Crise política no Reino Unido atira juros das obrigações para máximos de 1998
As obrigações do Reino Unido negoceiam em 5,11% no prazo a 10 anos, perante nova tempestade no Governo do país. Libra está em queda, assim como os mercados acionistas.
A pressão sob Keir Starmer para se demitir da liderança do Governo do Reino Unido, na sequência da pesada derrota do Partido Trabalhista (Labour) nas eleições locais e regionais na semana passada, está a penalizar os mercados. Num dia em que o Conselho de Ministros tem uma reunião crucial para decidir o futuro do primeiro-ministro, as yields das obrigações do Tesouro britânico tocaram no nível mais alto em quase 30 anos, enquanto a libra esterlina e o índice acionista FTSE 100 estão em queda.
Os investidores preparam-se para uma potencial mudança de liderança, receando que quem venha a substituir Starmer seja mais de esquerda do que o atual primeiro-ministro e pressione a disciplina orçamental, numa altura em que as finanças públicas do país já se encontram bastante fragilizadas.
Os custos de financiamento do Reino Unido continuam a ser os mais elevados entre as economias do G7, tendo registado a maior subida desde que os EUA e Israel desencadearam a guerra contra o Irão, em 28 de fevereiro. Um novo aumento irá agravar a pressão sobre as finanças públicas britânicas.
As yields (rendimentos) das obrigações a 10 anos, conhecidas como Gilts, subiram 11 pontos base, para 5,11%, ficando ligeiramente abaixo dos níveis mais elevados desde 2008, atingidos em março devido às preocupações com o impacto inflacionista do conflito no Médio Oriente. Nos prazos mais longo, a 20 anos e a 30 anos — mais sensíveis aos riscos orçamentais –, as Gilts tocaram os níveis mais altos desde 1998, situando-se em 5,12% e 5,80%, respetivamente.
“O mercado obrigacionista está a reagir não só à potencial saída de Keir Starmer, mas também a quem poderá ser o seu sucessor e à perspetiva de uma batalha morosa pela liderança [do Governo] que conduza a mais promessas fiscais que o Reino Unido não pode suportar“, afirmou Kathleen Brooks, diretora de investigação da corretora XTB, citada pela Reuters.
Esta manhã, a libra também desvalorizava 0,7% para 1,351 dólares e registava uma queda de 0,4% face ao euro, para 86,92 pence.
Também sob pressão estão os mercados de ações, com o principal índice da Bolsa de Valores de Londres, o FTSE 100, a cair 0,52%. Os bancos britânicos lideram mesmo as perdas do setor na Europa: o Barclays recua 4,18%, enquanto o NatWest cede 4,64% e o Lloyds cai 4,31%.
Analistas do JPMorgan esperam agora que a sobretaxa bancária no Reino Unido (um imposto adicional sobre os lucros das instituições financeiras) suba de 3% para 5%, uma vez que é mais provável uma viragem à esquerda na política fiscal do país.
O primeiro-ministro Keir Starmer reuniu-se na manhã desta terça-feira com os seus principais colegas do Executivo britânico para conversações nas quais poderá ser forçado a definir um calendário para a sua saída, após uma das piores derrotas eleitorais dos trabalhistas na semana passada, quando em 2024 tinham alcançado uma maioria absoluta nas legislativas, pondo fim a 14 anos de governos conservadores.
Starmer, no cargo há menos de dois anos, prometeu na segunda-feira manter o rumo, afirmando que ceder aos apelos para que se demitisse traria o tipo de caos que tem assolado a Grã-Bretanha desde que a nação votou por uma estreita margem a favor do Brexit (processo de saída do Reino Unido da União Europeia) em 2016.
Contudo, o primeiro-ministro trabalhista parece cada vez mais isolado, depois de cerca de 80 deputados do Labour terem vindo a público exigir a sua demissão imediata, ou pelo menos um calendário de saída, para que o partido possa nomear um novo líder de forma ordenada.
Segundo a imprensa britânica, vários membros do Governo, incluindo a ministra do Interior, Shabana Mahmood, terão dito a Keir Starmer que ele deveria considerar aceder às exigências dos deputados do partido.
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Já esta manhã, antes da reunião do Conselho de Ministros, que estava agendada para as 9h30 locais (mesma hora em Lisboa), a secretária de Estado Miatta Fahnbulleh, com a pasta da Devoção, Fé e Comunidades, anunciou a sua demissão na rede social X. “Insto o primeiro-ministro a fazer o que é certo para o país e para o partido e a definir um calendário para uma transição ordenada”, escreveu na mesma publicação.
Starmer recusa demissão e desafia adversários a desencadearem eleição interna
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, desafiou esta terça-feira potenciais rivais a desencadearem uma eleição interna no Partido Trabalhista, reiterando que não se pretende demitir.
“O Partido Trabalhista tem um processo para contestar a liderança e esse processo não foi acionado. O país espera que continuemos a governar. É isso que estou a fazer e o que devemos fazer enquanto governo”, disse esta manhã, durante a reunião semanal do conselho de ministros.
Starmer repetiu assumir a responsabilidade pelos maus resultados nas eleições locais e regionais de 7 de maio, quando o ‘Labour’ perdeu mais de 1.500 autarcas e a maioria no parlamento autónomo do País de Gales.
No entanto, salientou que “as últimas 48 horas foram desestabilizadoras para o governo, e isso tem um custo económico real para o nosso país e para as famílias”, numa referência ao aumento dos juros pagos pelo Governo sobre os títulos do tesouro.
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