Bancos nacionais reduziram em 32% depósitos no BCE em 2025

A banca tem menos dinheiro estacionado no BCE do que há um ano, mas o excesso de liquidez mantém-se em níveis que dispensam qualquer pedido de crédito ao banco central, refere o Banco de Portugal.

ECO Fast
  • O Banco de Portugal revelou que, apesar da redução das taxas de juro pelo BCE, os bancos portugueses mantêm elevados depósitos junto do banco central, evitando novos empréstimos.
  • A média anual de depósitos dos bancos nacionais no BCE foi de 28 mil milhões de euros, uma diminuição de 32% em relação a 2024, refletindo uma tendência europeia.
  • A previsão de vencimentos de obrigações do BCE, que totalizam 942 mil milhões de euros nos próximos dois anos, poderá forçar os bancos a buscar mais liquidez no mercado.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

No ano passado, o Banco Central Europeu (BCE) baixou as taxas de juro em 100 pontos base, a inflação continuou a ceder e o crédito ficou mais barato. Ainda assim, os bancos portugueses quase não pediram dinheiro emprestado ao banco central e continuaram a estacionar dezenas de milhares de milhões de euros na sua conta de depósito junto do BCE, uma espécie de “cofre” remunerado onde guardam a liquidez que não utilizam.

O retrato é traçado pelo Relatório da Implementação da Política Monetária 2025, publicado esta quinta-feira pelo Banco de Portugal, que documenta um ano de “ajustamento gradual da orientação da política monetária” e de “adaptação contínua das instituições financeiras a um enquadramento de liquidez abundante, mas em normalização progressiva”, que fez com que em vez de canalizar ainda mais dinheiro para novos empréstimos a empresas e famílias, os bancos nacionais tivessem preferido manter uma almofada financeira robusta junto do banco central ao longo de todo o ano.

“Alguns bancos podem enfrentar necessidades de liquidez mais cedo do que outros”, alerta o Banco de Portugal, apontando que esta assimetria “deverá manifestar-se na evolução das taxas de juro de curto prazo no mercado monetário”.

Com uma média anual de 28 mil milhões de euros depositados no BCE, menos 32% do que em 2024, a banca nacional acompanhou a tendência europeia de redução do excesso de liquidez, mas ficam aquém dos seus parceiros da zona euro.

O peso da banca nacional no total da liquidez excedentária da área do euro foi de apenas 1,06% em 2025, abaixo dos 1,33% de 2024 e abaixo da quota de capital que Portugal detém no BCE. Por comparação, países como a Alemanha, a Bélgica, o Luxemburgo ou a França têm uma fatia de liquidez excedentária proporcionalmente maior do que a sua participação no capital do BCE.

Esta diferença não é indiferente para o futuro: “Alguns bancos podem enfrentar necessidades de liquidez mais cedo do que outros”, alerta o Banco de Portugal, apontando que esta assimetria “deverá manifestar-se na evolução das taxas de juro de curto prazo no mercado monetário” à medida que o excesso global continua a reduzir-se.

Crédito de emergência quase nulo mas garantias a dobrar

No terreno das operações de política monetária, os números apontam para uma situação confortável da banca portuguesa: das 33 instituições elegíveis para participar nas operações do Banco de Portugal -– cinco a menos do que em 2024, porque algumas decidiram não aderir ao novo sistema de gestão de garantias –, nenhuma pediu liquidez de emergência ao longo do primeiro semestre.

A partir de julho, alguns bancos começaram a recorrer pontualmente a este instrumento, mas em valores residuais: apenas 18 milhões de euros no final de dezembro, numa escala quase simbólica quando comparada com os 59 mil milhões de euros em ativos de garantia que essas mesmas instituições mantinham mobilizados junto do Banco de Portugal.

Esta prática – depositar garantias muito além do necessário – é explicada pelo regulador como uma opção de gestão de risco assente em “motivos de precaução”, em requisitos regulatórios de liquidez e no baixo custo de manter esses ativos disponibilizados.

No mercado monetário, onde os bancos se financiam entre si por períodos muito curtos, os bancos portugueses aumentaram em 3% o montante negociado em 2025 face ao ano anterior.

Enquanto as operações de política monetária foram perdendo peso, o balanço total do Banco de Portugal cresceu 11% em 2025, atingindo os 211 mil milhões de euros. A razão está, em grande parte, no comportamento do ouro: com uma valorização de cerca de 46% no ano, os ativos em ouro do banco central subiram para os 45 mil milhões de euros.

Em sentido contrário, a carteira de obrigações que o BCE comprou ao longo da última década para estimular a economia continuou a encolher, reduzindo-se em 7,3 mil milhões de euros para um total de 68 mil milhões de euros, dos quais 99% são dívida pública portuguesa ou de instituições supranacionais.

Esta redução é deliberada: 2025 foi o primeiro ano em que o BCE não reinvestiu um único euro no vencimento destas obrigações, deixando a carteira reduzir-se naturalmente.

A Europa estreou um sistema único de garantias bancárias

O evento estrutural do ano no plano da política monetária na Zona Euro foi a entrada em funcionamento, a 16 de junho de 2025, do Eurosystem Collateral Management System (ECMS), uma plataforma tecnológica comum a todos os bancos centrais da Zona Euro que substituiu os sistemas individuais de cada país, incluindo o sistema português COLMS.

O ECMS funciona como uma plataforma centralizada onde todos os bancos europeus passam a gerir, da mesma forma e com as mesmas regras, os ativos que entregam como garantia quando pedem dinheiro emprestado ao banco central.

A transição implicou adaptações significativas para os bancos nacionais – horários de funcionamento, sistemas informáticos, procedimentos operacionais –, mas o Banco de Portugal destaca a “forma eficaz e atempada” como preparou a comunidade bancária nacional, com “uma adaptação sem constrangimentos por parte da comunidade portuguesa.”

[Os bancos] têm pouca necessidade de procurar financiamento junto do mercado, participando esporadicamente em caso de oportunidade favorável ou para colmatar necessidades pontuais de liquidez de curto prazo.

Relatório da implementação da política monetária — 2025

Banco de Portugal

No mercado monetário, onde os bancos se financiam entre si por períodos muito curtos, os bancos portugueses aumentaram em 3% o montante negociado em 2025 face ao ano anterior. O crescimento foi impulsionado pelos segmentos com e sem garantia, com redução nos derivados financeiros, destacam os números do relatório do Banco de Portugal.

Ainda assim, o relatório refere que os bancos “têm pouca necessidade de procurar financiamento junto do mercado, participando esporadicamente em caso de oportunidade favorável ou para colmatar necessidades pontuais de liquidez de curto prazo.”

Mas esta realidade vai mudar à medida que as obrigações que o BCE acumulou durante os anos de crise chegam ao vencimento, com o Banco de Portugal a notar que nos próximos dois anos, prevê-se que esses vencimentos atinjam 942 mil milhões de euros em toda a área do euro, o que vai reduzir a liquidez disponível no sistema e obrigar os bancos – incluindo os portugueses – a recorrer cada vez mais ao mercado monetário para gerir o seu financiamento no dia a dia.

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