Habitação. “Todas as cidades bem-sucedidas enfrentam este desafio de acesso”
Vivemos uma economia cada vez mais marcada pela concentração de riqueza e pela mobilidade do património, diz Liam Bailey, editor do The Wealth Report da Knight Frank.
Se há conceito que não desapareceu do The Wealth Report desde que começou a ser publicado em 2007 pela consultora imobiliária Knight Frank, associada da Quintela e Penalva em Portugal, é o de “plutonomy”, uma palavra que descreve uma economia em que a riqueza e o consumo se concentram de forma desproporcionada no topo da pirâmide. Em entrevista ao ECO Avenida, Liam Bailey, autor do relatório, diz que, 20 anos depois da primeira edição, essa tendência não só continua presente como “está a ganhar terreno”.
A criação de riqueza mantém um desempenho muito elevado nos patamares mais elevados, alimentando mercados imobiliários prime, hotelaria de luxo, ativos de coleção, residências de marca e novas geografias de investimento, defende. É também o que se lê na edição deste ano do The Wealth Report.
O que mudou desde 2007 não foi apenas o volume da riqueza, foi também a velocidade a que se move. “A riqueza é simplesmente muito móvel”, diz Liam Bailey, em entrevista ao ECO Avenida, a partir de Londres. Essa mobilidade tornou-se, segundo o responsável, um dos temas do relatório de 2026.
Já não se trata apenas de multimilionários a escolherem entre Londres, Nova Iorque, Dubai ou Miami. Trata-se de famílias, trabalhadores do conhecimento, gestores de empresas globais e investidores que conseguem viver, trabalhar e deslocar capital com uma facilidade impensável há duas décadas.
Liam Bailey dá o exemplo de Londres. O mercado residencial acima de dez milhões de libras tem estado mais fraco, em parte devido à pressão fiscal. Mas o segmento entre cinco e dez milhões de libras continua mais dinâmico. A explicação, diz, está no comportamento dos compradores ricos: “Continuam a querer uma base em Londres”, diz, mas evitam comprometer-se com uma grande residência permanente num contexto fiscal mais exigente. “Compram casas mais pequenas, usam a cidade de forma mais intermitente e preservam flexibilidade”, resume.
A própria Knight Frank descreve o fenómeno como uma redistribuição da vida dos ultra-ricos por várias bases globais. O relatório nota que a mobilidade ultra elevada está a transformar padrões de compra e a alimentar a procura por arrendamento ultra-prime em cidades tradicionais. Segundo o The Wealth Report, um número crescente de indivíduos de elevado património passa menos de 90 dias por ano nos centros tradicionais, preferindo uma lógica de residência múltipla, acesso e conveniência.

A mobilidade fiscal também está no centro da equação. Liam Bailey aponta para a tensão entre governos que querem atrair riqueza e eleitorados que questionam os benefícios dessa atração, diz, lembrando os exemplos de Nova Iorque e Los Angeles. Ou, na Europa, Itália, com o seu regime fiscal de taxa fixa para residentes estrangeiros, ou Portugal e Espanha que também experimentaram, na última década, diferentes programas de atração de investimento e residência.
Bailey diz que há sempre um equilíbrio difícil para os governos entre a concentração da riqueza que cria uma reação política e o facto de “os políticos quererem essa riqueza na sua economia para a poder taxar”.
Em Portugal, Lisboa e Porto atraíram investimento internacional, residentes estrangeiros, compradores de segunda habitação e projetos orientados para segmentos altos. Em última análise, diz Liam Bailey, “a oferta é realmente a chave para ajudar a gerir o acesso”, afirma.
Haverá alguma cidade europeia que esteja a gerir bem a mobilidade da riqueza e o acesso dos jovens à habitação? “Aquilo que aconteceu em Lisboa, aquilo que aconteceu no Porto, também aconteceu em Londres e em Paris”, diz Liam Bailey.
“Todas as cidades bem-sucedidas enfrentam este desafio de acesso”. E acrescenta: “Os jovens trabalhadores provam, vezes sem conta, que estão dispostos a suportar condições de acesso muito difíceis para estarem perto do emprego e das oportunidades. Quando nos afastamos das principais cidades e dos principais polos culturais e de negócios na Europa, tendemos a verificar que os problemas se tornam muito menos pronunciados. No Reino Unido, por exemplo, basta afastarmo-nos de Londres. Não digo que não seja um problema, mas é muito menos acentuado”.
Bailey admite que o desafio é mais agudo nas cidades, onde compradores internacionais competem diretamente com residentes locais. Em zonas de resort, residências de marca ou mercados menos pressionados, esse investimento pode funcionar como uma espécie de válvula de segurança.
É neste ponto que entram as branded residences, uma das expressões mais visíveis da nova economia da mobilidade. Para Liam Bailey, não se trata apenas de marketing. O modelo cresceu porque responde a uma necessidade concreta: os compradores internacionais querem confiança, gestão, serviços e conveniência.
Um norte-americano que compra na Europa pode não conhecer a legislação fundiária portuguesa, mas reconhece uma marca como Four Seasons. Essa familiaridade reduz a distância psicológica da compra. Na hora de investir, “um comprador pode sentir-se um pouco fora da sua zona de conforto no que toca a lidar com a lei portuguesa, mas a marca Four Seasons é reconhecida. Dá-lhe confiança para dar esse passo”, explica.
Bailey liga diretamente esta tendência à mobilidade global. Quem passa o ano entre várias cidades valoriza uma propriedade gerida, com serviços, manutenção e potencial de colocação em arrendamento. “As pessoas estão dispostas a pagar mais, por essa conveniência, precisamente porque não passam todo o seu tempo num único lugar”.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.