Stellantis e o desafio da eletrificação em Portugal
Pedro Lazarino, diretor da Stellantis Portugal é o convidado do décimo terceiro episódio da nova temporada do podcast Eco Auto, parceria entre o Eco e o Mundo Automóvel.
Pedo Lazarino, licenciado em economia e gestão, mestrado em marketing e programa de liderança na Harvard Business School, tem uma longa experiência na indústria automóvel com funções de liderança na Opel e na Stellantis na Península Ibérica, desde 2024 managing Director da Stellantis em Portugal.
Com uma visão pragmática, Pedro Lazarino explora neste episódio Eco Auto, os desafios reais da transição energética no terreno, a dependência do mercado empresarial, preço como principal barreira e infraestruturas ainda insuficientes, a pressão da concorrência chinesa e o papel estratégico da fábrica de Mangualde, num retrato direto de um setor automóvel em transformação profunda e sob crescente pressão regulatória, económica e tecnológica.
Com um portefólio de 14 marcas e uma posição de liderança consolidada no mercado nacional, a Stellantis enfrenta hoje um dos maiores desafios da sua história: gerir a complexidade interna enquanto responde a uma transição energética ditada por metas europeias exigentes.
A gestão de múltiplas marcas é para Pedro Lazarino, simultaneamente a maior força e o maior desafio do grupo. A estratégia passa por combinar eficiência industrial, através de plataformas comuns, com a preservação do ADN de cada marca e explica cada marca tem o seu posicionamento, o seu cliente e a sua identidade. O nosso papel é garantir que se complementam, e não que se canibalizam e que o equilíbrio entre escala e diferenciação tem permitido à Stellantis liderar o mercado português, tanto em veículos de passageiros como comerciais, com destaque para o desempenho consistente da Peugeot, que mantém uma posição dominante há vários anos.

A transição para a mobilidade elétrica é um tema central na conversa com Pedro Lazarino que considera que existe um desfasamento entre a ambição política e a realidade do mercado.
A Comissão Europeia definiu um caminho de eletrificação acelerada para o setor automóvel, com metas rígidas de redução de emissões. No entanto alerta que o ritmo de adoção está longe do necessário em vários mercados europeus. Não estamos a caminhar ao ritmo necessário para cumprir as metas e as penalizações para os construtores são muito significativas.
Portugal surge como uma exceção positiva, com cerca de 20% das vendas já em veículos 100% elétricos. Para o lider da Stellantis em Portugal esta performance esconde uma realidade mais complexa com a adoção de veículos elétricos no nosso mercado estar concentrada em grande parte nas empresas, impulsionada por incentivos fiscais e pela cultura do carro de serviço mas reconhece que o cliente particular ainda tem muita dificuldade em chegar ao elétrico e confirma que o principal obstáculo é o preço, a diferença face a veículos de combustão pode ultrapassar os 10 mil euros, um valor difícil de absorver para a maioria dos consumidores a que se juntam limitações práticas, como a falta de infraestrutura de carregamento e as dificuldades de utilização para quem não dispõe de soluções domésticas.
Apesar dos avanços, Pedro Lazarino considera que Portugal continua a enfrentar desafios estruturais na mobilidade elétrica. A infraestrutura de carregamento, embora superior à de alguns mercados europeus, é ainda insuficiente para uma massificação sustentável. Além disso, o custo de utilização pode tornar-se pouco competitivo quando dependente exclusivamente de carregamento público. O modelo elétrico funciona bem quando há carregamento em casa, sublinha.
Sobre a concorrência global, Pedro Lazarino admite que a crescente presença de fabricantes chineses no mercado europeu, particularmente no segmento elétrico, é um tema crítico. A Stellantis optou por uma abordagem pragmática, estabelecendo uma parceria com a Leapmotor para comercialização de veículos fora da China, decisão que reflete uma realidade incontornável: a China detém uma vantagem significativa na tecnologia de baterias e na produção de veículos elétricos. Apesar disso, levanta dúvidas sobre a equidade competitiva e considera que a concorrência não é totalmente equilibrada, mas é uma realidade que nos obriga a ser melhores, destacando que as marcas europeias continuam a beneficiar de um ativo essencial: a confiança dos clientes.
A propósito da importância da fábrica da Stellantis em Mangualde para a economia nacional confirma que assume um papel central na estratégia do grupo. Com cerca de 900 empregos diretos e uma produção anual próxima das 90 mil unidades, a unidade representa uma parte significativa da indústria automóvel portuguesa e a recente transição para a produção de veículos comerciais elétricos reforça a sua relevância, sublinhando que a eletrificação de Mangualde é a maior garantia de futuro para a fábrica. Além da produção, a aposta em soluções de transformação industrial, adaptadas às necessidades específicas dos clientes, poderá aumentar a competitividade da operação.
Para Pedro Lazarino, o debate sobre a mobilidade elétrica não pode ser desligado da realidade económica e social. A mobilidade individual é fundamental para a liberdade e para a democracia, sublinhando que a transição energética deve ser feita de forma equilibrada.
O envelhecimento do parque automóvel em Portugal, com uma média superior a 14 anos, é um sinal claro das dificuldades de acesso a veículos novos. Neste contexto, defende medidas como programas de abate de veículos antigos, que possam acelerar a renovação do parque e contribuir para a descarbonização de forma mais eficaz.
Nesta conversa Pedro Lazarino deixa uma conclusão clara o futuro da mobilidade está definido, mas a sua execução está longe de ser linear. Entre metas europeias ambiciosas, limitações económicas, pressão competitiva global e desafios estruturais, o setor automóvel enfrenta uma das fases mais complexas da sua história. A Stellantis, pela sua escala e diversidade, posiciona-se como um dos principais protagonistas dessa transformação mas Pedro Lazarino sublinha que o sucesso dependerá de um fator essencial: alinhar inovação, regulação e acessibilidade. Porque, a transição só será real quando for possível para todos.
O Podcast ECO Auto resulta de uma parceria com o Mundo Automóvel e está disponível no Spotify e na Apple Podcasts.
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