Negociação da reforma laboral termina sem acordo na Concertação Social

Reforma da lei do trabalho estava a ser negociada há nove meses. Apesar de aproximações, não foi possível chegar a um entendimento entre os vários parceiros sociais. Processo segue para o Parlamento.

A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho (C) preside à reunião da Comissão Permanente de Concertação Social, no Conselho Económico e Social (CES).Hugo Amaral/ECO

A ministra do Trabalho anunciou esta quinta-feira que a negociação da reforma laboral chegou ao fim sem que tenha sido possível chegar a um acordo na Concertação Social. À saída de uma reunião no Palácio das Laranjeiras, Maria do Rosário Palma Ramalho acusou a UGT de intransigência, atirando que a central sindical liderada por Mário Mourão “não cedeu em nenhum ponto“.

“Encerramos o processo de negociação relativo ao anteprojeto Trabalho XXI. Infelizmente, não foi possível chegar a um acordo, apesar de todo o esforço que o Governo fez“, indicou a ministra da tutela, em declarações aos jornalistas.

De acordo com Palma Ramalho, no encontro desta quinta-feira, nem a UGT, nem a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) – que tinha sinalizado, na véspera, disponibilidade para ceder numa série de pontos críticos – apresentaram propostas concretas, pelo que não havia mais matéria a debater, ditando o fim do processo.

A UGT não tem nenhuma proposta mais a fazer, a não ser as que estão em Concertação Social e que foram entregues no devido tempo”, esclareceu o secretário-geral, Mário Mourão, que confirmou também que a CIP não entregou um documento escrito que refletisse a abertura que foi anunciada na quarta-feira por Armindo Monteiro.

A UGT aceita propostas nos fóruns em que tem assento, não na comunicação social. Hoje ninguém apresentou aqui propostas“, afirmou.

"A UGT não tem nenhuma proposta mais a fazer, a não ser a que estão em Concertação Social e que foram entregues no devido tempo.”

Mário Mourão

Secretário-geral da UGT

Já o presidente da CIP informou que, no encontro desta tarde, perguntou diretamente à UGT se as cedências nos cinco pontos que tinha anunciadooutsourcing, banco de horas individual, formação contínua, não reintegração após despedimentos ilícitos e arbitragem – seriam suficientes para fechar um entendimento, tendo a central sindical respondido que não.

Pior, a UGT apresentou um documento que refere 20 pontos críticos, realçou o responsável. “Entrámos para discutir cinco pontos e o documento que foi apresentado menciona mais de 20. É uma never ending story“, declarou Armindo Monteiro, que considerou que o esforço de continuar a negociar seria inútil, porque seria uma repetição do que já aconteceu.

"Entrámos para discutir cinco pontos e o documento que foi apresentado menciona mais de 20. É uma ‘never ending story’.”

Armindo Monteiro

Presidente da CIP

Foi mais uma vez a demonstração que a UGT não estava interessada em acordo nenhum. Podíamos ceder em toda a linha, não houve nenhuma possibilidade de acordo”, defendeu o patrão dos patrões, que garantiu, ainda assim, que a CIP mantém as propostas que fez na quarta-feira.

Da parte das demais confederações, Álvaro Mendonça e Moura, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), sublinhou que estava disponível para analisar propostas novas no encontro desta tarde, mas “não foi o caso”.

Lamentamos que não tenha sido possível chegar a bom termo“, disse o responsável, que se confessou preocupado com o facto de não ter sido possível a UGT “interiorizar a necessidade de modernizar a lei laboral“.

“Precisamos que, da parte dos sindicatos, haja essa interiorização”, insistiu.

"Isto poderia ter acabado mais cedo. Com o maior respeito que tenho pela UGT, a UGT nunca teve de condições para assinar este acordo.”

Francisco Calheiros

Presidente da CTP

Também Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), deixou um lamento, dizendo que o processo “poderia ter acabado mais cedo” e que a UGT nunca teve condições para assinar um acordo. Mais, observou que a central sindical cedeu em ponto algum, ao longo dos últimos nove meses. O responsável deixou claro também que não estaria disponível para alinhar nas cedências propostas pela CIP, considerando que tal poderia por em causa a própria utilidade da reforma laboral.

Por sua vez, João Vieira Lopes, presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), assegurou que foi feito um “grande esforço” e avisou que a história demonstra que “os textos aprovados na Comissão Permanente da Concertação Social sofrem menos alterações na Assembleia da República e duram mais anos“.

Mas também assinalou que as propostas que estavam em cima da mesa “não eram radicais” – o outsourcing, disse, é aceite em todos os países, e o banco de horas individuais tem vantagens para ambas as partes –, considerando um “perfeito exagero as posições críticas que foram sendo tomadas ao longo deste processo. “A terra continua a girar à volta do Sol”, disse ainda, sobre o fim destas negociações sem acordo.

E agora?

A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Maria do Rosário Palma Ramalho à chegada para a reunião da Comissão Permanente de Concertação Social, no Conselho Económico e Social (CES).Hugo Amaral/ECO

Sem ter sido possível um acordo, a ministra do Trabalho explicou que o Governo seguirá com esta reforma laboral para o Parlamento, levando não a versão final que estava em cima da mesa na negociação na Concertação Social, mas uma nova versão com o anteprojeto original como base e o enriquecimento de alguns contributos que o Executivo considerar úteis.

Palma Ramalho rejeitou também a ideia de que a impossibilidade deste entendimento é uma derrota, visto que o processo continua agora noutra sede.

Da parte dos patrões, Armindo Monteiro frisou que, na sua visão, é preferível seguir para o Parlamento com a versão original da reforma laboral, já que a versão mais recente continha uma série de concessões feitas para tentar um acordo na Concertação Social, ainda que não fossem exatamente o que a economia precisa.

Já o presidente da CAP, sinalizou que espera que o Governo mantenha a ambição na reforma laboral, agora que o processo segue para outra instância.

Por outro lado, o presidente da CTP explicou que vai agora pedir reuniões aos vários partidos parlamentares com assento no Parlamento, para lhes explicar “a bondade” desta revisão e a sua importância para a economia.

Nas últimas reuniões, Francisco Calheiros já tinha deixado claro que a confederação a que preside apoiava a versão inicial deste anteprojeto, sublinhando que os ajustes que foram sendo feitos tiveram como contexto a tentativa de acordo na Concertação Social.

Greve geral para 3 de junho. UGT junta-se?

A delegação da UGT, liderada pelo secretário-geral Mário Mourão (E), à chegada para a reunião da Comissão Permanente de Concertação Social, no Conselho Económico e Social (CES).Hugo Amaral/ECO

No Primeiro de Maio, o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, anunciou a convocação de uma greve geral para 3 de junho contra esta reforma da lei do trabalho. Esta quinta-feira, o sindicalista voltou a criticar esse pacote e a destacar essa paralisação.

Esta será a segunda greve geral contra a reforma laboral, sendo que a primeira aconteceu em dezembro e juntou a CGTP e a UGT. Questionado esta quinta-feira sobre a possibilidade de se juntar novamente à CGTP, Mário Mourão adiantou que a UGT “ainda não está nesta fase”.

“Nem sequer ainda submeti uma proposta destas aos órgãos da UGT, porque o nosso trabalho não se esgota apenas na Comissão Permanente da Concertação Social. Será também junto dos grupos parlamentares”, salientou o secretário-geral.

Já a ministra do Trabalho frisou que a greve é um direito fundamental dos trabalhadores.

(Notícia atualizada às 18h15)

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