Crise política no Reino Unido atira juros das obrigações para máximos de 1998

  • Joana Abrantes Gomes
  • 12 Maio 2026

As obrigações do Reino Unido negoceiam em 5,11% no prazo a 10 anos, perante nova tempestade no Governo do país. Libra está em queda, assim como os mercados acionistas.

A pressão sob Keir Starmer para se demitir da liderança do Governo do Reino Unido, na sequência da pesada derrota do Partido Trabalhista (Labour) nas eleições locais e regionais na semana passada, está a penalizar os mercados. Num dia em que o Conselho de Ministros tem uma reunião crucial para decidir o futuro do primeiro-ministro, as yields das obrigações do Tesouro britânico tocaram no nível mais alto em quase 30 anos, enquanto a libra esterlina e o índice acionista FTSE 100 estão em queda.

Os investidores preparam-se para uma potencial mudança de liderança, receando que quem venha a substituir Starmer seja mais de esquerda do que o atual primeiro-ministro e pressione a disciplina orçamental, numa altura em que as finanças públicas do país já se encontram bastante fragilizadas.

Os custos de financiamento do Reino Unido continuam a ser os mais elevados entre as economias do G7, tendo registado a maior subida desde que os EUA e Israel desencadearam a guerra contra o Irão, em 28 de fevereiro. Um novo aumento irá agravar a pressão sobre as finanças públicas britânicas.

As yields (rendimentos) das obrigações a 10 anos, conhecidas como Gilts, subiram 11 pontos base, para 5,11%, ficando ligeiramente abaixo dos níveis mais elevados desde 2008, atingidos em março devido às preocupações com o impacto inflacionista do conflito no Médio Oriente. Nos prazos mais longo, a 20 anos e a 30 anos — mais sensíveis aos riscos orçamentais –, as Gilts tocaram os níveis mais altos desde 1998, situando-se em 5,12% e 5,80%, respetivamente.

O mercado obrigacionista está a reagir não só à potencial saída de Keir Starmer, mas também a quem poderá ser o seu sucessor e à perspetiva de uma batalha morosa pela liderança [do Governo] que conduza a mais promessas fiscais que o Reino Unido não pode suportar“, afirmou Kathleen Brooks, diretora de investigação da corretora XTB, citada pela Reuters.

Esta manhã, a libra também desvalorizava 0,7% para 1,351 dólares e registava uma queda de 0,4% face ao euro, para 86,92 pence.

Também sob pressão estão os mercados de ações, com o principal índice da Bolsa de Valores de Londres, o FTSE 100, a cair 0,52%. Os bancos britânicos lideram mesmo as perdas do setor na Europa: o Barclays recua 4,18%, enquanto o NatWest cede 4,64% e o Lloyds cai 4,31%.

Analistas do JPMorgan esperam agora que a sobretaxa bancária no Reino Unido (um imposto adicional sobre os lucros das instituições financeiras) suba de 3% para 5%, uma vez que é mais provável uma viragem à esquerda na política fiscal do país.

O primeiro-ministro Keir Starmer reuniu-se na manhã desta terça-feira com os seus principais colegas do Executivo britânico para conversações nas quais poderá ser forçado a definir um calendário para a sua saída, após uma das piores derrotas eleitorais dos trabalhistas na semana passada, quando em 2024 tinham alcançado uma maioria absoluta nas legislativas, pondo fim a 14 anos de governos conservadores.

Starmer, no cargo há menos de dois anos, prometeu na segunda-feira manter o rumo, afirmando que ceder aos apelos para que se demitisse traria o tipo de caos que tem assolado a Grã-Bretanha desde que a nação votou por uma estreita margem a favor do Brexit (processo de saída do Reino Unido da União Europeia) em 2016.

Contudo, o primeiro-ministro trabalhista parece cada vez mais isolado, depois de cerca de 80 deputados do Labour terem vindo a público exigir a sua demissão imediata, ou pelo menos um calendário de saída, para que o partido possa nomear um novo líder de forma ordenada.

Segundo a imprensa britânica, vários membros do Governo, incluindo a ministra do Interior, Shabana Mahmood, terão dito a Keir Starmer que ele deveria considerar aceder às exigências dos deputados do partido.

Já esta manhã, antes da reunião do Conselho de Ministros, que estava agendada para as 9h30 locais (mesma hora em Lisboa), a secretária de Estado Miatta Fahnbulleh, com a pasta da Devoção, Fé e Comunidades, anunciou a sua demissão na rede social X. “Insto o primeiro-ministro a fazer o que é certo para o país e para o partido e a definir um calendário para uma transição ordenada”, escreveu na mesma publicação.

Starmer recusa demissão e desafia adversários a desencadearem eleição interna

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, desafiou esta terça-feira potenciais rivais a desencadearem uma eleição interna no Partido Trabalhista, reiterando que não se pretende demitir.

“O Partido Trabalhista tem um processo para contestar a liderança e esse processo não foi acionado. O país espera que continuemos a governar. É isso que estou a fazer e o que devemos fazer enquanto governo”, disse esta manhã, durante a reunião semanal do conselho de ministros.

Starmer repetiu assumir a responsabilidade pelos maus resultados nas eleições locais e regionais de 7 de maio, quando o ‘Labour’ perdeu mais de 1.500 autarcas e a maioria no parlamento autónomo do País de Gales.

No entanto, salientou que “as últimas 48 horas foram desestabilizadoras para o governo, e isso tem um custo económico real para o nosso país e para as famílias”, numa referência ao aumento dos juros pagos pelo Governo sobre os títulos do tesouro.

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