figueiredo, CEO da MeoAPDC

Expulsão de fornecedores chineses terá “impacto ultra-significativo”

Num congresso que este ano debateu em particular a soberania tecnológica europeia, ou falta dela, os três CEO das principais operadoras portuguesas também se disseram com “sentimentos mistos” sobre o conceito que vem sendo defendido pela Comissão Europeia.

“Estou dividido. A Europa, durante décadas, teve mais do que mensagens sobre estar a perder competitividade”, disse Luís Lopes. Apontando para o Cybersecurity Act, advertiu que “uma proibição completa de tecnologia vinda da China” terá “um impacto ultra-significativo” nas empresas de telecomunicações.

Miguel Almeida também repudiou as decisões das autoridades europeias, incluindo em Portugal, de aplicar restrições a alguns fornecedores, nomeadamente de origem chinesa, por preocupações com cibersegurança. “A primeira vez que a Europa falou de soberania e segurança foi no Cybersecurity Act, e a proibição de alguns vendors vai implicar mais custos significativos para o setor”, vaticinou.

“Se a Europa quer que os operadores sejam o escudo da sua independência tecnológica, tem de criar condições. Se for mais uma forma de onerar os operadores, fiquem lá com a soberania”, rematou o líder da Nos.

Igualmente, a CEO da Meo admitiu o “sentimento misto” com a discussão em torno da soberania digital: “Efetivamente, a soberania pode ser uma oportunidade se estiver alinhada com uma estratégia industrial e oportunidade de investimento. O que a história tem provado é que, normalmente, vem atrelada a mais obrigações, restrições e maior nível de custos e menor atratividade do investimento, quando devia de ser o contrário”, apontou a gestora.

Luís Lopes, CEO da Vodafone

“Já devíamos de estar a falar do espetro de 2033”

Numa altura em que parte do espetro das operadoras está em vias de expirar, já em 2027, as três empresas de telecomunicações insistiram que é preciso uma solução rápida para dar tranquilidade aos respetivos investidores.

“O novo Digital Networks Act diz que as licenças devem ser renovadas automaticamente e por períodos de 40 anos e temos licenças a terminar amanhã. Como é que é possível investir com esta imprevisibilidade? Qual é o maluco que vai meter dinheiro neste setor quando não sabe o que vai ser daqui a seis anos?”, interrogou o CEO da Nos, Miguel Almeida.

O mesmo apelo foi feito por Ana Figueiredo, que sublinhou: “Nós já devíamos estar a falar do espetro de 2023.”

Minutos antes, o ministro da tutela pressionou a Anacom a avançar mais rápido no dossiê das licenças que expiram em 2027. Em resposta, a presidente do regulador prometeu uma “solução equilibrada” e sem “surpresas”, que será anunciada em “breve”.

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