Quem tem menos vai pagar mais pela guerra no Médio Oriente, alerta estudo do BCE

Menos poupança, mais inflação e uma conta que cai sobretudo no orçamento de quem já tem menos é o cenário que quatro economistas do Banco Central Europeu traçam se a guerra no Golfo se agravar.

ECO Fast
  • A guerra no Médio Oriente pode impactar profundamente as finanças das famílias europeias, segundo um estudo do Banco Central Europeu.
  • Os economistas destacam que a deterioração dos termos de troca e a incerteza dos consumidores podem reduzir a taxa de poupança, afetando a economia da Zona Euro.
  • Se os choques se materializarem simultaneamente, a Europa poderá enfrentar um crescimento mais fraco e inflação elevada, complicando a gestão do BCE.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O fantasma da guerra não se fica pelas trincheiras. Quando os conflitos se arrastam nas regiões produtoras de energia, os seus efeitos propagam-se silenciosamente até às poupanças de quem vive a milhares de quilómetros.

É esse o aviso que um grupo de quatro economistas do Banco Central Europeu lança num estudo publicado segunda-feira no Boletim Económico da instituição, notando que a guerra no Médio Oriente pode ter consequências profundas no comportamento financeiro das famílias europeias e, por extensão, em toda a economia da Zona Euro.

Niccòlo Battistini, Alina Bobasu, Rodolfo Dinis Rigato e Hanno Kase analisaram dois canais de transmissão que, apesar de apontarem em sentidos opostos no imediato, se reforçam mutuamente quando atuam em simultâneo, tornando o seu impacto combinado ainda mais preocupante do que a soma das partes.

  1. Choque adverso nos termos de troca associado à subida dos preços da energia. Quando os preços da energia importada sobem, os termos de troca deterioram-se, reduzindo o rendimento real disponível das famílias, tanto diretamente (energia mais cara) como indiretamente (pressão sobre salários reais e lucros das empresas). Este choque reduz a taxa de poupança, porque as famílias ficam simplesmente com menos dinheiro disponível.
  2. Choque de incerteza dos consumidores associado ao clima de medo e imprevisibilidade gerado pelo conflito geopolítico. Quando os consumidores ficam receosos quanto ao futuro, adotam um comportamento de poupança preventiva, refreando o consumo. Este choque aumenta a taxa de poupança, mas de forma economicamente destrutiva a nível coletivo.

O ponto de partida é a taxa de poupança das famílias europeias que estava, em 2025, acima do seu valor mais elevado anterior à pandemia, depois de ter subido a grande velocidade em 2022 e 2023. Os economistas do BCE sublinham que este nível elevado de poupança reflete, em grande medida, um crescimento real do rendimento robusto aliado a uma procura interna contida, num contexto de queda dos preços reais da energia.

Um choque adverso nos termos de troca de magnitude comparável à deterioração observada durante 2022 reduziria a taxa de poupança em 0,3 pontos percentuais no seu ponto mínimo, no início de 2027.

Niccòlo Battistini, Alina Bobasu, Rodolfo Dinis Rigato e Hanno Kase

Economistas do Banco Central Europeu

Contudo, alertam que “as repercussões económicas da guerra no Médio Oriente podem inverter as tendências recentes nos preços da energia e na incerteza, com implicações para a taxa de poupança”. A subida dos preços da energia é o primeiro e mais imediato desses canais.

Num quadro de deterioração dos termos de troca, o rendimento real disponível das famílias reduz-se diretamente, através do encarecimento dos produtos energéticos importados, e indiretamente pela pressão sobre os salários reais e os lucros distribuídos pelas empresas.

O modelo empírico dos investigadores indica que “um choque adverso nos termos de troca de magnitude comparável à deterioração observada durante 2022 reduziria a taxa de poupança em 0,3 pontos percentuais no seu ponto mínimo, no início de 2027”. Significa que as famílias não poupariam menos por escolha, mas por necessidade, porque simplesmente sobra menos dinheiro no final do mês.

O segundo canal opera pela via do medo. A incerteza dos consumidores, muitas vezes desencadeada pelos mesmos choques energéticos, funciona em sentido contrário: empurra as famílias para uma poupança preventiva, refreando o consumo.

O estudo conclui que “uma subida da incerteza amplamente consistente com a observada no início da invasão da Ucrânia pela Rússia elevaria a taxa de poupança em 0,4 pontos percentuais no seu pico, no final de 2027”.

Se a tensão geopolítica no Médio Oriente se intensificar e os dois choques se materializarem em simultâneo, a Europa poderá enfrentar um cenário de crescimento mais fraco e inflação mais elevada.

Este mecanismo de “guardar para o que der e vier” é racional a nível individual, mas pode tornar-se destrutivo a nível coletivo porque menos consumo significa menos receitas para as empresas, menos emprego, e um ciclo de contração difícil de travar.

Este efeito coletivo é preocupante por si só, mas o estudo revela uma dimensão ainda mais inquietante, notando que o impacto não recai da mesma forma sobre todos:

  • Quem paga a conta mais pesada com a subida dos preços da energia são, invariavelmente, as famílias de rendimentos mais baixos. Utilizando um modelo de equilíbrio geral com agentes heterogéneos (o chamado modelo HANK), os investigadores revelam que “os agregados familiares do tercil de rendimentos mais baixo representam mais de metade (54%) do declínio no consumo” provocado por um choque adverso nos termos de troca, apesar de esse grupo representar apenas 18% do consumo total em condições normais. Falta-lhes liquidez para absorver o impacto.
  • As famílias mais ricas, com maiores almofadas financeiras, conseguem manter os seus padrões de consumo recorrendo às poupanças acumuladas, o que agrava as desigualdades já existentes.

As implicações macroeconómicas dos dois choques são igualmente preocupantes, embora com efeitos opostos sobre a inflação. Usando o modelo ECB-BASE, os economistas estimam que a deterioração dos termos de troca aumentaria a inflação medida pelo Índice Harmonizado de Preços do Consumidor (IHPC) em 0,4 pontos percentuais, com a taxa a ser “impulsionada quase inteiramente pela componente energética”, e reduziria o crescimento em 0,1 pontos percentuais em 2027.

A maior incerteza dos consumidores, por sua vez, não alimenta a inflação, mas pesa mais no crescimento, com uma redução estimada de 0,3 pontos percentuais no mesmo ano, calculam os autores do relatório. Juntos, os dois choques reforçam-se mutuamente e representam uma ameaça séria: “o efeito combinado destes choques poderia exercer uma pressão considerável sobre o crescimento, mesmo com uma taxa de poupança amplamente estável”, salientam os economistas.

A conclusão do estudo é clara e serve de aviso às autoridades europeias. Se a tensão geopolítica no Médio Oriente se intensificar e os dois choques se materializarem em simultâneo, a Europa poderá enfrentar um cenário de crescimento mais fraco e inflação mais elevada, a combinação mais difícil de gerir para qualquer banco central.

A guerra fica longe, mas as suas consequências chegam ao supermercado, à bomba de gasolina e, eventualmente, ao saldo bancário de cada família europeia. A prudência, dizem os economistas do BCE, exige que se esteja preparado para esse cenário.

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