“As tecnologias dual use são claramente uma via de crescimento para Portugal”

As tecnologias de uso dual podem ser a chave para o posicionamento estratégico do país no setor da defesa, defende David Gonçalves, partner EY Consulting, na conferência eRadar.

David Gonçalves, Partner EY Consulting, durante uma intervenção na Conferência Anual eRadar.

“Nos próximos anos, claramente haverá países que compram defesa e países a vender capacidade e soberania. A escolha de Portugal é simples: ou é um espetador desta reindustrialização europeia ou então pode fazer parte desta infraestrutura de segurança que está a acontecer na Europa. Estou muito confiante de que seremos parte integrante da solução”, atira David Gonçalves. Para o partner da EY Consulting, as tecnologias de uso dual podem ser a chave para o posicionamento estratégico do país no setor da defesa.

Os números são claros sobre o impacto que o atual momento geopolítico está a ter no investimento no setor da Defesa na Europa, mas não só.

“Enquanto a Europa, se estamos aqui a falar num crescimento de 5,3% — se olharmos para a União Europeia, naturalmente, isso ainda é maior [8,7%] —, mas também o Middle East [7,2%], na América Latina [6,4%] e na GeoMix, vemos as taxas de crescimento do investimento na defesa a crescer e a ‘cavalgar’ todos os anos”, aponta David Gonçalves, durante a conferência do eRadar que decorreu esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Slide da apresentação de David Gonçalves da EY na conferência eRadar.

 

Slide da apresentação de David Gonçalves da EY na conferência eRadar.

 

Na Defesa, Portugal é um dos membros europeus da NATO sem locais de produção relevantes nos domínios marítimo militar, terrestre, aeroespacial ou de armas guiadas, mas para o partner da EY essa realidade não significa necessariamente que não possa haver oportunidades para indústria e economia do país, num momento em que a Europa procura reduzir a sua dependência de blocos externos em termos de capacidade de defesa da região.

“Portugal já tem um tecido empresarial de defesa bastante considerável. [As empresas] Atuam, sobretudo, como fornecedores T2, T3, serviços e tecnologias [produzem componentes ou matérias-primas que compõem o produto; ou fornecem matérias-primas brutas ou componentes básicos], mas acreditamos que existe algo que se possa fazer e ter aqui um valor muito maior no ecossistema da defesa”, começa por referir David Gonçalves.

David Gonçalves, Partner EY Consulting, durante uma intervenção na Conferência Anual eRadar.José Carlos Carvalho/ECO

E explica o motivo desse otimismo. “Não só com o talento que existe aqui, mas a vantagem de sermos mais pequenos e de partirmos de trás é que tudo aquilo que construímos consegue ser muito mais ágil. Portanto, quando estamos à mesa com os chamados ‘tubarões’ conseguimos adaptar a nossa cadeia de produção, a nossa cadeia de abastecimento, para responder àquilo que são as dinâmicas que hoje em dia se alteram a cada dia”, destaca o partner da EY.

Oportunidades que podem ser potenciadas pelo setor de defesa mas também por outras indústrias. No país, “existe uma base industrial com elevado valor para a militarização e não só”, aponta. E dá como exemplo o setor da pasta em papel. “Hoje em dia fazemos 27% das exportações da União Europeia de pasta de madeira. A matéria-prima não deixa de ser um desafio, mas a pasta é extremamente importante na cadeia de valor do fabrico de munições”, destaca. “Há claramente aqui uma oportunidade que não estamos a explorar e que, se calhar, com os incentivos certos, conseguimos fazer”, diz.

Mas não só. “Portugal, neste momento, é líder em moldes de fina precisão. Isto, claramente, tem uma vantagem competitiva para a indústria da defesa”, refere ainda.

Mas são nas tecnologias de uso dual que o partner da EY vê uma oportunidade para o posicionamento do país. “As tecnologias dual use são, claramente, uma via de crescimento para Portugal, que tem inovação competitiva em nichos de elevado valor”, defende David Gonçalves.

“Portugal tem tecnologia de alto calibre”, diz e dá como exemplo a Tekever. A unicórnio “já atraiu dezenas de milhões de investimentos para fazer este scaleup global, está a fazer vigilância de muitos países”, diz. E deixa uma questão. “Porque é que não estamos a aproveitar esse potencial para vigilância da nossa costa, como esta empresa já está a fazer em outros países?”, atira.

David Gonçalves elenca os desafios futuros do setor, tanto para o setor público, como privado. Se no público o desafio é a coordenação multinacional, mas também a “aproximação do setor privado e integração de tecnologias emergentes”, no privado há dois temas: escala e necessidades intensivas de capital.

“Para o setor privado, [os desafios] prendem-se com a necessidade de escala. Claramente, tem que haver aqui parcerias e também alguma consolidação no mercado”, diz. E a constante necessidade de inovação a longo prazo exige “necessidades intensivas de capital”.

“Não é só esta bazuca de investimento que vai trazer inovação, tem que haver sustentabilidade desta inovação, para continuar a garantir que essa inovação acontece ao longo do tempo”, sintetiza.

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