“Produzir maçã em Armamar tem maior risco que um petroleiro a atravessar Ormuz”

O CEO da seguradora agrícola Hagel afirma que algo não está a funcionar no modelo de seguro de colheitas se o objetivo for que o agricultor continue a investir, semear e colher com maior segurança.

No Dia do Agricultor, que se celebra esta sexta-feira, dia 15 de maio, a Hagel, seguradora agrícola que já é segunda maior deste mercado, assinala a importância de um seguro agrícola claro, técnico e adaptado à realidade de cada exploração. Filipe Charters de Azevedo, Mandatário Geral e CEO da companhia suíça que se estabeleceu em Portugal em 2025 afirma que, num contexto em que os fenómenos meteorológicos são cada vez mais frequentes e severos, “proteger a produção deixou de ser apenas uma decisão financeira: é uma ferramenta de continuidade, planeamento e resiliência”, disse.

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Filipe Charters de Azevedo: “Não basta introduzir melhorias pontuais nos seguros agrícolas – seja através do ajustamento das taxas de referência, da redefinição das regiões, da revisão dos apoios públicos ou da redução da burocracia”.Hugo Amaral/ECO

No entanto, Filipe Charters sublinha que para que o seguro agrícola cumpra verdadeiramente esta função, é necessário olhar com realismo para o mercado português. É que, diz, excluindo a vinha apenas cerca de 6% dos capitais agrícolas estão cobertos por seguro. A comparação com Espanha é particularmente expressiva: o mercado espanhol de seguros agrícolas consegue um volume de prémios anual de 1.000 milhões de euros, 33 vezes mais que Portugal, que registou 30 milhões de euros em prémios em 2025.

“O agricultor vive com o risco todos os dias. O papel do seguro agrícola é transformar parte dessa incerteza em previsibilidade, permitindo que o produtor continue a investir, semear e colher com maior segurança”, refere Filipe Charters de Azevedo, mandatário geral da seguradora.

Exemplo do que deve mudar

Para ilustrar, Filipe Charters conta que, em 2026, o Interior Norte – que até então concentrava mais de metade de todos os seguros agrícolas do país – enfrentou um colapso motivado por fenómenos de seleção adversa e pela utilização inadequada de apoios públicos. “Como consequência, muitos produtores, sobretudo de maçã nas zonas de Lamego, Viseu, Armamar e Moimenta da Beira deixaram de contratar seguros”, diz.

“Para o Estado, neste momento, assegurar a produção de maçã em Armamar representa um risco superior ao de um petroleiro atravessar o Estreito de Ormuz”, comenta Filipe Charters.

Explica que os produtores que aceitam pagar 30% da receita em prémio de seguro, antecipam sinistros e contam com a indemnização certa para compensar o prémio. Charters de Azevedo reforça que o problema não se esgota nesta relação direta entre produtores e seguradoras. “O Estado subsidia os prémios, o que significa que os produtores pagam cerca de metade do valor e recebem a indemnização por inteiro. Numa região onde geadas e granizos são praticamente garantidos, o seguro passou a ser percecionado como um investimento”.

Em 2025, por coincidência, houve menos geadas. Muitos produtores acabaram por pagar cerca de 15% da sua receita sem receber indemnização do costume, o que contribuiu para o colapso do sistema no Interior Norte. “Em 2026, a adesão aos seguros nessa região é residual”, relaciona o líder da Hagel.

Analisando a partir do exemplo, a Hagel defende que, para mitigar o risco e apoiar os produtores, “não basta introduzir melhorias pontuais nos seguros agrícolas – seja através do ajustamento das taxas de referência, da redefinição das regiões, da revisão dos apoios públicos ou da redução da burocracia”. Embora considere todas estas medidas sejam relevantes, a verdade é que o seguro de colheitas existe desde os anos 80 e continua a registar uma adesão limitada. Por isso, defende ser necessário repensar a abordagem: “não podemos recorrer às mesmas soluções e esperar resultados diferentes”, conclui.

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