Nissan Micra: O ícone japonês voltou à boleia de um Renault
A Nissan ressuscitou um dos nomes mais queridos da história do automóvel europeu, mas há um pormenor que a marca preferia que ninguém notasse, e que toda a gente vai notar assim que abrir a porta.
Há histórias de regresso que enchem o coração. E há outras que nos deixam com o sobrolho levantado. O novo Nissan Micra é, simultaneamente, as duas coisas. Voltou com o nome histórico, design moderno e um motor elétrico silencioso, mas trouxe consigo um segredo que a Nissan não anuncia nos folhetos: por baixo da pele nipónica bate um coração com sotaque inconfundível de Boulogne-Billancourt. Este Micra é, sem rodeios, um Renault 5 com o uniforme trocado. E a questão que fica é simples: vale a pena pagar cerca de 30 mil euros por isso?
É incontestável que o Micra carrega um peso simbólico. Nasceu em 1982 e foi, durante décadas, o carro de entrada por excelência da Nissan na Europa e Lisboa não escapou. Foi o carro com que muitos portugueses aprenderam a conduzir, e isso vale alguma nostalgia.
A quinta geração, lançada em 2017, abandonou o formato citadino para se tornar num hatchback mais adulto e menos carismático. A Nissan acabou por descontinuá-lo em 2023. Agora, com esta sexta geração totalmente elétrica, a marca japonesa prometeu um regresso em grande. E cumpriu, à sua maneira.

O elefante na sala chama-se Renault 5. A Nissan e a Renault partilham o mesmo grupo, a Renault Group, e decidiram que fazia todo o sentido partilhar também a plataforma AmpR Small. O resultado prático é que o Micra usa exatamente os mesmos motores, as mesmas baterias e o mesmo chassis do R5 elétrico que o ECO ensaiou em em dezembro.
No interior, a semelhança é ainda mais evidente: o formato do teto, o dashboard com os dois ecrãs sobrepostos, o sistema de ar condicionado, e até os botões para regular o volume do sistema de som no topo do painel de controlo, tudo saído do mesmo molde.
O novo Micra é um bom carro que existe à sombra de um carro ainda melhor. É competente, divertido no modo certo e elétrico no momento certo. Mas fica a sensação de que a Nissan podia ter feito mais ou pelo menos ter feito algo verdadeiramente seu.
Quem já esteve sentado num Renault 5 entra neste Micra e sente um déjà vu desconcertante. A Nissan fez alguns ajustes na carroçaria e nas óticas frontais — que, segundo a marca, evocam a geração mais popular do Micra, mas é preciso muito boa vontade para encontrar aqui a identidade nipónica que a publicidade promete.
Isso significa também que tudo o que é bom no Renault 5 também está no novo Micra. E o R5, como demonstrámos, é um carro genuinamente capaz. Com a bateria de 40 kWh e 121 cv, o Micra Advance MY25 testado pelo ECO oferece uma autonomia WLTP de 314 km e um consumo de 14,4 kWh/100 km.
No dia-a-dia por estradas lisboetas, os números reais ficam bem próximos dos prometidos em ciclo urbano, o que é sempre uma boa notícia. O carregamento em AC faz-se a 11 kW, e a carga rápida DC vai até 80 kW, permitindo passar dos 15% aos 80% em cerca de 30 minutos.
Quando se seleciona o modo Sport — um dos quatro disponíveis, a par do Perso, Comfort e Eco –, o Micra ganha vida de uma forma que surpreende. A direção fica mais pesada e comunicativa, o acelerador responde com uma vivacidade que não se esperaria de um utilitário de 32 mil euros (na versão testada pelo ECO), e a suspensão mantém o carro colado ao asfalto com uma compostura que envergonharia concorrentes mais caros. É divertido, como se pretende.
Agora, as más notícias — e há duas que não se podem ignorar. A primeira: o espaço traseiro. Dois adultos de estatura média cabem nos bancos de trás, mas sem margem para ilusões de conforto em viagens longas. As pernas encostam ao banco da frente, a entrada é pouco digna e o espaço para a cabeça está na fronteira do aceitável. É um carro para quatro pessoas num sentido muito generoso da expressão.
A segunda má notícia está na bagageira. Os 326 litros de área são razoáveis para o segmento — até supera alguns rivais diretos –, mas não há grandes truques de modularidade que a Nissan possa apontar como vantagem distintiva. Serve, mas não impressiona. E é aqui que chegamos à grande questão: 32 mil euros para um Nissan Micra Advance 40 kWh. O preço inclui pintura metalizada e despesas de matrícula, mas o sticker price levanta questões legítimas num segmento onde a concorrência não dorme.
O Mini Cooper Electric parte dos 32 mil euros, o Hyundai Inster, que testámos em junho, oferece uma proposta de valor difícil de bater, e o próprio Renault 5 está disponível praticamente ao mesmo preço, com um charme e uma identidade visual que o Micra não consegue igualar.
A garantia de três anos ou 100 mil km, com proteção anticorrosão de 12 anos, diz bem da confiança da Nissan no produto. E há claramente um público para este carro: quem prefere a rede de serviço da Nissan, quem não gosta do design do R5, ou quem simplesmente quer um carro elétrico sólido, fácil de conduzir e razoavelmente equipado. Para esses, o Micra cumpre o prometido com honestidade.
O novo Micra é um bom carro que existe à sombra de um carro ainda melhor. É competente, divertido no modo certo e elétrico no momento certo. Mas ao preço pedido, e com a identidade que apresenta, fica a sensação de que a Nissan podia ter feito mais ou pelo menos ter feito algo verdadeiramente seu. Por cerca de 30 mil euros, o consumidor merece ter a certeza de que está a comprar um Micra e não um Renault 5 que se engana nas apresentações.
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