Morreu Carlos Brito. Seguro recorda “coragem cívica” do histórico dirigente do PCP
Presidente da República lembra Carlos Brito como "homem de convicções firmes e de coragem cívica, que soube colocar defesa da democracia, do diálogo e da renovação acima de qualquer outro interesse".
Carlos Brito, antigo dirigente do PCP e ex-braço direito de Cunhal morreu esta quinta-feira aos 93 anos.
Paulo Fidalgo, médico e amigo pessoal que foi um dos fundadores do Movimento Renovação Comunista, adiantou à agência Lusa que Carlos Brito esteve internado no hospital de Faro recentemente devido a uma infeção respiratória e teve alta hospitalar na passada segunda-feira, já recuperado. “Inesperadamente” morreu na sua casa de Alcoutim, disse Paulo Fidalgo.
Carlos Brito nasceu em Moçambique em 1933 e foi militante do PCP durante 48 anos, como funcionário, membro do Comité Central, líder parlamentar, diretor do jornal “Avante!” e candidato à Presidência da República.
Durante a ditadura, Carlos Brito passou dez anos na clandestinidade e oito anos na prisão. A seguir ao 25 de Abril esteve 16 anos na Assembleia da República, 15 dos quais como líder do grupo parlamentar.
Saiu “desolado” do Parlamento em 1991 por não ter sido eleito pelo círculo de Faro. À altura da sua saída, tinha o recorde de “longevidade” no Parlamento, desde a Assembleia Constituinte.
Em 1980 concorreu às presidenciais contra Ramalho Eanes e Soares Carneiro, desistindo à boca das urnas. Ao fim de 33 anos no Comité Central do PCP, em novembro de 2000 renunciou ao lugar em desacordo com as orientações do XVI Congresso. Em março desse ano já tinha escrito uma carta à direção onde expressava preocupação com o rumo do partido.
Carlos Brito esteve entre os dirigentes que reclamaram um congresso extraordinário após a derrota eleitoral do PCP nas autárquicas de 2001. No seguimento da luta interna que opôs os chamados “renovadores” aos defensores da ortodoxia do partido, Carlos Brito foi suspenso do PCP em 2002 por 10 meses. A sanção disciplinar foi decidida pelo Secretariado do partido, entre várias expulsões de críticos da direção, entre os quais Edgar Correia, já falecido, e Carlos Luís Figueira, que viriam a formalizar alguns anos depois a associação política Renovação Comunista.
Desde 1996 que Carlos Brito evidenciou vontade de se afastar de cargos dirigentes, primeiro ao recusar integrar a Comissão Política em 1996 e depois saindo da direção do “Avante!”, em 1998.
Era casado, teve duas filhas, e estava retirado em Alcoutim, no Algarve, local de origem da sua família. Dedicou-se durante muitos anos escrever poesia, ficção e a participar no movimento associativo para o desenvolvimento regional.
“Homem de convicções firmes e de coragem cívica”
Numa nota divulgada no site da Presidência da República, António José Seguro descreve Carlos Brito como uma “figura incontornável da resistência antifascista e da democracia portuguesa”, que “fez da sua vida um combate permanente pela liberdade”.
“Foi homem de convicções firmes e de coragem cívica, que soube colocar a defesa da democracia, do diálogo e da renovação acima de qualquer outro interesse. Ao longo de uma vida de raro empenhamento cívico, Carlos Brito honrou Portugal pelo exemplo da sua resistência, pela elevação do seu pensamento político e pela permanente lealdade aos valores de Abril”.
António José Seguro acrescenta que “a sua memória ficará associada à dignidade com que serviu a causa pública e à sua contribuição para uma democracia mais aberta, mais plural e mais exigente”, sublinhando que foi “uma das vozes mais íntegras da vida cívica e política” portuguesa.
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