Preços dos alimentos disparam para máximos de três anos
Crise geopolítica no Estreito de Ormuz empurra preços dos alimentos a nível mundial há três meses seguidos e para nível mais alto desde fevereiro de 2023. Carne está em máximos históricos.
- A guerra no Médio Oriente está a provocar um aumento significativo nos preços alimentares, com o Índice da FAO a atingir 130,7 pontos em abril, o valor mais alto desde fevereiro de 2023.
- Os óleos vegetais lideram a subida dos preços, com um aumento de 5,9% em abril, impulsionados pela procura crescente de biocombustíveis e custos elevados de petróleo.
- As incertezas geopolíticas no Estreito de Ormuz podem comprometer a produção agrícola, levando os agricultores a optar por culturas menos intensivas em adubos e reduzindo as sementeiras de trigo para 2026.
A guerra no Médio Oriente está a chegar à mesa dos consumidores de todo o mundo. O Índice de Preços Alimentares da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) subiu em abril pelo terceiro mês consecutivo, atingindo 130,7 pontos, o valor mais elevado desde fevereiro de 2023, segundo dados divulgados esta sexta-feira pela agência da ONU.
O aumento de 1,6% face a março e de 2% face a um ano reflete, em larga medida, o impacto económico da crise no Estreito de Ormuz, que está a encarecer a energia, os fertilizantes e, em cascata, tudo o que chega ao supermercado.
Segundo a FAO, o principal motor da subida dos preços em abril foram os óleos vegetais, cujo índice disparou 5,9% face a março, alcançando o nível mais elevado desde julho de 2022. Os preços do azeite de palma subiram pelo quinto mês consecutivo, impulsionados pela procura crescente do setor dos biocombustíveis e pelos elevados preços do petróleo bruto.
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A pressão foi reforçada por preocupações com quebras de produção no Sudeste Asiático nos próximos meses, enquanto as cotações da soja e do óleo de colza também avançaram, reflexo da forte procura para produção de biocombustíveis nos EUA e na União Europeia.
- Os cereais não ficaram imunes. O índice respetivo subiu 0,8% em abril, com o trigo a valorizar-se 0,9 pontos, influenciado “pela seca em algumas partes dos EUA e por perspetivas de chuvas abaixo da média na Austrália”. Mas o fator geopolítico é determinante: o fecho efetivo do Estreito de Ormuz elevou os custos dos fertilizantes ao ponto de os agricultores estarem a optar por culturas menos intensivas em adubos, reduzindo as sementeiras de trigo para 2026.
- O arroz, por seu lado, também ficou 1,9% mais caro face a março, com os países exportadores a repercutir nos preços a escalada nos custos do petróleo e seus derivados.
“Apesar das perturbações ligadas à crise no Estreito de Ormuz, os sistemas agroalimentares mundiais continuam a mostrar resiliência”, destaca Máximo Torero, economista-chefe da FAO, sublinhando que “os preços dos cereais apenas aumentaram moderadamente até agora, apoiados por stocks relativamente sólidos e fornecimentos adequados das colheitas anteriores” mas “os óleos vegetais estão a registar aumentos de preços mais acentuados, impulsionados em grande parte pelos preços mais elevados do petróleo, que estão a aumentar a procura de biocombustíveis e a exercer pressão adicional sobre os mercados de óleos vegetais”.
Os dados da FAO destacam ainda que a carne atingiu um novo máximo histórico em abril, com o índice a subir 1,2% face a março e 6,4% em termos homólogos para o valor mais elevado desde pelo menos 1990 (início da série da FAO).
- A carne de bovino liderou a alta, pressionada por quota de exportação mais elevadas no Brasil, onde os efetivos pecuários continuam em reconstrução, com o impulso adicional de uma forte procura internacional, nomeadamente da China, cujas quotas de importação ao abrigo de um novo regime de salvaguarda de três anos estão a ser rapidamente preenchidas.
- As carnes de suíno e aves seguiram a mesma tendência, embora por razões distintas: sazonalidade na União Europeia e desvios logísticos causados pelos constrangimentos no transporte para o Médio Oriente.
Mas nem tudo subiu. Os laticínios recuaram 1,1% face a março, penalizados pelas cotações mais baixas da manteiga e do queijo, numa altura em que a produção de leite da União Europeia e da Oceânia excedeu as expectativas.
O açúcar tombou 4,7% no mês e 21,2% em termos homólogos, beneficiando de perspetivas de oferta abundante a nível global, incluindo boas colheitas previstas na China e na Tailândia, e do arranque da nova campanha no Brasil, o maior produtor mundial, em condições meteorológicas favoráveis, refere a FAO.
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No plano da produção agrícola, a FAO reviu em alta as suas estimativas para a produção mundial de cereais da colheita do ano passado, agora projetada em 3.040 milhões de toneladas, 6% acima do ano anterior, o que sinaliza uma situação de oferta globalmente favorável no ciclo 2025/26.
Contudo, as perspetivas para o trigo de 2026 foram ligeiramente revistas em baixa para 817 milhões de toneladas, uma queda de cerca de 2% face ao ano anterior, mantendo-se ainda acima da média dos últimos cinco anos.
O cenário continua envolto em incerteza marcado pelo fecho efetivo do Estreito de Ormuz que tem levado ao encarecimento dos insumos agrícolas (energia e fertilizantes) que pode comprometer a capacidade dos agricultores de manter os níveis de produção num momento em que os mercados globais não se podem dar ao luxo de mais perturbações.
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