Direção de Informação da Lusa envia carta a autarca de Gaia após acusações de manipulação

Lusa e + M,

No entender da CM Gaia, uma notícia que teve por base a agência Lusa "procura induzir no leitor o que seria o 'escândalo' de uma gestão municipal". A Lusa repudia as acusações.

A Direção de Informação (DI) da Lusa, apoiada pelo Conselho de Redação, enviou uma carta ao presidente da câmara de Vila Nova de Gaia na qual criticou a postura do executivo, depois de acusar a agência de “tentativa de manipulação”.

Numa nota divulgada na quinta-feira, a DI da Lusa disse ter enviado uma carta a Luís Filipe Menezes “repudiando acusações que o seu executivo dirigiu à agência”. Em causa está um comunicado publicado nas redes sociais da autarquia, que acusa a Lusa de “tentativa de manipulação”, que qualifica de “lastimável, mentirosa e reles”, além de “habitual”.

O comunicado, em termos que a DI considerou “muito gravosos para a agência e para o jornalismo”, refere-se a uma notícia da Lusa publicada no Jornal de Notícias e baseada em informações publicadas no Diário da República. A notícia em causa noticiava a anulação de um concurso para 136 funcionários no dia seguinte à informação da abertura de concursos para 93 cargos de chefias na mesma autarquia.

No entendimento da autarquia, de acordo com o comunicado, “o desenvolvimento da notícia [publicada pelo Jornal de Notícias], cuja fonte foi a demasiado habitual manipulação da Agência Lusa, procura induzir no leitor o que seria o ‘escândalo’ de uma gestão municipal que renegava a entrada nos quadros da Câmara de mais de uma centena de jovens à procura do seu primeiro emprego para, em contrapartida, dar 93 ‘tachos’ com altos ordenados a amigos do Poder”.

Nesse comunicado, a Câmara de Vila Nova de Gaia explica que “os concursos anulados visaram poupar orçamentalmente a Câmara num primeiro ano de mandato e, em simultâneo, programar admissões futuras com critérios de rigor na gestão de recursos humanos”. Por sua vez, “o referenciado concurso para chefias, mais não é do que, cumprindo a Lei, obrigar a exigentes exames de competência e capacidade, aos quadros que já se encontram em funções, mas que, em início de mandato têm nomeações precárias antes de serem legitimados com novos concursos internos”.

A DI da agência Lusa diz ter falado com os jornalistas, que apontaram que “foi dada oportunidade à câmara de se pronunciar sobre os factos noticiados, o que não foi aceite”, acabando o comunicado por ser publicado “pouco depois”. “A DI manifestou ainda o seu repúdio pelos termos em que o comunicado se refere ao assunto, extrapolando para o exercício da profissão de jornalista, por palavras que só podemos considerar ofensivas e lamentáveis”, refere, na nota.

A Direção de Informação disse estar preocupada com a repetição de casos deste tipo, apontando que o jornalismo “é uma profissão que só pode ser exercida em liberdade”. Durante esta sexta-feira, o Conselho de Redação da Lusa expressou, em comunicado, apoio à DI.

“As acusações dirigidas à Lusa pela Câmara Municipal de Gaia são injustas e desproporcionadas, sobretudo quando a notícia em causa se baseou exclusivamente em informação oficial publicada em Diário da República”, refere o organismo representante dos trabalhadores. O Conselho de Redação da Lusa reforçou que estes ataques “não só desvalorizam o papel essencial da imprensa livre, como procuram fragilizar o exercício responsável da profissão”.

O vice-presidente da câmara de Gaia, Firmino Pereira, em resposta ao jornal Público na quinta-feira, defendeu que “os termos são perfeitamente admissíveis”, atendendo à forma “populista e demagógica” como a notícia foi dada. Mesmo tratando-se de uma notícia com base em duas publicações em Diário da República, no seu entender, “a Lusa, de forma astuta, tenta confundir” os dois assuntos. Firmino Pereira não desmentiu a notícia, mas referiu que a câmara ficou insatisfeita com a forma como “o jornalista da Lusa construiu a narrativa”. O autarca afirma que mostrou o seu descontentamento junto de responsáveis da redação do Norte da agência e considera que é a Lusa que tem de pedir desculpa.

Recorde-se que, em abril, a presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, acusou o jornalista da Lusa João Gaspar de ter cometido uma falha deontológica grave e de ter uma agenda política. A autarca acabou por retratar-se publicamente das acusações que tinha feito ao jornalista, admitindo que teve “um momento infeliz, que não se voltará a repetir”.

No passado dia 4 de maio, a Comissão de Trabalhadores da Lusa denunciou que foi alvo de comportamentos intimidatórios por um funcionário do gabinete do ministro da Presidência, que detém a tutela sobre a comunicação social – conduta considerada inadequada pelo chefe de gabinete de Leitão Amaro.

No comunicado, a CT salientou que, “contrastando com a reunião formal com o ministro António Leitão Amaro, a qual decorreu de forma cordata apesar das divergências de pontos de vista, o alto funcionário interpelou” a Comissão de Trabalhadores “em tom insultuoso e intimidatório pondo em causa a idoneidade dos representantes dos trabalhadores”.

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