BRANDS' ECO Aumento das comunicações de operações suspeitas: um sinal de maturidade e de novos desafios do sistema

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  • 13 Maio 2026

O aumento de quase 90% das comunicações de operações bancárias suspeitas revela um sistema financeiro mais atento, mas também novos desafios no combate ao branqueamento de capitais.

Os dados recentemente divulgados pelo Departamento Central de Investigação e Ação (DCIAP) apontam para um aumento das comunicações de operações bancárias suspeitas de quase 90% em apenas três anos. Em primeira análise, esta situação poderá ser interpretada como um agravamento dos fenómenos de branqueamento de capitais e da criminalidade ao nível financeiro. Contudo, analisando esta informação de outra perspetiva, é possível que as conclusões a retirar possam ser mais abrangentes.

Este crescimento reflete, na sua maioria, um sistema financeiro e institucional mais atento, maduro e alerta, expondo ainda fragilidades estruturais que exigem uma resposta técnica especializada, integrada e cada vez mais sofisticada.

João Carvalho Reis, Senior Manager Forensic & Integrity Services, EY

Por um lado, existe um aumento real da criminalidade em termos económicos e financeiros. A proliferação da cibercriminalidade, a utilização de estruturas globais, intermediários digitais e mecanismos de fragmentação de operações, tornaram os esquemas de branqueamento de capitais mais complexos, sendo mais difícil identificá-los e provar a sua ocorrência. O crime financeiro é, hoje em dia, altamente tecnológico, acontece de forma muita rápida e sofre mutações constantes.

Por outro lado, o reforço dos mecanismos de compliance, a pressão regulatória – em Portugal e na União Europeia –, e a responsabilização crescente das entidades obrigadas explicam uma grande parte deste aumento nas comunicações de operações suspeitas. As instituições financeiras estão mais bem preparadas, mais bem treinadas e mais conscientes dos riscos reputacionais, penais e regulatórios aos quais se encontram expostas. E, perante a incerteza em numa operação suspeita, realizam mais comunicações.

Este contexto cria assim um paradoxo relacionado com a quantidade e a qualidade da informação reportada. Mais comunicações levam a uma maior pressão sobre o Ministério Público, sobre os Tribunais, sobre as unidades de investigação e sobre os próprios departamentos de compliance das empresas.

Desta forma, e não existindo uma análise aprofundada, uma triagem qualificada e uma capacidade de investigação especializada, poder-se-á incorrer no risco de transformar um sistema de prevenção num sistema baseado na defesa e na tomada de ações reativas. É neste ponto que o papel de equipas especializadas assume uma relevância crítica.

Estas áreas, especializadas em investigações de fraude, branqueamento de capitais e em diversos temas de compliance, acompanham diariamente este fenómeno, tanto do lado das instituições financeiras como de empresas, entidades públicas e organizações que se veem envolvidas, direta ou indiretamente, em investigações criminais contraordenacionais ou regulatórias. O verdadeiro desafio já não está apenas na deteção inicial de operações suspeitas, mas na capacidade de analisar, contextualizar e transformar dados financeiros complexos em informação robusta que permita a tomada de ações concretas.

As investigações de branqueamento de capitais exigem hoje uma combinação específica de competências: conhecimento aprofundado do sistema financeiro, domínio dos enquadramentos legais e regulatórios, rastreabilidade de fluxos financeiros, análise avançada de dados e, cada vez mais, uma compreensão dos sistemas e da tecnologia disponível. Não basta identificar um padrão atípico, é também essencial explicar o motivo pelo qual ocorreu, o método utilizado, de que forma foi utilizado e quem efetivamente o concretizou, de forma independente.

Ao longo dos últimos anos, a intervenção de equipas especializadas no apoio a diversos casos complexos de investigações internas, na resposta a autoridades judiciais e regulatórias, na revisão de sistemas de prevenção e na implementação de programas de integridade eficazes tem sido solicitada com maior frequência.

Estas experiências têm vindo a crescer, valorizando as equipas de especialistas forenses, não apenas com uma intervenção reativa – apoiando em situações concretas de crise –, mas também para o desenvolvimento de ações que permitam a mitigação dos riscos futuros, evitando a ocorrência de novas situações de crise.

O crescimento das suspensões de operações bancárias e dos inquéritos realizados levanta ainda outra questão essencial: a necessidade de equilíbrio entre prevenção e proporcionalidade. Um sistema que suspende mais não é necessariamente um sistema mais justo ou mais eficaz. A eficácia mede‑se na capacidade de distinguir rapidamente o risco real do falso positivo, protegendo o sistema financeiro sem paralisar indevidamente a atividade económica legítima.

O nosso país acompanha a tendência europeia e internacional no combate à criminalidade financeira. Contudo, o que marca a diferença não é apenas o volume de transações ou o número de operações suspensas, nem a quantidade de inquéritos realizados, mas sim a qualidade das investigações, das análises concretas e da resposta das entidades. E, para isso, é necessária a realização de um investimento contínuo por parte das entidades públicas e privadas em especialistas independentes.

O crescimento de quase 90% das comunicações de operações bancárias suspeitas constitui um alerta, mas também uma oportunidade para reforçar capacidades, reforçar a profissionalização das funções de compliance e reconhecer que o combate eficaz ao branqueamento de capitais não se restringe ao estabelecimento de regras, mas também ao know-how e experiência forense ao nível das transações financeiras.

João Carvalho Reis, Senior Manager Forensic & Integrity Services, EY

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