Arrisca-se na televisão generalista? Um olhar pelo passado e futuro da RTP, SIC e TVI

Rafael Correia,

Num momento em que as plataformas desafiam o setor dos media em Portugal, RTP, SIC e TVI lembram que tem arriscado desde sempre e pedem que todas joguem com as mesmas regras.

José Fragoso, diretor de programas da RTP, Daniel Oliveira, diretor-geral de entretenimento da SIC, José Eduardo Moniz, diretor-geral da TVI e Filomena Cautela, apresentadora e atriz, no painel “Produzir em Portugal: Da televisão tradicional aos novos ecrãs”.APIT
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  • Os diretores das principais estações de televisão em Portugal debateram a necessidade de arriscar em conteúdos, num mercado cada vez mais fragmentado por plataformas digitais.
  • José Fragoso, da RTP, destacou que arriscar na televisão pública é diferente do que nas privadas, onde a pressão por receitas comerciais limita as opções criativas.
  • Os responsáveis alertaram para a importância de inovar e diferenciar a produção nacional, enquanto enfrentam desafios como a concorrência das plataformas de streaming e a necessidade de adaptação às novas regras do mercado.
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Num mercado cada vez mais fragmentado por plataformas, os canais generalistas em sinal aberto debateram a necessidade premente de “arriscar”. Com diferentes pesos e medidas, foi esta a palavra de ordem que guiou a conversa entre José Fragoso, diretor de programas da RTP, Daniel Oliveira, diretor-geral de entretenimento da SIC, e José Eduardo Moniz, diretor-geral da TVI, durante o 11º Encontro de Produtores Independentes de TV, promovido pela APIT.

Na perspetiva do serviço público, “o risco é importante e dele saem soluções que às vezes funcionam e outras que não”. Contudo, José Fragoso salienta que “arriscar na RTP não é a mesma coisa que arriscar em canais comerciais“. O diretor recorda a campanha do programa “Último a Sair” (2010), que brincava com a ideia de a estação pública produzir um reality show e quase o levou a ter de prestar justificações ao Parlamento. “Este tipo de risco não é possível quando tens uma grelha que depende muito das receitas comerciais e onde as tuas opções são aquelas que, na maior parte das vezes, têm a ver com o mainstream“, aponta.

Neste enquadramento, Fragoso admite existirem situações em que sabe “perfeitamente” que está a “afundar a audiência com um determinado conteúdo”. A justificação prende-se com o dever público. “Faz parte da nossa missão produzir, apoiar a produção de linguagens diferentes, de diversidade… contrariando bastante essa lógica mais horizontal das grelhas comerciais“.

Isto não significa que a televisão privada jogue sempre pelo seguro. “Eu vejo situações na SIC e na TVI que me parecem um risco”, admite o próprio diretor da RTP, notando, no entanto, que o grande público muitas vezes não o interpreta dessa forma. A aposta nas telenovelas turcas é o exemplo perfeito. “Se dissessem que as novelas turcas dobradas em português iam fazer audiências em Portugal, diria que era um absurdo total”, observa.

Daniel Oliveira lembra que a SIC já tinha testado o formato — sem dobragem portuguesa — na SIC Mulher. Para o responsável de Paço de Arcos, a disrupção também se fez com apostas em programas de Bruno Nogueira, como “Princípio, Meio e Fim” e “Tabu”. Tratando-se de formatos disruptivos que sabiam de antemão “não ter um volume de alcance”, Daniel Oliveira sublinha que “em determinados momentos, e com o cabimento orçamental, queremos fazer”. A chegada do streaming com a OPTO ampliou esta margem de manobra, criando um “espaço próprio” para séries “que provavelmente teriam dificuldade em ver a luz do dia na antena da SIC”. A premissa é simples. “Obviamente que não acertamos sempre. Falhamos e vamos falhar muitas vezes, mas significa que também estamos a tentar muitas vezes”.

José Eduardo Moniz corrobora a necessidade de atrevimento, recordando riscos passados da TVI, como a estreia do Big Brother e a industrialização da ficção nacional, ou os mais recentes acordos com a Amazon Prime. Uma parceria feita “não sabendo nem nós, nem a Plural como é que iria acabar”, uma vez que a emissão em simultâneo afeta a audiência linear da estação. Ainda assim, “há riscos que precisamos de correr e, nesse caso, é casar com o inimigo. Se quisermos valorizar as coisas de que gostamos, ou ter algumas ideias para o futuro, obviamente tem de ser assim”, defende.

O diretor da TVI assume inclusive a quota de responsabilidade das generalistas na estagnação de alguns formatos. “Também damos muito pão com manteiga às pessoas. Temos de saber acrescentar algum sal à manteiga para que tudo isto pareça um bocadinho diferente. Mesmo que não o seja“, nota. Moniz avisa que é “altura de rompermos o sistema” da programação horizontal, apesar de admitir que não sabe se terá sucesso. “Podemos falhar… mas se não experimentarmos é que nunca vamos saber se alguma coisa era possível ou não“, defende.

Além disso, deve-se apostar na diferenciação, “naquilo que é nosso, em originais portugueses e pouca coisa importada”. Ficar dependente de terceiros é, nas suas palavras, “colaborar numa estratégia de aniquilamento”.

A concorrência nas obrigações legais

Numa perspetiva mais abrangente, Daniel Oliveira lembra que as generalistas continuam a ser “a âncora de conteúdo de todo o ecossistema”. Na sua ótica, o volume fala por si. A RTP1, RTP2, SIC e TVI garantiram um consumo médio de cinco horas e meia por dia, resultando em “17 mil horas de produção de entretenimento”. “Não há nenhuma plataforma de distribuição de conteúdos que se possa sequer aproximar disso“, argumenta, lembrando que os canais estão hoje multiplataforma. Como tal, não faz sentido defender a televisão “como se fosse uma relíquia”.

Afinal, “grande parte dos conteúdos que são consumidos nas plataformas hoje em dia, sejam plataformas de distribuição como o YouTube ou mesmo nas de streaming como a Amazon, a Disney, ou a Netflix, são de produção nacional e têm as infraestruturas criativas das televisões generalistas a presidir a essas decisões“.”Vivemos um momento que é desafiante, mas que também é fulgurante do ponto de vista da indústria criativa”, argumenta.

Como principal desafio, identifica as obrigações que as generalistas possuem — quotas de produção nacional, restrições à publicidade, limitação de horários — que depois plataformas como o YouTube não têm. “Alguém que esteja no YouTube às três da tarde pode estar a consumir publicidade de álcool, de apostas, de qualquer coisa”, exemplifica, defendendo que “há regras que têm de ser iguais para todos”.

Apesar desta concorrência, o peso das generalistas é inegável. José Fragoso alerta que as três televisões nacionais funcionam hoje “como um conglomerado”. O impacto destas estações é tal que, “se se desligar em prime-time os quatro canais apaga-se praticamente a televisão em Portugal”. O diretor da RTP defende por isso que, em determinadas situações, este eixo “deve funcionar em conjunto”.

Fragoso relembra que a área dos media tem sido historicamente das mais impactadas pela tecnologia. No entanto, há algo que não muda. “As peças que se fazem, que eu vejo hoje no telejornal, são muito diferentes dessas peças dos anos 80? Há pouca diferença. As nossas necessidades são as mesmas“. Exemplo disso é o facto de as generalistas estarem a ‘plataformizar-se’ e as plataformas a ‘linearizar-se’ — como referiu há dois anos no mesmo palco.

As plataformas estão a dar futebol como dão os canais que dizem que são tradicionais” e a transmitir “o talent show, como a Amazon em Espanha dá a Operação Triunfo com uma gala em direto e pequenos programas ao longo da semana”, aponta. Fragoso desvaloriza o facto de o YouTube roubar a transmissão dos Óscares, argumentando que “não é um conteúdo pelo qual andamos todos a arranhar para ter”, mas alerta para o verdadeiro perigo, ter o campeonato do mundo de futebol no YouTube com jogos em direto.

Nesse sentido, aponta que o YouTube deveria jogar “com as mesmas regras dos que estão aqui sentados. Agora, entrar com outras regras é jogar futebol com regras diferentes e andamos todos à chapada no meio do campo”. Nota, como exemplo de boas parcerias e entendimentos, o caminho que tem sido feito com plataformas como a Amazon e a Netflix. “A RTP tem estado associada nos últimos anos a projetos com escalas de investimento que não seria possível sem essa associação a plataformas internacionais”, destaca.

Face à concorrência global, Daniel Oliveira mostra-se “algo receoso com o impacto” que as plataformas terão junto dos anunciantes. O líder da SIC apela a uma escolha ética das marcas. “Quando estão a financiar uma plataforma internacional, não estão só a tomar uma decisão comercial, estão a tomar uma decisão sobre de que forma querem ajudar a construir um país. Quando não se financia a produção nacional ou as televisões nacionais, e ao invés se investe em plataformas internacionais, nomeadamente no YouTube, está-se a tomar também uma decisão com esse cariz”, argumenta.

José Eduardo Moniz responde: “Eu não tenho ilusões sobre isso. Nenhum vai pensar nisso“. Para o diretor da TVI, as estações têm de contar consigo próprias, “encontrar e engendrar formas de fazer com que eles venham bater à nossa porta em vez de se dispersarem” e “sermos mais eficazes”.

Num apelo ao pragmatismo da indústria, deixou um aviso contra a vitimização. “Nós, portugueses, andamos sempre com a tragédia ao ombro, com o peso brutal. Parece que estamos todos os dez milhões de portugueses sentados na cadeira do psiquiatra”. Para o responsável da estação de Queluz de Baixo, não faz sentido “estar a atribuir culpas ao vizinho”. “Se alguma coisa corre mal, a culpa é nossa, ponto. Vamos juntar-nos e vamos resolvê-lo“.

É exatamente com esta mentalidade que perspetiva o embate com o streaming. Em vez do pessimismo, defende que “esta concorrência internacional toda que temos pode ser transformada numa coisa que venha a jogar a nosso favor“. Assumindo que Portugal é pequeno neste universo, a tática passa por “saber conquistar um lugar no meio deles“, de preferência em parceria. “Se calhar com eles. E não contra eles, porque se formos contra eles, seremos esmagados”.

Como se perspetiva o futuro?

A eficácia desta nova era passa também pela forma como se mede o sucesso. Daniel Oliveira sublinha que a avaliação “não se mede apenas pelas audiências oficiais“. O impacto social das marcas de televisão é muito superior àquilo que os audímetros captam, sentenciando que “estamos a medir metade do corpo”. Como exemplo, nota que muito do sucesso orgânico no YouTube deriva de reality shows da TVI, novelas da SIC ou humor da RTP.

A nível de orçamentos para projetos audiovisuais, o cenário não é de expansão. Daniel Oliveira e Moniz concordam que as verbas se vão manter “mais ou menos estáveis”, sendo necessário “ser mais criativo no exercício orçamental”. Neste campo, Moniz exorta os produtores a fazerem lobby junto do poder político — à imagem dos milhões investidos pelo Estado espanhol –, para que a produção audiovisual seja vista como vital para a “cultura e identidade de um país”. Ainda assim, avisa os produtores para não se “meterem em becos”, relembrando que as generalistas não são o espaço para “cinema de autor”, e que a indústria deve “saber construir a sua autonomia” para evitar contrapartidas indesejadas dos governos.

No que toca a reequilibrar forças no mercado interno, Moniz aproveitou para justificar a compra de direitos de um clube de futebol pela TVI, uma iniciativa que procurou abalar um “situação de monopólio inacreditável”. O objetivo “não é matar ninguém”, mas promover uma “justiça mais distribuída”, procurando que o mercado se recomponha, especialmente porque “o futebol português tem muito prestígio lá fora, mas a nossa liga não vale nada”.

Sobre o futuro a longo prazo, Moniz assume não saber “o que é que a televisão vai ser daqui a dois ou três anos, quanto mais amanhã“, optando por viver de “forma muito pragmática”.

Já José Fragoso aborda ainda no painel, a Inteligência Artificial, traçando um paralelismo com os primórdios da aviação, quando voar era visto simultaneamente como algo fantástico e perigoso. “Acho que daqui a uns anos, ganhando maturidade, vamos entrar no avião com toda a segurança, sabendo quem é o piloto, sabendo qual é o destino, sabendo que se paga isto, se paga aquilo. Quando ganhar maturidade, será apenas mais uma ferramenta”, remata o diretor da RTP.

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